Fonte: Deixou Chegar
Eu tive um sonho. Foi um sonho estranho, é verdade. Geralmente, quando durmo, não vejo as imagens que desejo. Minhas noites muitas vezes são mal dormidas, atordoadas pelos meus sonhos. Mas dessa vez eu vi algo de que realmente gostei. Algo que representasse o significado que costumamos dar ao termo.
Eu me vi justamente num estádio de futebol, um dos lugares em que chego mais próximo do lúdico. O estádio não era identificável, mas era enorme. Maior que ele, só a torcida, que se apertou para entrar toda ao mesmo tempo, com pressa para o jogo. Aquela imensa horda carregava o vermelho e preto e as marcas de gentes de todos os tipos, que ali se misturavam.
Já que falavam português, supus que fosse no Brasil (se bem que jamais sonhei com pessoas falando outra língua). As bandeiras eram imponentes. Num suspiro por elas, quase botei tudo a perder e acordei. Voltei ao gigante e à massa. O barulho fazia vibrar o concreto, que tinha cadeiras somente em alguns setores. As pessoas se organizavam, entre traços e feições, pelo lugar mais adequado para o que viria, e que eu não esperava ver.
Em meus sonhos sobre futebol, uma coisa sempre me pareceu faltar: jamais consegui ver o que se passava dentro de campo. Já ouvi falar dos placares de jogos esperados, até mesmo já fui avisado por algum parente sobre o vencedor de uma decisão. Ver gols, melhores momentos ou uma cena que fosse da peleja? Nunca.
Nem mesmo nesse sonho consegui. Pela primeira vez, porém, aquilo não foi tão essencial. Por causa da festa que me cercava. Por conta da entrega daquelas pessoas. O delírio coletivo em torno de uma única paixão que une tantas pessoas. Viver aquilo tudo compensava qualquer cena perdida do jogo. Por poder experimentar a festa, a paixão e o reconhecimento do torcedor a partir da torcida, o sentimento de coletividade sem mesmo conhecer, ignorando o contexto perverso que existe fora daquele caldeirão social.
O jogo acabou, afinal. Vencemos, comemoramos, até quase chorei junto a um desconhecido. Alguns invadiam o gramado. Vai ver era jogo de título. Não sabia como havia sido o gol, mas de carrinho ou de bicicleta, certamente foi de enorme valor, só pelas cenas proporcionadas. Foi aí então que me deparei que aquilo parecia familiar.
Era mesmo o Brasil. Não tinha como não ser. Era o povo ao qual pertenço, com o qual cresci. Era o esporte pelo qual me apaixonei, ainda mais apaixonante. Mas não era, estranhamente, o meu Flamengo. Era um outro clube, num outro Brasil, com um outro modo de ver o futebol. Onde as marcas, as cifras, os balanços são secundários. Onde a paixão basta. Onde o futebol vive sua experiência máxima. Sem amarras, com a liberdade para se tornar o cenário de sonhos tão loucos, que nem Jung talvez fosse capaz de explicar. Mas o que o velho Carl entendia sobre futebol mesmo? Talvez esse outro Flamengo, de ilusões, de projeções e interpretações distintas, seja o verdadeiro que tanto procuramos. Talvez seja melhor sonhar mesmo.
No próximo domingo, vou ao Maracanã assistir ao Flamengo e, ciente de que dificilmente encontrarei, buscarei esse clube que apareceu no meu sonho. E ele há de aparecer um dia, que será o mais belo dos domingos.
“Pixinguinha – Samba do Urubu”

Caras, não aguento mais especulações. Pensem numa coisa chata. Nada concreto! Meu Deus! PQP
Caras, não aguento mais especulações. Pensem numa coisa chata. Nada concreto! Meu Deus! PQP