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Campeão brasileiro pelo Flamengo e quase preso em guerra na Líbia

Milton Medeiros
Milton Medeiros
Publicação: 12/06/2015
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Atualização: 12/06/2015
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Fonte: UOL

Nem tudo no futebol se resume ao que acontece dentro das quatro linhas. O sucesso dentro dos campos não impediu que um campeão brasileiro pelo Flamengo em 1992 passasse por sérios apuros quando se aventurou a trabalhar com a seleção nacional da Líbia em 2010, pouco antes da guerra civil que acabou com intervenção militar da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e a derrubada e morte do ditador Muammar al-Gaddafi no ano seguinte.

E a guerra passou bem perto do ex-preparador físico de Flamengo e Fluminense Helvécio Pessoa, integrante da comissão técnica comandada por Marcos Paquetá na seleção líbia na época da crise. Ele morava na capital do país, Trípoli, e chegou a presenciar conflitos armados na cidade antes de conseguir superar os obstáculos para retornar ao Brasil. E por pouco o brasileiro não fica preso em meio à guerra.

“Nossos passaportes estavam no comitê olímpico, quando fomos lá busca-los estava tudo destruído pelos revolucionários. Resolvemos deixar o país imediatamente. Procuramos no meio da destruição e, por sorte, o único armário que não quebraram era o que estava com nossos passaportes. O embaixador brasileiro tinha prometido nos ajudar até, mas acabamos encontrando os documentos. Quando fomos comprar passagens para retornar ao Brasil, quase ficamos sem. No desespero, conseguimos passagens pela internet em um dos últimos voos comerciais que saíram de lá”, explicou Helvécio, que deixou a Líbia às pressas e chegou a abandonar bens pessoais no país.

“Muita gente não conseguiu sair, somente depois, em navios. Deixamos muita coisa lá porque não dava para levar. O aeroporto estava lotado, uma confusão, todos querendo sair. Mal conseguíamos andar com as nossas malas. Depois que entramos no avião deu aquele alivio e começou a doer tudo. Só de atraso nosso voo teve sete horas. Ficamos preocupados, desespero, fome”, lembrou o preparador físico, atualmente em atividade em uma equipe da África do Sul.

Apesar das dificuldades, a sorte estava ao lado do brasileiro. A família de Helvécio visitou o preparador por cerca de dois meses entre as festas de fim de ano e o aniversário dele, no começo de fevereiro. A mulher e os dois filhos deixaram o país apenas uma semana antes do início dos conflitos, mas sequer passaram perto da tensão vivida pelo preparador.

“Eles não levaram nem o susto. Só teve uma situação em que estávamos eu e um dos meus filhos conversando pela internet pelo Skype e eu falava que estava tudo calmo. Em Trípoli haviam poucos focos de conflito. Mas, daqui a pouco, no meio da conversa, começamos a ouvir aviões, tiros. Eu dizia que não era nada, mas a conexão caiu. Ele chegou a achar que tinha caído uma bomba lá em casa e tudo”, recorda Helvécio.

O trabalho da comissão técnica formada por brasileiros na seleção líbia, no entanto, não foi interrompido pelo conflito civil no país. Mesmo em meio a dificuldades e com os então revolucionários assumindo o comando do futebol local, a equipe conseguiu a vaga para a Copa Africana das Nações de 2012 se preparando no exterior. Isso não quer dizer que a guerra ficou distante da realidade dos jogadores.

“Tínhamos jogadores que vinham diretamente da guerra, outros que não podiam se apresentar porque estavam do lado do Gaddafi, enquanto outros que estavam lutando a favor dos revolucionários. Quando pegávamos o time para uma competição, vinham bem desgastados. Tínhamos que recuperá-los emocionalmente e fisicamente”, explica o preparador.

“Alguns estavam no exército e falavam que não queriam ir, que queriam continuar lutando. Mas foram convencidos de que estariam na seleção defendendo o pais também. O que mais me marcou foi quando estávamos em preparação e os jogadores iam visitar o hospital na Tunísia, viram o pessoal mutilado pela guerra, voltavam emocionalmente arrasados, as vezes eram parentes, amigos”, conta Helvécio. “Serviu muito de motivação porque eles queriam fazer jogar a Copa Africana de Nações diante de todas as dificuldades. Até para a gente servia, não podíamos deixar os caras na mão”, completou.

Mesmo com a experiência marcante e o fim da ditadura de Gaddafi, o preparador garante que não voltaria ao país a trabalho até pelo clima bélico que ainda predomina a região. Para Helvécio, o trabalho em países menos desenvolvidos no esporte como Líbia e África do Sul compensa financeiramente, mas o momento é de retornar ao futebol brasileiro.

“A minha vontade agora é ficar no Brasil. O que eu queria estar no Brasil num clube bem estruturado, como trabalhei no Flamengo, no Fluminense. Hoje em dia está muito melhor, mais organizado. Minha ideia era passar a integrar uma comissão permanente. Não tenho condição de entrar numa comissão técnica e procurar um clube até por ter passado 12 anos no exterior, então minha vontade era ir para um clube e usar essa experiência”, encerrou o preparador.

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