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Controlar a ansiedade

Milton Medeiros
Milton Medeiros
Publicação: 02/06/2015
Nenhum comentário
Atualização: 02/06/2015
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Fonte: República Paz & Amor

Apesar da nossa musa ter perdido as estribeiras e chutado o pau da barraca, não dava para esperar nada muito diferente no FlaxFlu. É claro que todos já vimos vários times reagirem à mudança de técnico com atuações melhores e vitórias revigorantes, mas no Flamengo as coisas nunca são simples assim. A cobrança é homérica, e tem que ser.

Vínhamos reclamando das invencionices, da prepotência e da falta de foco de Luxemburgo, que do final de 2014 para cá pôs de lado suas funções de treinador para tentar convencer o mundo esportivo brasileiro, com cansativas aparições na mídia, que ele continua sendo o que nunca deixou de ser: o mais genial, revolucionário, visionário, astuto, atualizado e incompreendido técnico de futebol que o planeta já conheceu. Seria mais convincente se, em vez de pontificar em todos os programas de esporte da grade televisiva, desse algum padrão de jogo àquele bando vestido de vermelho e preto. Colheu o que plantou e, para o bem de todos e felicidade geral da nação, se foi.

Também reclamávamos dos escorpiões nos bolsos da diretoria e da falta de qualidade do time – e os caras agiram. Guerrero pode dar errado? Pode. O nome disso aí é futebol. Mas precisamos reconhecer que, respeitando todas as imponderabilidades que cercam a formação de um elenco, a contratação de Guerrero é ótima aposta.

Vocês gostam do que o Tostão escreve? Eu gosto muito, e tomo a liberdade de reproduzir aqui uma das frases que ele incluiu no artigo “Prefiro o titês clássico”, publicado em 01.04.2015 na edição digital do jornal mineiro O Tempo. Está lá, no sexto parágrafo do texto: “Se Guerrero fosse brasileiro, seria titular da seleção.”

Na mesma edição que homenageou o gol de falta do Pet, o programa Esporte Espetacular mostrou uma reportagem de Ivan Moré com o técnico Tite. Uma das perguntas ao treinador do Corinthians foi a seguinte: “O Guerrero é o melhor atacante em atividade no Brasil?” Tite pensou por alguns segundos, como se repassasse mentalmente a lista dos principais atacantes que desfilam por nossos gramados, e respondeu firme: “Sim”.

Investir em Guerrero é muito diferente do que investir no Carlos Eduardo, que em dois anos no Rubin Kazan atuara apenas seis vezes. E diferente do que fez o Corinthians ao repatriar o volante Cristian, que quando chegou a Itaquera estava há mais de seis meses sem jogar pelo Fenerbahce. Guerrero vem jogando e bem, correndo, brigando, decidindo e ajudando.

A questão do atacante e do meia é outro ponto importante da discussão. (Vamos lá, rapaziada: todos à caixa de comentários.) É difícil para um centroavante jogar tudo o que sabe se não tiver quem o abasteça; por outro lado, é quase impossível alguém brilhar como meia sem um atacante que se mexa constantemente e seja bom de bola. Guerrero é um centroavante que se movimenta, cai para os lados do campo a fim de abrir espaços, incomoda os zagueiros o tempo inteiro e é muito bom finalizador. Não se impressionem com o que houve na partida entre Fluminense e Corinthians: perder gol faz parte da vida de todos os que têm a responsabilidade de fazê-lo. Talvez fosse mais urgente contratar um meia, mas se surgiu a chance de trazer um bom atacante – insisto: o melhor do Brasil, na abalizada opinião de Tostão –, por que não aproveitar? Pra mim, bola dentro.

E veio Cristóvão, o técnico sem títulos. Bom, e daí? Carpegiani, Carlinhos, Andrade e Jaime são treinadores que só ganharam títulos dirigindo o Flamengo. Cuca não tinha título relevante algum até levantar a Libertadores com o Atlético Mineiro e Marcelo Oliveira também não, até vencer o Campeonato Brasileiro e no ano seguinte ser bicampeão com o Cruzeiro. A exigência de um currículo recheado de títulos nos levaria aos de sempre, todos superados e com pretensões salariais de envergonhar até a djavânica riqueza dos sheiks árabes. (Me corrijam se eu estiver errado, mas me parece que o salário de Luxemburgo era maior do que o de toda a comissão técnica de Cristóvão, incluindo o próprio.)

Cristóvão tem algumas características que me agradam, mas antes de falar dele e delas peço algumas linhas da paciência de vocês para contar uma historinha que adoro. Não lembro em que clube se passou, só sei que foi com Mário Sérgio. Ele acabara de ser contratado como treinador e, logo na apresentação, um dos jogadores o chamou de professor. Mário Sérgio respondeu com um pedido: “Faz um favor, meu filho: me chama de Mário. Não me chama de professor não, porque eu sou semianalfabeto.”

Vivíamos o início de um infeliz período, que ainda não ultrapassamos, em que chamar técnicos e juízes de professores virou regra, embora muitas vezes a gente perceba que os jogadores estão sendo mais irônicos do que respeitosos. O problema é que a imensa maioria dos treinadores passou a acreditar no tratamento, adotando um ar professoral ali na área técnica e assistindo com uma pose danada ao futebol medíocre jogado por seus times.

Cristóvão não se encaixa no padrão. Sujeito tranquilo e observador, mais ouvinte que falante, foi bom jogador – embora longe de ser craque, chegou à seleção brasileira – e, na função de auxiliar técnico, em 2011 ajudou Ricardo Gomes a transformar o apenas razoável elenco do Vasco num time forte o suficiente para brigar até a última rodada pelo título brasileiro. Terminou como vice, claro, mas aí não é problema do treinador, e sim do carma.

Já o vi elogiar a Universidad de Chile de 2010/2011, então dirigida pelo atual técnico da seleção chilena, Jorge Sampaoli, além de se declarar admirador de Guardiola, Mourinho e Bielsa. E tem toda a pinta de não ser do tipo que faz essas ridículas palestras motivacionais minutos antes do time entrar em campo.

Em resposta a um dos comentários no post “A Brigada dos Tesoureiros Radicais”, escrevi que não me empolgava com Cristóvão, mas deixei claro que não me entusiasmo com nenhum dos nossos treinadores. E acho mesmo que, se houvesse tempo e nós, torcedores, tivéssemos paciência, seria uma boa trazer alguém de fora – já imaginaram El Loco Bielsa comandando nosso time? Entretanto, fazer isso no decorrer do Campeonato Brasileiro seria queimar uma ótima ideia.

Sendo assim, agora é apoiar. Se o cara é trabalhador, estudioso e conhece o jogo; e se não é arrogante, falastrão ou esquemeiro, vamos controlar a ansiedade, torcer para a seleção peruana não passar da fase de grupos na Copa América, esperar por quem mais vai chegar e rezar para que a camisa não pese sobre os ombros do nosso novo técnico.

Sim: o Flamengo é tão grande que o peso da camisa não é sentido apenas por aqueles que entram em campo, e quem está no comando sente também. Tomara que não seja o caso de Cristóvão.

Jorge Murtinho

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