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Em busca do equilíbrio

Milton Medeiros
Milton Medeiros
Publicação: 16/06/2015
3 Comentários
Atualização: 16/06/2015
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Fonte: República Paz & Amor

Quando treinava o São Paulo, Ricardo Gomes costumava receber críticas por não ter brilhado em seus trabalhos anteriores aqui no Brasil – o que era verdade – e por estar desatualizado quanto ao nosso futebol. Depois de uma partida pelo Brasileirão 2009, Ricardo decidiu tirar onda com os repórteres que o atazanavam na entrevista coletiva. Para enfatizar as dificuldades do campeonato, perguntou se alguém ali o acusaria de não conhecer o futebol europeu – ele que vivera mais de quinze anos na Europa – e garantiu: o Brasileiro é o único campeonato do mundo em que é possível o líder jogar em casa com o lanterna e perder.

Ricardo Gomes tinha razão. Na última rodada daquele Brasileirão, três times entrariam em campo com chances de chegar ao título: Flamengo, Internacional e São Paulo. No ano seguinte, a mesma coisa aconteceria com outros três: Fluminense, Cruzeiro e Corinthians. Posso entrar de gaiato nessa, mas sou capaz de apostar que tal alternância jamais ocorreu em qualquer uma das ligas europeias. (Que fique bem claro: não estou me referindo a qualidade, e sim a equilíbrio.)

A dureza do Brasileirão serve, ainda, pra gente abandonar qualquer expectativa por vitórias de cinco ou seis, apenas porque estamos em casa e o adversário é a Chapecoense. Já foi o tempo. Goleadas no Brasileirão são cada vez menos frequentes, e estão longe de refletir uma real superioridade a ser confirmada ao longo da competição. Em 2009 o Flamengo tomou uma piaba de cinco a zero do Coritiba; o Flamengo acabou campeão, e o Coritiba rebaixado.

Assim, deixemos de devaneios. Ganhar de um a zero da Chapecoense, naquele momento em que a bosta já beirava o pescoço, foi fundamental. Ganhar do Coritiba por um a zero fora de casa, e com um a menos durante todo o segundo tempo, idem. Detalhe: para um time que levara dez gols nos cinco jogos anteriores, foi um alento sair invicto nesses dois últimos. E, melhor ainda, não ter corrido riscos. A Chapecoense deu somente um chute a gol, já no finzinho e defendido sem grandes dificuldades por Paulo Victor. O Coritiba só levou algum perigo depois da expulsão de Jonas. Se isto for mais do que coincidência, significa dizer que estamos mais organizados defensivamente – o que, de resto, nunca foi a especialidade de Luxemburgo, nem no seu período de títulos e glórias.

Embora não seja aconselhável afrouxar os critérios de exigência, é importante aceitar que, enquanto não temos o time definitivo para o restante do ano, o que vale é somar pontos seja do jeito que for. O objetivo é não perder de vista os lá de cima e abrir a maior diferença possível em relação ao Vasco e seus amiguinhos. Se a nossa escalação-base ideal puder entrar no campeonato com razoável tranquilidade e sem a responsa de nos tirar da lama, as perspectivas de terminar bem a temporada aumentam sobremaneira.

Passemos a meia dúzia de considerações técnicas sobre o que já foi possível perceber na era cristoviana – sempre levando em conta que entendo tanto desse negócio quanto a minha neta de um ano e meio.

1) Não sei se escalar Pará na esquerda e desistir do Anderson Pico é boa ideia, mas é fato que Pico fez um desinteressado primeiro tempo contra o Cruzeiro, como se não quisesse atrapalhar a estreia do ex-chefe que o tirara do ostracismo. Gratidão é um sentimento sublime, desde que não estejam em jogo a lateral-esquerda do Flamengo e nossa delicada situação no campeonato.

2) Paulinho não vem fazendo nada em canto algum, mas o nada dele é melhor pelo lado esquerdo. Digamos: no lado esquerdo, Paulinho tem jogado mal; no lado direito, não tem jogado – mesmo quando está em campo. A melhor fase de Paulinho aconteceu na Copa do Brasil 2013, quando Everton ainda não estava na Gávea e ele dominava a faixa esquerda. Pela direita Paulinho não se encontra, e o que já está ruim fica pior ainda.

3) Acompanho futebol de modo quase doentio há mais de cinquenta anos e não me lembro de ter visto outro jogador tão porra-louca quanto Gabriel. Não seria correto dizer que ele é grosso, lento ou burro, nada disso e muito pelo contrário, mas Gabriel tem um estilo único e indecifrável, que faz de Fio Maravilha um poço de lucidez e regularidade. Tenho a impressão de que ele pensa bem as jogadas, só que em vez de apurar o toque para concretizar o que pensou, simplesmente bate na bola e torce para dar certo. Isso aconteceu, inclusive, nos dois gols que marcou nesse campeonato, em duas conclusões que foram em cima do goleiro mas acabaram entrando.

4) Não sei o que fazer com Jonas. Tenho receio de que ele já tenha se tornado um jogador estigmatizado – mais ou menos como o Kléber Gladiador, que volta e meia é punido sem fazer por merecer, mas por seu histórico de jogadas desleais e temperamento agressivo. Não entendi por que Jonas levou o primeiro cartão amarelo, talvez devido a alguma reclamação, sei lá, mas o segundo cartão foi um exagero.

5) Vender Samir e ter que correr para contratar zagueiros – o que seria inevitável, pois todos os outros que temos são infinitamente inferiores a ele – não é uma decisão inteligente. Sei que, no futebol moderno, vender ou não vender alguém muitas vezes independe dos desejos do clube, mas não custa pensar bem antes de cometer uma bobagem.

6) Vi Coritiba x Flamengo na transmissão da Globo, com narração de Luis Roberto, comentários de Juninho Pernambucano e Renato Marsiglia. Não sei se pega bem escrever isso em um blog legitimamente rubro-negro, mas eu sempre admirei Juninho Pernambucano. Por seu jeito técnico e combativo de jogar e por não ter se submetido às arbitrariedades euriqueanas. Gostei, também, de suas atuações como comentarista em alguns jogos da Copa de 2014. Entretanto, no último sábado, quando Juninho desandou a elogiar Márcio Araújo, fui na direção oposta à de Pablo Neruda: confesso que morri.

Não me lembro das palavras exatas, mas no documentário O Equilibrista, de James Marsh, o personagem central e mestre absoluto do funambulismo, Philippe Petit, explica com surpreendente tranquilidade por que decidiu realizar a travessia entre as Torres Gêmeas: “Quando olhei para cima e vi que era totalmente impossível, a conclusão foi inevitável: já que é impossível, só me resta ir lá e fazer.”

Com o time ainda em busca de equilíbrio e estabilidade, nesse momento parece impossível ao Flamengo disputar o título do Brasileirão. Resta ir lá e ganhá-lo.

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3 Comentários
  • Zé disse:
    16/06/2015 às 19:10

    Bom texto!

    Responder
  • Bruno SRN disse:
    16/06/2015 às 19:30

    Muito bom. Geralmente as pessoas menosprezam as conquistas alheias. Toda vitória e importante, seja como for…..

    Responder
  • Paulo Sérgio disse:
    16/06/2015 às 20:40

    Bom texto. Só uma ressalva o Jonas ainda vai ser seleção e um dos ídolos do FLAMENGO

    Responder

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