“Precisamos de paciência.” Karl-Heinz Rummenigge
“Precisamos de paixão.” Matthias Sammer
“Preciso de tempo.” Pep Guardiola
Essas três frases abrem o livro “Guardiola Confidencial”, de Martí Perarnau e sintetizam o que é fundamental para se ter um time de futebol. No caso, o que cada um dos monstros sagrados citados pensava ser necessário para o Bayern Munique ao iniciar um novo ciclo em sua história.
Também com elas abri minha participação numa recente conversa sobre livros de futebol (aqui) para destacar o mais importante ingrediente para um treinador poder fazer um bom trabalho: tempo.
O que é tempo?
Fui ao meu “pai dos burros” predileto, o pesado Houaiss (sim, apesar dos práticos e-books, gosto dos livros físicos, de papel, que, no caso do Houaiss, me forçam a exercitar duramente meia dúzia de músculos para tirá-lo da estante e levá-lo para a mesa), e entre inúmeras definições para “tempo” encontrei essa:
“Oportunidade para a realização de alguma coisa.”
O futebol brasileiro tem sua própria definição do que seja “oportunidade para a realização de alguma coisa”, especialmente se essa coisa for a montagem de um bom time de futebol.
Nesse caso, o tempo é pequeno, é curto, é minúsculo, até, e pode ser contado em dias, como no caso de Celso Roth no Vasco da Gama.
Ou em semanas, como acaba de ocorrer com Cristóvão Borges no Flamengo.
Ou alguns meses, como Diego Aguirre no Internacional.
Citei apenas três exemplos, mas eles são inúmeros, tantos que seria necessário um livro do porte do Houaiss para relacioná-los e comenta-los rapidamente, como se fosse um dicionário.
O Dicionário das Bobagens do Futebol Brasileiro.
Esse poderia ser um excelente título para tal livro.
Um leitor mais irritado já pode, nesse momento, disparar a inevitável frase:
“Caiu porque fracassou¹”
Pode ser pior:
“Caiu porque é burro!”
Pode ser ainda pior:
“Caiu porque não entende nada de futebol!”
Essa última seria boa, porque ela nega a si própria e põe a nu a mentira que tenta transmitir. Sim, pois o não nega o nada e isso significaria, portanto, que o sentido da frase é “entende de futebol”. Bom, essa lógica simples, entretanto, não se aplica à língua e a dupla negação é aceita normalmente como correta. E, de cara, lembro seu emprego por um gênio da “última flor do Lácio”, Fernando Pessoa: “Não sou nada./Nunca serei nada./Não posso querer ser nada.”
Entre as críticas mais comuns a um treinador está, justamente, essa: “Não entende nada de futebol.” Quer dizer, o sujeito vive dentro do futebol, respira futebol todas as horas do dia, todos os dias da semana, todas as semanas do ano, tem no futebol o seu sustento e de sua família e nada entende do riscado?
Sério?
Sério. Muito sério, e quem diz isso acredita nisso, mesmo vivendo toda sua vida fora dos vestiários e gramados.
Esse conceito do saber no futebol vai além. É comumente aplicado a jogadores que “não sabem jogar futebol”. Dias ou semanas ou meses depois, o tal jogador que não sabe jogar futebol se consagra num outro clube. Mostra serviço, habilidade, técnica, conhecimento, enfim, e conquista vitórias, conquista títulos, conquista valorização para seu trabalho. Mas quem disse que ele não sabia jogar futebol jamais reconhecerá o óbvio de sua própria derrota, digo, o óbvio de seu erro.
A doença infantil da impaciência
Uma das coisas mais importantes na formação de um ser humano é aprender e apreender o conceito de paciência. Entender que para que alguma coisa aconteça é preciso esperar por um algum tempo. Isso ficava claro no passado com os presentes. Ganhar presentes tinha o tempo certo: o dia de aniversário e o Natal. Ah, que agonia era esperar por essas datas mágicas! E que alegria enorme quando, finalmente, chegavam. E, com elas, o presente ansiado.
As crianças hoje ganham presentes quase todo dia. A vida parece ser feita apenas de recompensas e pouco ou nenhum esforço. A alegria pelo presente recebido dura o tempo exato da experimentação, de uma ou duas brincadeiras, às vezes até um pouquinho mais e… Pronto! Acabou, terminou o efeito e a criança quer novos presentes e novos presentes ela acaba por ganhar. Muitas vezes, como canso de ver, até com sacrifício dos pais e comprometimento de outras coisas, essas sim muito mais importantes e necessárias.
Assim é o futebol hoje.
Ninguém tem paciência.
Todos têm paixão.
Ninguém reconhece e espera o tempo necessário para ganhar o presente na forma de um time. Time na acepção da palavra.
É tudo para já e agora ou nunca.
Dessa regra maluca não escapam sequer grandes vencedores, como Muricy no São Paulo em 2009 ou Marcelo Oliveira no Cruzeiro em 2015.
O Internacional de Aguirre foi o melhor time brasileiro na última Copa Libertadores, o que mais longe chegou. Ao lado disso, novos e bons valores foram revelados ou consolidados. Até uma conquista de importância menor, mas saborosa, o título estadual, foi conseguida.
Em vão.
Curta foi a vida de Cristóvão no Flamengo: sequer chegou à marca dos “três meses de experiência”, saiu antes em comum acordo, expressão com um leve e irônico toque de elegância.
Cristóvão mal teve tempo de ser apresentado a Guerrero. Sequer deu tempo de aprender o nome do último contratado.
Como montar um time em tão pouco tempo?
A bola da vez é Juan Carlos Osorio, o treinador do São Paulo.
Seu tempo de clube já passou da contagem em dias, mas ainda está na contagem por semanas. Nesse período perdeu quase um time inteiro, inclusive peças-chave na estruturação de uma equipe, como os volantes que ele chama centrais. Perdeu os dois que tinha: Denilson e Souza.
O time tem alternado momentos de brilho e de pavor. O brilho é esquecido e minimizado. O pavor não sai da cabeça e é supervalorizado.
Dizem os entendidos que curta será sua vida no São Paulo, apesar do contrato assinado.
O domínio solitário da paixão
Porque o torcedor está insatisfeito e a insatisfação é um vírus terrível, que se propaga com mais velocidade que o vírus da gripe, contaminando todo mundo que é torcedor.
Porque torcedor faz juras de amor num dia e no ímpeto da paixão promete e jura ao objeto da paixão que ele terá tempo para fazer tudo do seu jeito.
Mentira. Ou ilusão, na qual o torcedor acredita.
Dias ou semanas depois o amor vira ódio e a conta chega pesada.
A impaciência, como de hábito, vence, depois de contaminar todo o organismo.
E passa a dar as ordens, como sempre.
Onde escrevi torcedor, leia-se dirigente.
E vice-versa.
O que significa que dos três conceitos-chave mencionados na abertura deste post, entre nós vale um e um só: a paixão.
Que como diz o povo, com sabedoria, é cega.
Dos 20 iniciais apenas 6 permanecem
Dos vinte treinadores que iniciaram o Campeonato Brasileiro da Série A, apenas meia dúzia permanece em seus cargos.
Catorze foram demitidos ou pediram “as contas” ou chegaram a um “comum acordo”.
Isso significa a troca de 70% do comando de nossos principais clubes.
Fonte: Olhar Crônico Esportivo



























texto perfeito. o tempo dado pelo torcedor é o proximo jogo infelismente, e como diz o texto como a paixão cega.
Texto magnífico. Um dos melhores textos que eu já vi.