
– Corta! Foi braço!
Com o berro do quinto árbitro, instalado na sala de tv, ecoando em seus ouvidos, o primeiro árbitro apitou e paralisou a partida.
No momento exato em que o habilidoso meia-atacante do time Amarelo ia chutar a bola para o gol vazio à sua frente.
O apito paralisou os jogadores, emudeceu o estádio.
Por uma fração de segundo.
Na sequência, a gritaria foi ensurdecedora, tanto vinda das duas torcidas como dos jogadores amarelos, revoltados com a marcação e a perda do título.
Sim, se a bola entrasse o Amarelo seria campeão.
Seria.
Desgraçadamente, naqueles poucos segundos a edição de tv mandou novas imagens do lance. Uma delas, captada por uma câmera entre a bandeira de escanteio e a primeira trave, mostrava que a bola tinha tocado no ombro do atacante amarelo, pegando a direção, como um passe perfeito, de seu companheiro de time.
A jogada fora toda legítima.
Agora, porém, ela fora interrompida.
Os telões do estádio agora mostravam o lance e, entre eles, lá estava a fatídica imagem da câmera frontal. Bola no ombro.
O primeiro árbitro estava catatônico. Por sua cabeça desfilava sua lembrança do lance – de sua posição, ele mais intuíra do que vira que a bola tinha mesmo batido no ombro e não no braço. Em seus ouvidos ainda reverberava o berro do quinto árbitro. Ele achava que o cara torcia pro Vermelho. Agora ele tinha certeza.
Agindo como um autômato, cumpriu os protocolos há tanto tempo repetidos.
Distribuiu cartões amarelos, mandou pôr a bola no local da infração e logo depois da cobrança encerrou a partida.
Estava cansado.
O trecho acima retrata uma hipotética ação em futuro não muito distante, provável e desgraçadamente. Ao contrário do que anseiam os críticos das arbitragens, traquitanas eletrônicas não tirarão as dúvidas e não deixarão de interferir nos resultados.
Já cansei de ver discussões sobre lances de jogo. Grande quantidade delas, mesmo com o auxílio de imagens de diferentes câmeras, termina sem que se chegue a uma conclusão. Nem mesmo depois da mesma cena ser repetida inúmeras vezes, a ponto de irritar a todos, principalmente aos telespectadores.
O jogo que o árbitro vê somente ele vê.
E ele apita, ou não apita, de acordo com o que vê, mas não somente. Ao lado ou próximo da jogada, ele ouve. E sente. Da combinação de tudo isso o que para ele não é falta pode ser para quem está distante. Nem sempre a imagem da televisão retrata a realidade como ela é.
Penso que é importante melhorar sempre mais a arbitragem, mas descarto toda a absurda complexidade de equipamentos e equipes para “ajudar” o juiz a apitar.
Conheço razoavelmente a produção de vídeo, toda a geração e edição de imagens. Trabalhei nessa área por muitos anos. O grau de complexidade e os custos envolvidos para ter uma geração de imagens decente, acoplada a recursos de edição, para realmente auxiliar a arbitragem, só é viável, a rigor, em decisões de Champions League ou numa Copa do Mundo. Se isso um dia acontecer, teremos um brutal divórcio entre o futebol real e o futebol eletrônico ou virtual ou futebol de videogame, como queiram.
Minhas críticas a essas propostas de introdução de traquitanas eletrônicas não se dão por mero apego ao futebol como ele é, mas também à questão “custos” e à inevitável elitização de alguns jogos em detrimento de outros.
Pela volta dos assistentes de linha de meta
A realidade tem nos mostrado a importância da FIFA e da CBF voltarem com os assistentes de linha de meta. Acredito que ambos devem voltar, mas com mais funções, maior liberdade e maior autoridade para de fato auxiliarem o árbitro da partida em suas decisões, a exemplo do que vemos hoje com os auxiliares de linha lateral, os bandeiras.
Muito provavelmente, para não escrever um definitivo “com certeza”, lances como o de Wendel no jogo São Paulo x Corinthians ou o de Wallace, nesse FlaFlu, seriam marcados pelo auxiliar de linha de meta.
Por fim, ao contrário do que dizem os adeptos dos sistemas eletrônicos, quem é contra eles não é a favor da manutenção das “discussões de botequim”. Somos a favor, simplesmente, da preservação do futebol como ele é: o mais popular e apaixonante esporte do planeta Terra.
Por enquanto…
Queixas, notas & queixumes
Temos nota oficial sobre arbitragem. Na verdade, mais uma.
Temos treinadores jogando sobre as arbitragens a culpa de derrotas.
Temos treinadores e até presidente de clube fazendo pressão futura contra os árbitros.
Ninguém comenta os bons jogos das últimas rodadas, é como se eles não existissem.
Só que existiram e não são comentados. Que perda…
O tempo e energia estão direcionados para falar mal das arbitragens.
Crucificar árbitros e bandeiras.
Comprometer o campeonato.
Uma pena, mais uma vez. Uma grande pena.
Pois o melhor do futebol é justamente o jogo de futebol.
E, para não deixar passar em branco, para variar só se fala dos erros contra. Nunca se fala dos erros a favor.
O Clube de Regatas do Flamengo em sua nota oficial de ontem comentou a respeito e reconheceu o erro a favor, quebrando a escrita dos clubes de só falarem dos erros contra. Entretanto, já houvera outra nota sem essa novidade.
E depois do jogo, no próprio site oficial do clube o lance com Wallace foi tratado como legítimo, como mostrou o blog Meio de Campo (aqui) e depois alterado, mas sem registrar a verdade reconhecida pelo próprio atleta. Situação que a nota oficial corrigiu, ainda que tardiamente.
Ah, sim, nem vou discutir as bobagens sobre premeditação nos erros e coisas semelhantes, pelo simples fato de não existirem.
Por último, mas não menos importante: recomendo a todos os apaixonados pelo futebol que façam um curso de arbitragem. Não precisa ser um “cursão”, com aulas práticas e tudo o mais, durando muitas semanas.
Basta um curso simples, possível de ser feito em dois ou três finais de semana.
Acreditem, vai ampliar extraordinariamente a visão sobre o jogo, sem falar, é óbvio, na compreensão do que é apitar uma partida de futebol.
Fonte: Olhar Crônico Esportivo
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