O maior romance espanhol de todos os tempos. É assim que muitos conhecem Dom Quixote. Foi publicado em Madrid, em 1605. No livro de Miguel de Cervantes y Saavedra, ele narra as desventuras do protagonista apaixonado por leitura de romances sobre cavalaria. Já um pouco envelhecido, acaba enlouquecendo, pensando viver também sua aventura.
Seu companheiro, Sancho Pança, tem a noção da realidade que falta a Quixote. A ponto de montado no seu cavalo, tentar enfrentar com lanças moinhos de vento, imaginando serem exércitos inimigos. Ao final do livro, decepcionado, percebe que não é um herói e que no mundo não há heróis.
Na verdade, Miguel de Cervantes fez uma parodia. Cruel ironia sobre a situação da realeza e de seus míticos heróis fabricados, mentirosos.
Zico está longe de estar enlouquecido. Mas decidiu lutar contra moinhos de vento. Desperdiçando tempo, expondo sua idolatria, como um dos maiores jogadores de todos os tempos. Não percebe que o sistema tem as portas trancadas.
O grande ídolo da história do Flamengo caiu em uma armadilha. Ele só não tem a menor chance de ser o novo presidente da Fifa. Como não estará sequer participando do pleito.
Na Suíça, ele está percebendo como o jogo do controle do futebol mundial é de cartas marcadas. Ele já deveria saber. Mas se deixou iludir. Amigos próximos o consideram como grande exemplo de retidão de caráter. E dono de uma visão diferenciada, moderna do futebol mundial.
É o maior ídolo do clube mais popular do Brasil, o Flamengo. Uma das maiores referências do futebol japonês. Foi ministro de Esporte do Brasil. Coordenador da Seleção Brasileira na Copa de 1998. Treinador no Japão, Rússia, Grécia, Uzbequistão, Turquia, Índia, Iraque e Catar. Comentarista de futebol.
Situação financeira estabilizada, confortável.
São atributos marcantes, importantes. Aos 62 anos, poderia sim contribuir para o futebol do planeta. Mas foi ingênuo ao acreditar que conseguiria romper o status quo e se tornar sucessor de Blatter. Se transformar no novo presidente da Fifa.
A linha de raciocínio de Zico foi lógica. É brasileiro, motivo de muito orgulho para o país. Deveria ter o apoio fácil da CBF. Marco Polo esqueceria as várias críticas que o ex-jogador fez à sua gestão. Outro apoio fácil viria do Japão, onde também é grande ídolo. Na Turquia, no Uzbequistão, no Iraque, na Grécia, na Índia, no Iraque foi reverenciado.
A quixotesca batalha de Zico. Sem apoio, percebe que não conseguirá nem ser candidato à presidente da Fifa. Está lutando à toa. As cartas estão marcadas. E nelas estão o nome de Platini…
Para ser candidato, ele precisa do apoio de cinco federações. O primeiro tapa de realidade ele recebeu da CBF. Marco Polo foi matreiro. Disse que daria sim toda a força da CBF. Desde que Zico consiga o apoio de mais quatro federações. Golpe de mestre, de quem disse não sem precisar se sujar.
Marco Polo sabe que há uma troca de apoio entre os presidentes de federações e confederações do mundo todo. Ainda mais agora quando o FBI está prendendo e extraditando muitos corruptos. O próprio Blatter cai em fevereiro. Valcke já foi enxotado como cambista, que lucrou 110 milhões de dólares, R$ 452 milhões, desde a Copa de 1990. Sete membros da alta cúpula da Fifa foram presos. Três extraditados. Marin está encarcerado, esperando a sua própria extradição.
Todos os dirigentes querem tirar o máximo proveito de seu voto. Usá-lo como escambo. Não há porque dá-lo a um brasileiro cheio de boas intenções. E não tem nada para oferecer. A não ser honestidade, transparência.
O grande favorito a comandar o futebol brasileiro também é ex-jogador. Só que muito mais poderoso do que Zico. Michel Platini. Depois que encerrou uma carreira sensacional, tentou ser treinador da Seleção Francesa. Foi um fiasco. Começou a mergulhar nos bastidores do futebol trabalhando na organização do Mundial de 1998.
Cresceu sob o apoio de Blatter. Adorou o poder. Soube trocar apoio por inchar a Eurocopa e a Champions League, por exemplo. Ganhou seu primeiro mandato em 2007. Ficou tão forte que, conquistou o terceiro, em março deste ano, de maneira unânime. Foi aclamado pelas 54 federações. Todos sabiam que não ficaria até 2019. A Fifa sempre foi sua meta. Ele já trabalha pela presidência há oito anos. E agora sabe que a tem ao alcance das mãos.
Platini foi cruel ao saber que Zico estava na Suíça. E que o brasileiro não tinha o apoio sequer de cinco federações. Aliás, não deve ter de nenhuma.
“Ah, Zico não tem as cinco cartas? Eu lamento. Regras são regras”, disse, sorrindo, a jornalistas brasileiros na Suíça.
“É um absurdo, tenho 45 anos de futebol, como jogador e técnico, em vários continentes, e preciso do apoio formal de cinco federações nacionais, que sofrem pressão das respectivas confederações e por isso não vão me apoiar. O Platini faz parte da estrutura da Fifa, é membro do Comitê Executivo. Não acredito que será dele que virá uma reforma da entidade”, desabafou Zico. Aos poucos ele vai descobrindo que os exércitos são moinhos de vento.
É exemplar sua gana. Em sua desproporcional luta para tentar ser candidato, Zico usa as redes sociais. E pede apoio popular dos seus fãs e de quem deseja ver moralizada a Fifa. Mas isso é só mais uma prova de que está sonhando. Os votos são dos presidentes de federações e confederações. O resto é apenas vento.
Zico foi recebido por Blatter. O presidente da Fifa recebeu uma carta cheia de boas intenções do brasileiro. São dez itens que pede a modernização e democratização da entidade. Zico a entregou mesmo sabendo que o dirigente hoje virou um fantoche. Desmoralizado com tanta corrupção que o cerca, não tem moral para mudar a marca de azeitona consumida na Fifa.
Mas estes são os itens sonhados por Zico.
10 PONTOS ESSENCIAIS PARA A REFORMA DA FIFA
1. Reformar a presidência da FIFA.
1.1. Limitar o número de mandatos.
1.2. Transparência, Ex: salarial.
1.3. Processo eleitoral aberto e transparente.
2. Reformar o Comitê Executivo da FIFA.
2.1. Adotar melhores práticas nos conselhos executivos, Ex: reduzir conselhos, implementar esquemas de remuneração transparentes e justas, implementar verificações de integridade/ testes de competência e idoneidade.
2.2. Revisar o processo de nomeação das Confederações.
3. Reformar as Associações de Membros e Confederações.
3.1. Implementar medidas para cortar a corrupção.
3.2. Rever o processo de nomeação para membros do comitê executivo (FIFA).
3.3. Rever o processo de seleção e a composição da Confederação e dos conselhos executivos das Associações Nacionais.
4. Desenvolvimento da Reforma.
4.1. Aumentar o investimento real no desenvolvimento do futebol através de uma limpeza na corrupção e da distribuição desses recursos.
4.2. Aumentar a transparência e a prestação de contas dos investimentos da FIFA no nível das Associações Nacionais (desenvolvimento de projetos, FAP, etc).
4.3. Introduzir programas técnicos mais fortes, tornando a FIFA um centro de especialização e excelência.
4.4. Aumentar de modo significante e impactante o investimento nas “outras” divisões do futebol: futebol feminino, futebol de areia, futsal, etc.
5. Modernizar o jogo.
5.1. Adotar o diálogo, em geral, sobre o jogo: impedimentos, tripla punição, 6+5, etc.
5.2. Adotar a tecnologia como uma ferramenta e ao mesmo tempo proteger o espírito do jogo.
5.3. Melhorar a experiência para os fãs, principalmente através da tecnologia.
6. Modernizar o Calendário Internacional de Partidas.
6.1. Democratizar o calendário esportivo, não favorecer mais “A Liga Européia e o Verão Europeu” e não discriminar os países do hemisfério sul e que possuem clima mais quente/frio.
6.2. Simplificar este calendrário desorganizado que ameaça a saúde dos grandes jogadores de futebol.
7. Modernizar a administração da FIFA.
7.1. Utilizar o investimento da FIFA em educação e na profissionalização da gestão esportiva (Ex: CIES, FIFA, Master).
7.2. Empoderar a administração para que exerça sua função com o mínimo de interferencia politica possivel, sendo direcionada pelo Presidente e pelo Secretário Geral.
7.3. Tornar a FIFA menos política e mais profissional.
8. Modernizar a Agenda da FIFA para a Sociedade.
8.1. Assumir o controle da direção da agenda do futebol para a sociedade.
8.2. Investir seriamente para gerar impacto social através do futebol.
8.3. Incrementar iniciativas contra a violência, o racismo, etc.
8.4. Reforçar a enfraquecida posição do futebol perante autoridades públicas (Ex: EU, Parlamento suíço).
9. Democratizar o jogo através de uma melhor inclusão das partes interessadas.
9.1. Implementar iniciativas para os segmentos chave:
9.1.1. Parceiros comerciais.
9.1.2. Governos e anfitriões.
9.1.3. Apoiadores, fãs e torcedores.
9.1.4. Mídia, etc.
9.2. Dar a eles mais voz e participação em todos os processos de tomada de decisões, Ex: a população dos países que receberão a Copa do Mundo e outros eventos da FIFA deveria ser ouvida; jogadores, clubes, treinadores e árbitros deveriam todos ter poder de voto na FIFA, etc.
10. Democratizar o jogo através de “apoio aos torcedores” e o “contato com os fãs”.
10.1. Desenvolver formalmente estratégias e iniciativas para incrementar a experiência dos fãs.
10.2. Permitir um acesso melhor ao futebol para a era moderna alavancando a distribuição e direitos ilimitados – FIFA TV/plataforma OTT.
10.3. Fortalecer a conexão entre fãs e o desenvolvimento do esporte.
Depois de Blatter, ele se encontrou com François Carrard. Presidente do Comitê de Reformas da Fifa. Ouviu dele que não haverá mudança alguma nas eleições. Estão abertas para quem tiver o apoio das cinco federações e só. Não para alguém de fora do processo.
Zico promete não desistir. Hoje almoçou com a imprensa japonesa. Jura que não descansará até a definição dos candidatos.
São 209 federações com direito a voto no Congresso de fevereiro de 2016. Em 1974, João Havelange conseguiu que a UEFA seguisse mandando na Fifa. 42 anos depois, Platini tem tudo para retomar essa tradição.
E Zico bem longe apenas observando.
Descobrindo que no mundo real não há heróis.
Percebendo que, ao contrário dos livros…
Quem domina o futebol mundial são os vilões…
Fonte: Cosme Rimoli




Isso deveria ter maior divulgação, principalmente aos amantes de futebol e toda a mídia brasileira.