Fernando Gabeira gosta de futebol e é torcedor do Flamengo. Em maio desse ano ele publicou, em sua coluna no jornal O Globo, um belo texto com o título “Flamengo e Brasil”, em que faz uma analogia entre a situação do clube para o qual torce e a do país em que nasceu. Gabeira reconhece a importância do ajuste fiscal a que o clube vem se dedicando desde 2013, mas reclama da mediocridade do time e da falta de resultados em campo. Desolado, desabafa: “Quando volto da estrada, aos domingos, vejo um futebol. Vou trocar o hábito por um vídeo de clássicos europeus.”
Entretanto, lembrei do Gabeira por algo bem mais antigo: o parágrafo que encerra o primeiro capítulo do mais famoso de seus livros – O Que É Isso, Companheiro? –, em que ele conta uma deliciosa história sobre os arroubos e as ilusões da esquerda, que se julgava em condições de resistir ao golpe militar de 1964. No exílio sueco, trabalhando como maquinista de metrô e tendo como colega de ofício o ex-dirigente da Associação de Marinheiros, Antônio Duarte, Gabeira tentava obter do amigo explicações para o que acontecera em 31 de março de 1964:
“E as armas, Antônio? As armas que você traria para nós? Quantas vezes não perguntei isso durante as partidas de xadrez do exílio. E quantas vezes você não me repetiu essa história, sempre com sabor daquele conto da infância: alguém foi à festa, vinha trazendo um docinho para nós, vinha passando por uma ponte e pluft, caiu o docinho no rio. Pena.”
Nossa chegada ao G4, na vigésima quarta rodada, e a melancólica maneira como saímos dele na vigésima sexta – para nunca mais voltar – parecem o docinho se espatifando no rio. Demos azar, a bola não quis entrar, tivemos o controle do jogo, tomamos gols que não podemos tomar, perdemos inúmeras chances, agora é levantar a cabeça, trabalhar para corrigir os erros e buscar a recuperação. Um discurso lindo, emocionante, arrebatador.
Perder do Corinthians no Itaquerão não é o fim do mundo – aconteceu com quase todo mundo que já jogou lá. Eles têm um time consistente e equilibrado, nós não. Nunca perguntei isso ao meu neto de quatro anos, mas é possível que até ele saiba que o lugar onde se decidem as coisas em um jogo de futebol é no meio-campo, e chega a ser humilhante comparar o meio-campo do Corinthians com o nosso. É bem capaz do meu neto saber, também, que o problema não foi a derrota de ontem, da mesma forma que não foi a derrota para o Atlético Mineiro no Independência. O problema foi não ter vencido o Coritiba, o Inter e – dando um desconto pelo fato de jogar fora de casa – não conseguir ao menos empatar com o Figueirense. Estamos falando, só aí, da bagatela de sete pontos, o que nos levaria a 51 e nos deixaria em quarto lugar no campeonato.
Ah, Murtinho, qual é? Vai ficar remoendo o passado? Como não me conformo com esses sete pontos vergonhosamente atirados pela janela, vou sim. Mesmo porque, do contrário, estaria repetindo mecanicamente a inócua lenga-lenga de dois parágrafos atrás – estamos melhorando, vamos acertar o posicionamento, a vida continua na próxima rodada (ou será no próximo ano?) e blá-blá-blá.
Porém, há um elemento curioso no que se refere às expectativas de cada clube. Enquanto eu escrevia esse post, mantinha a tevê ligada na transmissão de Goiás e Cruzeiro. Do momento em que o Cruzeiro fez o gol, no comecinho do segundo tempo, até o fim do jogo, o narrador repetiu pelo menos seis vezes que, com a vitória, o time mineiro entrava de vez na briga pelo G4. Trata-se de uma lógica um tanto ilógica, já que Flamengo e Cruzeiro têm o mesmo número de pontos e somamos duas vitórias a mais.
A explicação para a incongruência talvez esteja no fato de que, ao contrário do Cruzeiro que só agora vem subindo na tabela, nós já tivemos o gostinho do doce na boca. Mas, pluft, ele caiu no rio. Pena.
Jorge Murtinho
Fonte: República Paz & Amor

Gosto de postagens inteligentes, essa foi uma. Parabéns!
Sr. Murtinho belo texto, agora recorro aos Deuses que nos mande alguém que entenda de futebol no departamento do mesmo. Pra eles o jogo é déficit X balanço, lucro X meta e por aí vai. O futebol é muito mais que isso é paixão, emoção e certamente vai tirar de muitas crianças a vontade de ser flamengo. Parece que estão construindo o Mané Garrincha com um orçamento adequado num lugar onde não tem futebol, e assim é esse flamengo, quando terminarem de construir esse flamengo a paixão dos seus fãs já foi embora. Parabéns frios matemáticos. Há que se fazer uma reformulação, contratar jogadores com valores individuas que saibam o básico do futebol; dominar, passar e chutar, agregados a velocidade, rapidez e imaginação. Analisar individualmente cada contratação para depois formar um grupo. Acho que estou sonhando, não vejo vontade nem humildade pra dizer estamos errando, vamos mudar esse planejamento. Grato.