Há algum tempo prometi, na caixa de comentários aqui do RP&A, contar uma historinha rápida sobre Leandro. Tenho relutado porque, para quem tem um elenco como o nosso atual, lembrar Leandro é, antes de tudo, um exercício de masoquismo.
Entretanto, a recente homenagem prestada pela Alerj, que deu ao Peixe Frito a Medalha Tiradentes, e o empate de poucas horas atrás com o Santos, que nos deixou sem assunto e enterrou de vez as inúteis ilusões dos exageradamente otimistas, tornaram o momento apropriado.
Quem contou o caso foi outro dos nossos grandes, o campeoníssimo Raul. É possível que ele já o tenha divulgado publicamente, não sei, mas as palavras proferidas em caráter privado costumam ser mais honestas e interessantes.
Raul fora convidado para fazer uma campanha publicitária – se não me engano, para um lançamento imobiliário cuja chamada era “Agarre essa” – e na agência de propaganda trabalhava um grande amigo rubro-negro, que me repassou o sucedido tal e qual o ouviu do grande goleiro.
A ele, pois.
Sempre que tinha a bola nas mãos para sair jogando, naquele Flamengo do início dos anos oitenta, a vida de Raul era o paraíso. Olhava para a direita e via Leandro; para a esquerda, Júnior; se a área central do campo estivesse descongestionada, Andrade e Adílio. Mamão. Só que, como todo cara muito bom de bola, Leandro era fominha.
Acontecia um jogo qualquer no Maraca e, na primeira bola que lhe chegou às mãos, Raul levantou os olhos para a esquerda, viu Júnior livre e não teve dúvidas: serviu o Capacete. Na segunda bola que lhe chegou às mãos, idem, e aí ele já pôde notar a cara feia de Leandro. Na terceira vez, Leandro chiou. “Que porra é essa? Não quer que eu jogue, avisa que eu peço pra sair.”
Macaco velho, Raul nada respondeu, ajeitou a elegante camisa amarela, pensou: “Ah é? Vou foder a vida dele!” E decidiu aguardar pacientemente, enquanto lançava todas as bolas para Júnior, irritava nosso lateral-direito e ouvia poéticos elogios.
Até que a oportunidade chegou. O time adversário atacou pelo lado direito da nossa defesa, a jogada foi controlada e terminou nas mãos de Raul. Como dois ou três inimigos estavam por ali, bem próximos a Leandro, Raul achou a hora adequada e, rapidamente, arremessou a bola alta e forte na direção do Peixe Frito. Fosse qualquer outro, a deixaria passar e xingaria o goleiro mais uma vez. Mas era Leandro.
Colou a bola no peito, baixou-a para o gramado, livrou-se do primeiro adversário com um drible de corpo, meteu uma caneta no segundo e tocou para Tita.
Serviço feito, faltava a vingança – e a cereja do bolo da história. Leandro virou-se para o atônito Raul e, lá da intermediária, botou a mão no saco, balançou os colhões e gritou: “Aqui, ó! Eu jogo pra caralho!”
José Leandro de Souza Ferreira. O melhor lateral-direito e um dos nossos maiores jogadores de todos os tempos. Lembrar passagens como essa é sempre uma delícia. Amargo é saber que domingo, contra a Ponte, ou joga Pará ou joga Ayrton.
Fonte: República Paz & Amor

Kkkkkk duvido isso acontecer hoje em qualquer time ou seleção.
Cracaço de bola, graças a Deus vi jogar.