A cultura e o esporte brasileiros sempre conviveram intimamente com as vaias. Uma das frases clássicas de Nelson Rodrigues garantia que “no Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio”. Procede. Imagino que existam outros exemplos, mas a única vez em que vi um minuto de silêncio respeitoso e comovente – não apenas no Maracanã, mas em todos os estádios brasileiros – foi em abril de 2011, no final de semana seguinte ao da brutal chacina de doze adolescentes na escola Tasso da Silveira, em Realengo.
A foto que ilustra este post é um frame do que houve no 3º Festival da Record, em 1967. Impedido pelas vaias de interpretar sua música Beto Bom de Bola, Sérgio Ricardo pediu trégua à plateia, implorou, sugeriu trocar o nome da música para Beto Bom de Vaia, mas, como nada funcionou, perdeu as estribeiras, gritou duas vezes “vocês ganharam”, quebrou o violão e arremessou-o na cabeça do público.
Creio que a vaia mais cruel da história do futebol continua sendo e será, para todo o sempre, a que se destinou ao ponta-direita Julinho Botelho, da nossa seleção. Era um festivo amistoso contra os ingleses, no Maracanã, em 1959. Ansiosa por ver Garrincha em campo com a camisa da seleção brasileira, pela primeira vez após a conquista da Copa na Suécia, a torcida carioca descarregou sua ira sobre o substituto, que nada tinha a ver com a decisão do treinador Vicente Feola de não escalar o grande Mané. Quando o sistema de som do estádio – “A Adeg informa” – anunciou Julinho entre os titulares, seguiu-se uma vaia tão avassaladora quanto uma vaia pode ser.
Pois Julinho entrou, engoliu a bola, arrebentou com os ingleses, fez o primeiro gol da vitória por dois a zero, deu o passe para o rubro-negro Henrique fazer o segundo e saiu ovacionado.
Não há como comparar a vaia a Julinho Botelho com a vaia a Alan Patrick.
1) A vaia a Julinho veio como consequência da falta de informação do público. Lembremos: corria o ano de 1959, as notícias circulavam na velocidade de um cágado e dependiam da argúcia dos repórteres. (Uma das versões para a barração de Garrincha, embora nunca admitida, era a de que o Mané chegara à concentração da seleção brasileira mamadaço, depois de entornar o que Alan Patrick, Everton, Paulinho, Pará e Cirino, juntos, jamais conseguiriam beber.) Já a vaia a Alan Patrick aconteceu pelo motivo oposto: o excesso de informação por parte do público, uma vez que hoje sabemos instantaneamente de tudo o que todos estão fazendo e aonde. Uma chatice.
2) A vaia a Julinho ocorreu num dia em que o então gigantesco Maracanã recebia mais de 130 mil pessoas. Imaginem a angústia. No último domingo, o jogo entre Flamengo e Goiás tinha 10% disso. Público de partidinha de vôlei.
3) O time que Julinho destroçou, para calar e reverter o espírito da torcida carioca, foi a garbosa seleção inglesa. Já Alan Patrick virou o jogo junto aos torcedores rubro-negros passeando sobre o abúlico Goiás, que parecia estar se lixando para o fato de se aproximar irrefreavelmente da segunda divisão.
Também vaiado – aliás, bem mais vaiado que Alan Patrick – Pará mostrou as habituais disposição e falta de recursos. Jogou sério, deixou as travas da chuteira na cara do adversário, fez boa jogada no lance do segundo gol, foi mais Pará do que nunca. Entretanto, precisamos reconhecer que, tal um Julinho redivivo, Alan Patrick deitou, rolou e, com sua movimentação e a precisão de seus passes, provou que sobra em nosso elenco e nos deixou com uma pulga atrás da orelha: se dependemos tanto assim de Alan Patrick, o que nos espera em 2016?
Jorge Murtinho
Fonte: República Paz & Amor
