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Falta o anticandidato

Redação
Redação
Publicação: 02/12/2015
2 Comentários
Atualização: 02/12/2015
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Em 1973, Ulysses Guimarães percorreu o país numa extensa campanha como anticandidato à presidência do Brasil. Eram tempos em que a eleição para o cargo máximo da República apresentava uma característica curiosa, para não dizer hipócrita. A cúpula militar se reunia com seus acólitos, escolhia o nome do general da vez e, num show de hipocrisia, a escolha era referendada por um congresso capenga, em que o partido governista tinha maioria segura.

Dentro desse quadro, a chance de chegar à presidência alguém que não fosse o general ungido era nenhuma, e a anticandidatura servia para denunciar o descalabro.

Acho, honestamente, que a eleição para presidente do Flamengo está precisando de um anticandidato, que a questione e a desconstrua por dentro. Admiro o estoicismo, a empolgação e a cobertura jornalística da Vivi Mariano e do Tulio Rodrigues, mas eis aí um processo que não me convence, não me envolve e não me seduz.

Vejo um montão de gente defender ou criticar a gestão de fulano ou beltrano, mas minha formação – que reconheço como alienada – é outra. Apesar das inúmeras vitórias e títulos marcantes, o jogo que considero o mais decisivo para a moldagem da minha alma rubro-negra aconteceu em 1969, quando ganhamos do Botafogo por dois a um e acabamos não conquistando nada. Sem recorrer ao google ou coisa que o valha, sei de cor e morrerei sabendo o time que entrou em campo naquele domingo, há 46 anos. Dominguez, Murilo, Onça, Guilherme e Paulo Henrique; Liminha e Rodrigues Neto; Doval, Dionísio, Luís Cláudio e Arílson. Perguntem-me quem era o presidente do clube, o diretor de Patrimônio. Não faço a menor ideia.

Claro: qualquer pessoa que se interesse minimamente por futebol sabe a catástrofe que foi a gestão de Patrícia Amorim e reconhece a importância de se manter o clube financeiramente equilibrado e longe de chacotas vampetianas. Mas o máximo que vou é até aí.

Sou carioca, tenho 59 anos e moro há dez em São Caetano do Sul, por motivos profissionais. Passei minha infância na rua Lauro Muller, em Botafogo, brincando com os amigos dos prédios vizinhos e com a molecada que descia da pequena favela que havia em cima do Túnel Novo. Para quem não é do Rio, a Lauro Muller fica entre duas praias, a Praia Vermelha e a Praia do Leme, e frequentá-las também fez parte da minha adolescência. Misturando tudo, deu nisso: um cara que detesta ambientes segregacionistas e jamais foi sócio de clube algum. Quando houve o lançamento do Programa Sócio-Torcedor, aderi. Pela vontade de ajudar o Flamengo e por confiar na diretoria eleita no final de 2012. Só que, na condição de sócio-torcedor, não tenho direito a voto, e aí começa minha rejeição ao processo.

A eleição para presidente do Flamengo não causa interesse tão grande, a ponto de merecer a produção de um programa televisivo de debate entre os candidatos, como fez a ESPN, por causa da piscina ou da escolinha de esgrima. Como talvez dissesse o famoso marqueteiro americano James Carville, “é o futebol, estúpido”.

Sempre que o assunto é Flamengo, inflamos o peito, orgulhosos, para falar do nosso número de torcedores. Somos 40 milhões, como garantem os mais entusiasmados, ou 33 milhões, como insistem nossos detratores. Pouco importa o número preciso: é mais gente que as populações do Canadá, Peru, Venezuela, Austrália, mais que Bélgica e Holanda juntas, que Chile e Equador juntos, que Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia juntas, mais de três vezes a população de Portugal e quase dez vezes a do Uruguai.

Se a cidade do Rio de Janeiro tem hoje perto de 6,5 milhões de habitantes, a lógica e o bom senso recomendam admitir que o que engorda nossos números são os torcedores que vivem em outros lugares. É óbvio que, ao contrário de quem mora nas cercanias da Praça Nossa Senhora Auxiliadora e usa o clube para lazer ou prática de esporte amador, esse pessoal está pouco se lixando para a temperatura da água da piscina ou a qualidade do cachorro-quente servido na lanchonete da Gávea.

Imagino que haja mil empecilhos estatutários, mas a única maneira de resolver a contradição é separar o futebol do clube social. Nada mais justo do que os 6.000 frequentadores do clube decidirem quem será o mandachuva da bela sede às margens da Lagoa. Nada mais justo do que os outros 43.994.000 terem o direito de participar da escolha do pessoal que conduzirá o futebol.

Não é o Programa Sócio-Torcedor a redenção, a panaceia, a cura para todos os males? A solução para abarrotar os nossos cofres não está em fazê-lo crescer? Então, que o sócio-torcedor – desde que com uma carência de dois ou três anos, para evitar adesões eleitoreiras – possa interferir naquilo que verdadeiramente lhe interessa: o futebol. Além de um ótimo apelo para atrair um número cada vez maior de rubro-negros, isso representaria a democratização plena e radical do futebol do Flamengo.

Walter Monteiro publicou, no blog Magia Rubro Negra, um excelente texto em que elenca motivos para se eleger qualquer um dos três candidatos. Como o site do Magia está em reforma, ponho aqui o link que leva à reprodução publicada no blog Coluna do Flamengo:

Só bons motivos para votar em qualquer dos candidatos

Evidentemente, como toda eleição é uma via de mão dupla, seria possível a alguém declinar outras tantas razões para não se votar em nenhum deles. Por despontar nas pesquisas como o virtual vencedor na próxima segunda-feira – e não há de ser tão difícil assim fazer pesquisa em um minúsculo universo de seis mil votantes –, a vidraça do atual presidente é a maior de todas. É o ônus que se obriga a pagar quem se candidata a qualquer reeleição.

Acho meio mal contada a história da traição e do suposto acordo para abrir mão do segundo mandato. Mas o que a gente tem visto dentro de campo, que é o que me interessa, é inaceitável. Seria cômico se não fosse trágico constatar que, juntando o Flamengo ao Joinville, ainda assim o Corinthians continuaria na nossa frente. Sim, querido leitor ou querida leitora do RP&A, você não leu errado: juntos, Flamengo e Joinville têm os mesmos oitenta pontos do Corinthians, mas perdem em número de vitórias – 22 contra 24. E que papo é esse de que o time é bom no papel? Não estamos falando de Fifa Soccer ou de PES 2016. Futebol de verdade se joga no campo, e como dizia um dos grandes chefes que eu tive, o papel aceita tudo.

Para não aborrecer ainda mais os leitores, não farei aqui minha avaliação individual daquele bando de desinteressados, mas César Martins só foi liberado pelo Benfica por não fazer parte de uma lista que incluía quatro ou cinco zagueiros escolhidos para a temporada. Quer dizer que o quinto ou sexto zagueiro do Benfica pode ser titular do Flamengo? Acompanhei as passagens de Márcio Araújo e Wallace pelo futebol paulista. O primeiro saiu daqui execrado pela torcida palmeirense, enquanto o segundo jamais transmitiu confiança aos corintianos e nunca assumiu a titularidade no time. Com base em que critérios alguém pode dizer que esses caras são bons para o Flamengo? Nem no papel, nem na mesa do jogo de botões.

Como já falei do Corinthians, deixemos o time de Tite de lado e tomemos como exemplos o do Atlético Mineiro e o do Inter. Quais dos nossos jogadores seriam titulares lá? No Atlético, só o Guerrero. No Inter, Guerrero e Jorge. Na contramão, quem do Atlético e do Inter chegaria à Gávea e, já no primeiro treino, receberia o colete do time principal? Do Atlético, Victor, Leonardo Silva, Jemerson, Rafael Carioca, Leandro Donizetti, Dátolo e talvez o Luan. Do Inter, Alisson, Paulão, Hernando, Rodrigo Dourado, D’Alessandro, Valdívia e Vitinho.

É perfeitamente compreensível que o presidente de um clube não reconheça, em público, que seu time é uma bosta, mas é imprescindível a Eduardo Bandeira de Mello ter consciência de que, no que se refere ao futebol, o melhor a fazer é jogar uma bomba e começar do zero. Na transmissão pelo PFC de nossa derrota para o Atlético Paranaense, o comentarista Carlos Eduardo Lino afirmou que, seja o presidente quem for, para 2016 o time do Flamengo precisa de uma revolução, e livrou a cara somente do Guerrero, do Jorge e do Paulo Victor, além de dar um crédito de confiança ao Emerson. Não é muito comum concordar com o que dizem os comentaristas do SporTV, mas, nesse caso, temos que dar a mão à palmatória.

Na entrevista publicada em 26 de novembro pelo jornal O Dia, Eduardo Bandeira de Mello declarou ter chegado a hora de “colher os frutos do sacrifício”. É o que todos esperamos. Mas, na boa, colher frutos significa contratar Rodinei da Ponte Preta, Pikachu do Paysandu e Willian Arão do Botafogo? Os três são, no máximo, boas apostas – e sabemos que apostas, mesmo quando boas, tanto podem dar certo quanto errado –, e estão a léguas de protagonizar a revolução sugerida por Carlos Eduardo Lino. Não ligo para o fato de o zagueiro Juan ter esnobado o clube há três anos, mas não vejo sentido em trazer um reserva do Inter sob o discutível argumento da liderança. Isto deveria ser condição inegociável: se o cara não tem bola para ser titular no Benfica, no Corinthians, no Inter, que se mantenha distante do Flamengo.

Há uma contradição nas justas críticas de Cacau ao futebol rubro-negro: ele fez parte de uma diretoria eleita menos de uma semana depois do Flamengo conquistar o Campeonato Brasileiro de 2009. Pelos argumentos que defende hoje, Cacau deveria ter apoiado a candidatura de Delair Dumbrosck. Além disso, ele tem um jeitão que me preocupa: o daquele torcedor romântico e iludido, que bate no peito e berra “aqui é Flamengo, porra!”. Vai longe o tempo em que funcionava – se é que algum dia funcionou.

Também enxergo uma certa cara de pau no Wallim ao tentar tirar da reta os insucessos do futebol rubro-negro, como se ele não tivesse nada a ver com a contratação de Carlos Eduardo, o fracasso na tentativa de repatriar Elias, a escalação do suspenso André Santos no episódio que lançou na conta do Flamengo uma suspeita que deveria recair exclusivamente sobre o Fluminense. Etc., etc., etc.

Entretanto, insisto: não me incomodam os nomes, e sim o processo. Que a turma da piscina e da escolinha de esgrima escolha o que é mais conveniente aos seus mergulhos ou às estocadas de seus filhos, ok. Mas que aqueles que só querem saber de futebol – o que é o meu caso – não sejam excluídos. Orçamentos separados, cada um vivendo da receita que for capaz de amealhar, o que é de um é de um, o que é do outro é do outro. Mais ou menos como diz o miliciano Rocha, vivido pelo ator Sandro Rocha em Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora É Outro: “Cada cachorro que lamba sua caceta.”

Utopia? Sem dúvida. No entanto, se alguém dissesse, na campanha da anticandidatura de Ulysses Guimarães, que uma eleição direta para a presidência da República poderia acontecer em menos de vinte anos, certamente seria tomado por sonhador inconsequente, portador da Síndrome de Poliana.

Se vai demorar, paciência. Mas, quanto mais cedo começarmos a pensar nisso, menor vai ser a espera.

Jorge Murtinho

Fonte: República Paz & Amor

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2 Comentários
  • Tarcísio Bruno disse:
    02/12/2015 às 12:21

    Muito bom o texto, concordou com cada palavra!!!

    Reply
  • Bode veio disse:
    02/12/2015 às 15:58

    Texto muito grande… vou esperar virar filme…

    Reply

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