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O dom da destruição

Redação
Redação
Publicação: 13/02/2016
3 Comentários
Atualização: 13/02/2016
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É preciso um verdadeiro talento para a destruição para conseguir reduzir o Campeonato Carioca à essa triste figura que hoje vagueia, cão sem dono, sem dinheiro e sem amigos, por alguns dos piores endereços da cidade. Pra não dizerem que estamos de marcação esse mérito devemos reconhecer nos dirigentes do futebol carioca. Aliás, diante da indisfarçável decadência do esporte no estado, é mais exato dizer dirigentes do futebol fluminense que assim ajuda na associação de ideias. O futebol fluminense, e não apenas o futebol do Fluminense, é a mais nova vergonha do Brasil.

Não precisamos nos estender relembrando que a maior realização de todos os que se responsabilizaram de alguma forma pelo esporte nos âmbitos municipal, estadual e federal nos últimos 12 anos foi a proeza de fazer com que o Rio de Janeiro, após sediar uma edição dos Jogos Pan Americanos, uma Copa do Mundo e às vésperas de sediar os Jogos Olímpicos, seja a única porra de cidade do mundo com “quatro grandes” clubes onde não existe sequer um estádio que se adeque às atuais exigências de segurança, mobilidade e rentabilidade do moderno futebol profissional. Poucas vezes pudemos testemunhar demonstração tão exuberante de incompetência combinada ao talento para a destruição. Pelo menos não deixaram ninguém roubar.

Como vocês devem ter percebido não sou um bom analista do caráter alheio, me engano fácil. Mas dessa vez cravo sem medo de errar, essas pessoas ruins não gostam de futebol. Olha o desrespeito desses caras com o Flamengo x Vasco. Nem estamos falando de respeito ao torcedor, que é o principal responsável para que clássicos como Flamengo x Vasco se mantenham vivos. Torcedor sofre na mão da cartolada há tanto tempo que hoje em dia coisas simples como comprar ingresso, conseguir entrar e sair do estádio sem levar borrachada ou prise de gás de pimenta dos nossos gentis gendarmes e voltar pra casa antes das 3 da madruga já os deixam extremamente satisfeitos. Falamos do respeito devido à entidade Flamengo x Vasco, também conhecida como Clássico dos Milhões.

Um clássico como o Flamengo x Vasco é muito mais que um jogo. É um símbolo, um ícone tão carioca como Carnaval, Pão de Açúcar ou comer bolinho de bacalhau e beber cerveja de graça porque o vascaíno perdeu a aposta. Seja disputado em que biboca for Flamengo x Vasco tem história, tem tradição, incorpora uma rivalidade centenária que vem do tempo das regatas. Não é fácil manter uma rivalidade 117 anos em país apressadinho, cuja capital tem apenas 56.

com gols de Nonô e Vadinho o Flamengo ganha de 2 x 1 lá em São Janu (1927)Em 1927 esse Flamengo meteu 2 x 1 na baranga lá em São Janu.

O Brasil é um país jovem demais, fomos inaugurados outro dia. Não temos Coliseus, Stonehenges ou Pirâmides de Gizé dando bobeira por aí, tudo que consegue sobreviver por mais de 100 anos sob a administração do homem cordial deveria ser tratado como uma ruína histórica, um monumento nacional. E monumentos nacionais ainda em uso, como o Flamengo x Vasco por exemplo, demandam, além de respeito, de alguma proteção. Duvido que os milaneses deixariam esculhambar com o Derby dela Madoninna como nós estamos deixando esses caras fazerem aqui. Milanistas e interistas iriam juntos interditar o Corso Vitório Emanuelle cantando Bella Ciao! pra acabar com a palhaçada. Mas não se sinta culpado, em Milão não tem praia e é bem mais fácil se indignar.

Agora o presidente bacalhau, francamente, já não tem mais idade pra se comportar como cheerleader malcriada. A maneira com que ele tenta promover o clássico pode ser engraçadinha para seus puxa-sacos, mas é paupérrima em termos motivacionais e denota visão de curto alcance. O discurso dele se repete há 30 anos, e se serviu para motivar os vascaínos nos anos 90, quando eles tinham time, hoje só serve pra afastar as pessoas do estádio e enfiar o Vasco ainda mais no buraco. A sua exigência para a divisão do público em 90% para a torcida dos mandantes e 10% para os visitantes é, na falta de palavra mais adequada, burra.

Essa maldita divisão nos clássicos 90-10 é um tiro no pé do futebol carioca. No pé não, é um tiro em algum órgão mais vital desse organismo centenário que hoje arqueja, bufa e sofre maus tratos de quem deveria cuidar de sua saúde. Essa imposição do 90-10 foi o que matou a parte boa da rivalidade que havia entre os clubes paulistas. E hoje só ficou a porradaria, a expressão bélica da rivalidade, a divisão da cidade em zonas proibidas para esta ou aquela torcida nos dias de clássicos. Mais uma expressão da incapacidade moderna de conviver com as diferenças. Uma violência cultural inominável com um custo altíssimo para os paulistanos

Uma das características mais legais do futebol jogado na cidade do Rio de Janeiro sempre foi a convivência harmoniosa entre os rivais. Que mesmo sem abrir mão da zueira sempre foram capazes de conviver e compartilhar os espaços em estádios, bares, esquinas, biroscas, praias e terreiros da cidade. Se nós, cariocas, para quem o futebol sempre foi motivo de alegria e exercício de civilidade, entregarmos os pontos e implantarmos aqui o modelo que não deu certo em São Paulo vai ser muito vacilo. E vai significar que a porrada venceu. Me recuso a endossar essa imbecilidade.

Tenho certeza de que as torcidas do Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense não tem o menor interesse de perder o que o futebol tem de mais legal por causa de meia dúzia de marginais. Temos que combater essa ideia de clássicos 90-10 com todas a nossas forças e capacidade de pressão. E o Flamengo, na minha humilde opinião, deve dar o exemplo quando for o mandante. Não exercendo a prerrogativa que um regulamento aloprado colocou à mão dos clubes: o direito de se auto-destruir. Não se combate preconceito com mais preconceito. Nem neutralizamos os efeitos maléficos de medidas idiotas adotando as mesmas medidas idiotas em retaliação. Espero que o Bandeira, como todos os presidentes das grandes potências mundiais, não aperte o botão do Armageddon jamais.

Por absoluta falta de melhor opção o Flamengo x Vasco de amanhã será disputado em um estádio sabidamente ultrapassado, que nos últimos anos só fez encolher e testemunhar a decadência daquele que em boa parte do século passado foi nosso maior rival. É chato pra torcida porque São Janu é obviamente acanhado pro tamanho do clássico, mas lá dentro não é pior do que em outros alçapões nos quais o Mengão nos últimos anos tem desfilado sua bela figura.

Do lado de fora é que o bicho pega, mas isso é um problema de Segurança Pública. E ainda por cima é direito do mandante escolher onde vai jogar. Se topamos o regulamento não cabe choro. Melhor dizendo, no Flamengo o choro não cabe nunca. Vamos pro jogo, porque sacudir a bigoda, em qualquer jurisdição, pra nós nunca foi problema. Pra cima da baranga, Mengão!

Mengão Sempre

Arthur Muhlenberg

Fonte: República Paz & Amor

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3 Comentários
  • Almir Albuquerque disse:
    13/02/2016 às 10:03

    Espero mesmo que essa divisão não prevaleça no futebol carioca.

    Reply
  • Eduardo Eduardo disse:
    13/02/2016 às 13:23

    Boa muhlenberg, falou tudo.

    Reply
  • lucas macedo disse:
    14/02/2016 às 09:18

    Texto fantástico.

    Reply

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