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Primeira Liga, o catalisador das mudanças

Redação
Redação
Publicação: 07/03/2016
2 Comentários
Atualização: 07/03/2016
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Façamos um breve retorno aos bancos escolares. Catalisador: resumidamente, é uma substância que acelera reações químicas de outras substâncias, sem ser consumido durante esse processo, ou seja, ele não participa do processo de reação, apenas age sobre ele. Isso na química.

No futebol brasileiro a Primeira Liga tem funcionado como um eficiente catalisador ao provocar e acelerar reações à sua simples existência ou, num estágio mais avançado como agora, em que ela já é uma realidade, provoca reações que visam sua inviabilização ou forçar prejuízos de monta aos seus participantes.

Algumas reações à existência da Primeira Liga têm sido tão extremadas que, no caso da federação que responde pelo futebol no Estado do Rio de Janeiro, levou o presidente da mesma a, figurativamente, atirar em seu próprio pé com a perseguição – não há outro termo para suas decisões – desencadeada contra Flamengo e Fluminense.

As reações não tardaram, a começar dos próprios clubes, e continuam, envolvendo não somente a FERJ, mas toda a estrutura federativa de nosso futebol. Vejam esses dois exemplos:

“Esse sistema de Federações Estaduais mandando no futebol brasileiro já era. Não serve mais! A CBF submissa aos interesses mesquinhos das Federações é um entrave ao desenvolvimento do futebol no Brasil.”

Declaração de Zico, no dia de seu aniversário (3 de março), que pode ser lida aqui.

“Há muito tempo que CBF e Ferj não passam de entidades parasitas, que oprimem e se aproveitam dos clubes para dividirem entre si as riquezas do futebol brasileiro, empregando seus políticos, amigos e parentes.”

Declaração do ex-presidente do Flamengo, Marcio Braga, em texto de sua autoria publicado pelo jornal O Globo, também em 3 de março, com o título “Gestão desastrosa do futebol”.

Zico e Marcio Braga fazem parte da história rubro-negra, um como grande ídolo, outro como dirigente responsável por grandes momentos (e também por muitos péssimos momentos). Nem por isso, todavia, ninguém em sã consciência e conhecendo um mínimo do que seja a estrutura do nosso futebol, pode pôr suas palavras em dúvida, achando que se apliquem somente ao Flamengo. Ao contrário, elas valem para todo o futebol brasileiro.

Essa estrutura que existe hoje e eles criticam, foi consolidada por Getúlio Vargas em seu período como ditador e, pior que isso, claramente influenciado (para dizer o mínimo) pelo fascismo italiano. Mussolini usou e abusou do futebol na década de 30 como uma das formas de apoio ao seu regime, culminando com a realização da Copa de 1934 na Itália, seguida pela conquista do bicampeonato na França, em 1938.

A estrutura de federações estaduais e uma confederação nacional, tuteladas por um organismo de Estado, o CND, criado em 1941, sempre foi refratária a disputas democráticas, permitindo longos domínios de pessoas e grupos. Não por coincidência, detentores do poder sempre se afinam em todos os setores. “Em 112 anos de história da FIFA, houve mais papas que presidentes da entidade” – Zico, novamente, no mesmo depoimento. Lembrando que os papas são vitalícios ao passo que presidentes de federações e confederações são eleitos e depois reeleitos ad infinitum, em todos os esportes. Parece coisa de imperadores, não?

Argumentam os defensores dessas entidades, geralmente pessoas de suas próprias direções, que elas são fundamentais para preservar o futebol e os pequenos clubes. Uma intenção nobilíssima, sem dúvida, mas, na prática, apenas uma boa intenção, nada mais. Vejamos…

De acordo com números oficiais, temos mais de 700 clubes profissionais no Brasil.

Segundo a vida real, na visão de muitos estudiosos da área, temos, quando muito, menos de uma centena de clubes que podem ser chamados de fato profissionais, rigorosamente. Alguns limitam esse número a menos de 60, ou seja, menos de 10% do total.

Embaixo do mito e do espanto causado por “meia-dúzia” de salários astronômicos de jogadores, o que vemos é a realidade nua e crua mostrando que 82,4% dos 28.203 jogadores registrados na CBF, ganham menos de R$ 1.000,00 mensais. E apenas 1.106 atletas ganham mais de R$ 5.000,00 mensais.

O que os números da CBF não mostram é quantos meses de cada ano esses trabalhadores conseguem receber o salário, pois é enorme a quantidade de clubes que operam por apenas 6 meses ou meros 4 meses em muitos casos.

Essa realidade existe e cresce negativamente apesar dos discursos dos dirigentes e apesar dos valores que circulam no futebol. Fica difícil justificar a existência da estrutura federativa diante disso, como alegam muitos de seus defensores.

A chegada da Primeira Liga provocou, inevitavelmente, ressentimento entre as federações envolvidas. Seus jogos são muito mais atrativos e levam mais torcedores aos estádios, gerando muito mais renda que os jogos dos torneios estaduais.

Os jogos do Brasileiro também atraem públicos médios maiores, mas muito longe dos números médios dos campeonatos nacionais de outros países.

A grande verdade é que nossos jogos têm levado poucos torcedores aos estádios. Mesmo as novas arenas, com seus números bonitos tanto de público como de renda, não têm feito a diferença no sentido de aumentar a média de pagantes e de ocupação dos estádios. Estamos apenas e ainda recuperando terreno perdido, pois em períodos anteriores já tivemos médias maiores que as atuais.

Todos esses números são sintomas de algo mais profundo, que começa pelo padrão de governança dos clubes, passa pelas estruturas ultrapassadas de federações e confederação e desagua num futebol menos atrativo e menos importante, em termos mundiais, do que já foi.

Diante disso, o simples debate criado pela aparição da Primeira Liga que já seria muito bom para sacudir os clubes brasileiros de sua letargia, foi acelerado e intensificado pela ação catalizadora da nova entidade, o que ficou mais forte depois das medidas punitivas que foram tentadas pela federação carioca, revelando, como se ainda fosse necessário, suas reais intenções.

Esperamos, agora, que os debates continuem e se aprofundem. Há muito para mudar em nosso futebol e não existe momento melhor do que esse que vivemos no mundo da bola, a começar pela FIFA. O debate deve ir além do que vem propondo a CBF com a reforma do estatuto e a criação de um comitê de ética.

Surpreendeu-me o fato da CBF ter ignorado o fato de que a Lei de Responsabilidade Fiscal no Esporte determina que os clubes das Séries A e B também participem das assembleias gerais ordinárias. Essa medida não comporta discussão, está na lei.

O documento que serve de base para a criação do Código de Ética da CBF é muito bom, sem dúvida, mas a comissão que deve aprova-lo não deveria ter vários membros da própria CBF, além de federações ou entidades diretamente ligadas a elas.

Fonte: Olhar Crônico Esportivo

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2 Comentários
  • Glauco Alvarez disse:
    07/03/2016 às 14:32

    Bom texto…

    Responder
  • Dieki disse:
    07/03/2016 às 15:21

    É uma coisa muito óbvia… com o tanto de dinheiro que circula, sem nenhuma destinação específica, sem nota fiscal nem nada. Claro que ele vai ser surrupiado e quem está no esquema vai fazer de tudo para não sair. Espero que um dia melhore.

    Responder

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