Peguei o metrô na estação Tamanduateí. Junto comigo, pelo menos duas dezenas de homens e mulheres com a camisa rubro-negra, além de um pai e seu filho (sete ou oito anos) à paisana. A certa altura o garoto perguntou ao pai se Fred jogaria, deixando claro que o destino de ambos também era o Pacaembu e para qual time torciam.
Na estação seguinte, Sacomã, entraram mais uns trinta bem-vestidos. O menino sussurrou: “Mas só tem Flamengo?” O pai deu de ombros e fez um muxoxo, como se resmungasse um conformado “o que é que eu posso fazer?”.
As estações se sucediam – Alto do Ipiranga, Santos-Imigrantes, Chácara Klabin, Ana Rosa, Paraíso – e a situação se repetia. O filho apenas arregalava os olhos e mirava o pai, que sorria sem jeito e com o canto da boca. Mais tarde, já no Pacaembu, a impressão trazida a cada parada do metrô se reforçava: das 30.188 pessoas presentes, a torcida do Fluminense deve ter contribuído com os tais 188.
Um dos testemunhos do documentário FlaxFlu – 40 Minutos Antes do Nada é dado por Sacha Rodrigues, que sabiamente ignorou a preferência clubística do avô Nelson e seguiu a do tio-avô Mario. Com a voz em off, o diretor do filme, Renato Terra, pergunta ao apaixonado flamenguista Sacha se tem alguma coisa na torcida do Fluminense que o irrita. Resposta: a falta de gente.
Quando saltei na estação Clínicas e iniciei a descida rumo ao vale que abriga o lindo estádio – que absurdo não ter havido jogos da Copa do Mundo ali –, me senti em casa. Motoqueiros e motoristas buzinavam saudando aquelas tantas gentes que trajavam vermelho e preto, camelôs faziam a féria vendendo falsos mantos aos desavisados, céu claro, sol forte. A cidade era uma festa, a praça Charles Miller era uma festa, o estádio era uma festa. Pena que esqueceram de convidar o futebol.
Entretanto, e seguindo a linha do post “Para alguma coisa há de servir”, foi possível tirar conclusões.
Primeira: embora tendo marcado um ex-centroavante e um pesado Diego Souza que engana cada vez menos, Juan demonstrou impulsão, tempo de bola, seriedade, e ainda deu um jeito de perseguir o ligeirinho Osvaldo lá no outro lado da área, cobrindo duas bobeadas do setor direito da zaga em cobranças de lateral. Se formos sensatos o suficiente para livrar Juan dos inúteis jogos do carioqueta e das fases iniciais da Copa do Brasil – isto, se conseguirmos dobrar o pujante Confiança –, Juan poderá ajudar bastante na temporada.
Segunda: quando Mancuello voltar, Muricy terá que abrir mão da ideia de escalar dois atacantes abertos. Cirino parece intimidado e não vem funcionando. Emerson também não, mas ao menos se movimenta e dá a cara a tapa.
A terceira e mais importante: com exceção dos escanteios e de algumas tentativas precipitadas de Emerson, nosso time não rifou a bola para a área. Corrigindo e mudando o tempo do verbo, pois isso não aconteceu apenas no último domingo: nosso time não rifa a bola para a área, o que talvez seja o componente mais marcante e surpreendente do renovado e barcelônico Muricy. Claro: de nada adianta manter a bola no chão, tocar pra lá e pra cá, e não dar sequer um chute decente a gol. Mas evitar as bolas levantadas a esmo para a área adversária é um considerável avanço, tanto para o time quanto para o treinador.
Inserido nessa nossa inesgotável pré-temporada – sim, temos a pré-temporada mais longa do futebol mundial –, o histórico FlaxFlu no Pacaembu deixou a torcida do Flamengo com sensações distintas. Se com alguma boa vontade dá para acreditar que aos poucos o time vai se acertando, também somos obrigados a reconhecer que está demorando demais para a coisa engrenar.
Jorge Murtinho
Fonte: República Paz & Amor
