Não conheci meu avô por parte de pai, de quem herdei o nome, mas costumava me divertir com as histórias que se contavam sobre suas superstições. O compenetrado homeopata Dr. Jorge Murtinho era decerto um figuraço. Antigetulista até a medula, só se referia ao então presidente da República como “aquele baixinho que mora no Catete”. Acreditava que a simples pronúncia do nome Getúlio seria capaz de atrair azares e desgraças. Nossa família, além de grande, tinha por hábito acolher agregados, o que às vezes gerava transtornos na hora do jantar: Dr. Jorge não se sentava à mesa com outras doze pessoas. Se fosse catorze o número de comensais e, por qualquer motivo, um deles se levantava, meu avô saía junto. Treze à mesa, nem pensar.
Meu pai preservou algumas tradições. Não admitia que fosse servido peru no almoço de Ano Novo: sustentava que no primeiro dia do ano era imprescindível comer porco, que fuça pra frente, enquanto peru cisca pra lá, cisca pra cá e custa para ir adiante. Não lembro de ter visto meu pai tão aborrecido comigo quanto no dia em que, de brincadeira e inadvertidamente, deitei meu sobrinho sobre a mesa da sala. Só entendi o motivo de tamanha contrariedade paterna quando ele, sério e tenso, me advertiu: quem deita direto sobre a madeira é defunto.
Quanto a mim, carrego mais implicâncias do que propriamente superstições – sobretudo no futebol.
Duas delas: implico radicalmente com a expressão “deixou chegar” e com o lazarento canto de “o campeão voltou”. Não sei se foi ali que essa história começou, mas a primeira vez em que ouvi uma torcida entoar “o campeão voltou” foi a do São Paulo, por volta de 2010, 2011. E o São Paulo nunca mais ganhou nada, com exceção da indigente Copa Sul-Americana – uma espécie de subCopa do Brasil bilíngue que, se Deus quiser, disputaremos agora para nunca mais.
Ano passado, vínhamos no sapatinho. Ganhamos, seguidamente, do São Paulo, Sport, Avaí, Fluminense, Cruzeiro e Chapecoense. Entramos no G4 – outra das minhas implicâncias – e começamos a ouvir esse papo torto de “deixou chegar”. (Até o PVC escreveu um post com esse título, lá no UOL.) Pronto. Foi o que bastou. Tomamos um couro do Coritiba, outro do Atlético Mineiro, mais um do Vasco, e o campeonato morreu pra nós. Algo me diz que o tal do deixou chegar é a senha para acabar com a seriedade e o jogo coletivo, para descalçar as sempre necessárias sandálias da humildade imortalizadas por Nelson Rodrigues, para achar que somos os fodões do Bairro Peixoto e para pôr tudo a perder.
Numa de suas inúmeras entrevistas, logo que chegou ao Flamengo, Muricy falou sobre a estratégia especial montada para Neymar nas partidas decisivas da Libertadores 2011, conquistada pelo Santos. Segundo o treinador, ele pedia a Neymar para, no início dos jogos, manter-se fixo no lado esquerdo do campo, facilitando a marcação. Somente lá pelos quinze ou vinte minutos, quando o inimigo julgava que a situação estava sob controle e Neymar não traria problemas, o atacante começava a se movimentar e a desequilibrar as coisas.
Quem sabe não seria essa nossa melhor estratégia para um campeonato brasileiro recordista em equilíbrio? Deixa o povo brigar por uma fugaz liderança aqui, um tênue G4 – ô praga! – acolá, e vamos comendo feito mingau quente. Com o primeiro colocado somando 36 pontos, o segundo 35, o terceiro e o quarto 34, o quinto 33 e o sexto 32 (com um jogo a menos), nesse momento não faz diferença estar em primeiro ou em sexto. E como se diz nas Minas Gerais, o negócio é fingir de morto pra comer o cu do coveiro.
Enquanto o time acerta o muito que ainda precisa ser acertado, o que importa é permanecer na parte de cima do bolo e continuar apavorando, fungando no cangote, tocando o terror. Deixou chegar é bravata tola. O que vale é não deixar ninguém fugir, para poder atropelar na hora certa.
Em caso de dúvidas, lembremo-nos de 2009.
PS: No texto mais recente do Arthur, com o alucinado título “Flamengo em 1º. Vem, Estado Islâmico.”, quem veio foi nosso treinador Zé Ricardo, que apareceu na caixa de comentários para agradecer o apoio – apesar das críticas, sempre inevitáveis e nem sempre ponderadas – e assegurar que o time está unido e comprometido em busca do hepta. Suponho que Zé Ricardo não consiga ler todos os posts (eu, se fosse ele, jamais perderia tempo lendo os meus), mas é bem bacana, pra Nivinha, pra Vivi, pro Arnaldo, pro Arthur, pra mim e pra todos os leitores do blog, saber que o RP&A está sendo lido e avaliado pelo cara que decide as coisas no futebol rubro-negro. Volte sempre, Zé. E se algum de nós perder a linha, releve. É tudo pelo Flamengo.
Jorge Murtinho
Fonte: República Paz & Amor
