Carioca, filha de rubro-negro com botafoguense. Seguiu o pai, e com ele ia ao Maracanã assistir ao Flamengo de Carlinhos, Reyes e Fio Maravilha. Cresceu, passou a acompanhar os jogos com colegas. Morava no Rio, já havia vivido no Recife e em São Paulo. Casou-se com um paulistano, que nunca gostou de futebol.
Fixaram-se na capital paulista, onde o Flamengo não costumava estampar as manchetes dos cadernos esportivos. Não à toa o marido nunca tivera despertado o interesse pelo esporte. Os tempos eram outros, nada de internet nem TV a cabo. E qual a graça do futebol se não se fala do Flamengo?
Onze anos de casamento, veio o primeiro – e único – filho. Lá pelos 6 anos de idade, descobriu o jogo pela televisão, vendo um Corinthians x Palmeiras. Faltava descobrir o time. Simpatizava com os dos avôs: o São Paulo, do paterno, e o Flamengo, do materno.
Não precisou escolher. Nasce-se rubro-negro e, assim como o avô, a mãe, os tios e os primos, o garoto nasceu Flamengo. Sem fazer ideia do que se passava, chorou com o gol de Petkovic. Era amor.
Cresceu acompanhando o Flamengo através de narrações do pay-per-view. O áudio vinha perfeitamente, a imagem só para assinantes. A experiência o fez entender que a camisa esverdeada, naquele mar desfocado de cores, era o Manto Sagrado.
Foi ao Maracanã com o primo. Gostou, foi de novo. Passou a querer ir a jogos em São Paulo. Era o filho indo e a mãe retornando aos estádios. A mulher que cresceu frequentando o Maracanã, passava a torcer nos indóceis setores visitantes da Paulicéia. Deixou os perrengues para trás quando avaliou que o garoto poderia ir sozinho.
O garoto virou homem. Segue indo a jogos do Flamengo sempre que possível. Coleciona 13 estádios no currículo, e mais derrotas do que vitórias. Ao lado da mãe, já tinha estado no Parque Antártica, Morumbi, Engenhão e Maracanã. Juntos, no estádio, nunca haviam visto o Flamengo ganhar.
Isso até hoje. Nesse 18 de setembro de 2016, mãe e filho viram o Flamengo vencer, no Pacaembu.
Eu estava lá. Minha mãe também.
Fui ao meu primeiro Fla-Flu com ela. Ao segundo, ao terceiro… Não ganhamos nenhum. Duas derrotas e 1 empate. O sonho de testemunhar uma vitória do Mengo no clássico já fora realizado. Do de vencer ao lado dela, eu já tinha praticamente desistido. Ela nunca soube, mas havia se tornado uma obsessão para mim. Achei injusto incluí-la nisso, nunca mais a chamei para ir ao estádio.
No último mês de março, realizei outro sonho, que nunca tive. Ver a torcida do meu time tomando o estádio símbolo da minha cidade. Sublime. Era Fla-Flu, o Flamengo não venceu, e ela também não estava lá. Comemorava o aniversário de minha tia – sua irmã mais nova – no Rio de Janeiro. Último evento familiar com a presença do meu avô – pai de minha mãe – que morreu duas semanas depois, um dia antes do meu aniversário.
Com esse imenso rubro-negro acompanhando lá do céu, o Flamengo voltaria a mandar um jogo no Pacaembu. Comprei meu ingresso assim que abriram as vendas. Encontrei mamãe 3 dias depois, ela pediu para ir comigo.
Fomos juntos ao estádio. E na cidade que ela fez dela, e que sempre foi minha, nosso Flamengo venceu.
Para mim, hoje fica complicado falar de futebol. De Zé Ricardo, Leandro Damião e Rafael Vaz, das inúmeras chances perdidas. Hoje realizei meu sonho, e por vontade dela.
A mulher que a mim passou a alma rubro-negra de meu avô, que sempre se desdobrou pelo filho e – hoje aposentada – me leva todo dia ao trabalho, do qual estou de férias. Viajo depois de amanhã, estarei ausente por aqui. Provavelmente só terá texto novo daqui a duas semanas.
Nos falamos novamente em outubro, tomara que na liderança do Brasileiro e classificados às quartas de final da Sul-Americana. Para a alegria de toda a Nação, de todos vocês. Para a alegria de minha tia, meus primos. De meu avô, agora distante.
Para a alegria de meu pai, hoje casado com uma corintiana maravilhosa. Ele segue sem gostar de futebol, mas se tornou Flamengo. Um caso incomum: de filho para pai.
Para a alegria, é claro, de minha mãe. Nesse domingo, ela me fez realizar um sonho pessoal com o Flamengo. Que o sonho geral, meu e de todos os rubro-negros, também possa ser realizado ainda em 2016.
Marcos Almeida
Fonte: Nosso Flamengo
