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“Boleirão x Taticão”: a guerra burra que atrasa o futebol brasileiro

Redação
Redação
Publicação: 08/11/2016
1 comentário
Atualização: 08/11/2016
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Começo este post errando. Usar as duas primeiras palavras do título acima, ao discutir futebol em 2016 (!), é um ato falho. Mas é uma discussão necessária. Vivemos um momento de um radicalismo frenético, inclusive fora do futebol. Você é 8 ou 80. E se não escolher um lado, será ainda mais apedrejado. A qualidade do futebol que jogamos atualmente no Brasil entra no balaio. Trata-se de um assunto para ser discutido com urgência. Mas levantá-lo também não quer dizer que você não gosta do time A ou B.

Primeiro temos que entender os ignorantes estigmas que insistimos em usar. Começamos pelo treinador “boleirão”. Trata-se de um termo muito usado para o profissional mais preocupado com a relação humana, de gestão de grupo e liderança. Geralmente são criticados (muitas vezes até com razão) por não dar a devida atenção às questões táticas/técnicas do jogo. Não sabemos bem o que fazem em seus períodos sabáticos. Mas muitos não se atualizam. Não buscam entender a forma como o esporte é praticado e, principalmente, construído na atualidade. Outros até vão atrás, mas às vezes não conseguem colocar estes conhecimentos em prática no seu dia a dia.

Do outro lado do ringue aparece o “taticão”. Para muitos ele é o cara acadêmico, que acha que pode mudar o futebol com teoria e ciência. É acusado de não ter “experiência dentro do futebol” para fazer acontecer. Isso muito por “nunca ter chutado uma bola na vida”. No geral, está sempre buscando se atualizar nas questões táticas/técnicas do jogo. Acredita muito nos treinamentos como algo que vai mudar ou afirmar o seu trabalho.

Agora perceba como os dois perfis levantados acima sofrem algumas “perseguições”. Apresentam grandes qualidades. Mas também mostram deficiências, tão importantes quanto para a modalidade. Então porque raios insistimos em separá-los? Porque o boleirão não se atualiza nas questões táticas e alia isso à sua gestão de grupo? E o taticão, com toda riqueza de conceitos que busca durante toda sua carreira, não pode ser alguém bom o suficiente para comandar vestiários repletos de egos?

A grande pergunta deste texto é: quando vamos passar a enxergar o futebol como algo sistêmico e coletivo? Decidido em detalhes, mas com inúmeras vertentes em sua essência (OBS: o vídeo abaixo tem que ser tratado como muito mais que uma “briga”. Este tipo de debate é importante para o futebol e deveria acontecer mais entre todos nós).

Há quem estude o futebol de maneira séria no Brasil. E quem faz isso não está preso à parte tática apenas. O futebol é tão apaixonante justamente por não ser exato. Uma análise bem feita de um adversário ajuda um treinador a vencer uma partida. Mas é garantia de vitória? Não. Cerca de 50% das ações que acontecem no terreno de jogo são aleatórias. Uma parte do jogo muito atrelada à capacidade de improviso dos atletas, de sua capacidade física no momento ou mesmo seu estado mental de lidar com momentos de pressão. Ou seja, o futebol é tático, técnico, mental, físico, fisiológico, biomecânico e, acima de tudo, humano.

Vivemos em um período que essa discussão se aflora muito pelo fato de nossos profissionais apresentarem muito destes dois estereótipos. Quem consegue de alguma forma equilibrar as duas vertentes centrais da discussão, tende a se dar bem. É nítido também que quem não se recicla tem perdido cada vez mais espaço.

São vários nomes vitoriosos que agora ficam encostados por longos períodos sem emprego até que algum dirigente desesperado o ressuscita. Por outro lado, quem se pauta no conhecimento pode demorar mais para se firmar em um mercado tão competitivo e muitas vezes até desleal. Na maioria das vezes esses treinadores, na maioria mais jovens, não têm costas quentes para suportar oscilações de resultados e decisões políticas.

Como muita coisa dessa vida, o preconceito aparece como grande vilão em toda essa polêmica. O futebol é a única área do mundo em que se aperfeiçoar é praticamente uma afronta a quem domina o mercado até então. Inclusive na própria imprensa. Falar em modelo de jogo, que deveria ser o norte do trabalho de todo treinador, é tratado como cansativo. Analisamos resultado e não desempenho. Há pessoas e pessoas. Umas abertas a entender o novo. Outras fechadas, vivendo na sua referência de bom futebol.

Muitos ainda acham que o torcedor não tem nível intelectual para entender tal análise, post ou comentário. Mais uma vez pergunto: não dá para equilibrar? Precisamos ser tão extremistas assim? Prefiro escrever ou produzir materiais da maneira mais didática possível. Talvez seja a minha grande preocupação em tudo que fazemos dentro do DataESPN. Acredito muito que o conhecimento tem que ser compartilhado a qualquer custo. Entendo também que o torcedor, de maneira geral, tem buscado se atentar a essas questões. Uns mais, outros menos. É gosto.

Discutir o nível dos treinadores no futebol brasileiro nos liga automaticamente à qualidade do jogo que praticamos aqui. Não é o Palmeiras ou Flamengo. É olhar o campeonato por inteiro. É se preocupar com o que vem pela frente. Não é má vontade. Estamos muito atrás do alto nível praticado nos grandes centros mundiais. Não dá para se exigir a mesma qualidade individual, mas organização coletiva teria que ser o mínimo. Nossa evolução é atrasada muito por conta de discussões vazias.

Enquanto isso, temos treinadores treinando mal grandes jogadores, que percebem. Atividades de mais de 3h de duração, com campos inteiros… Quem minimamente busca o que é feito de melhor no mundo, sabe que não são estes tipos de treinamentos que estão rendendo grandes resultados. Abusamos de bolas longas. Vemos grandes equipes sem ideias, com ações apenas individuais e aleatórias, sem um mínimo de padrão. E isso vai totalmente de encontro com o ser boleirão ou táticão. Não importa o que você prefere e sim o esporte que tanto amamos.

A mudança ainda parece muito distante…

Fonte: ESPN

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1 comentário
  • Douglas disse:
    08/11/2016 às 15:15

    É porque o povo brasileiro só conhece a dualidade, o boleiro ou o estudioso, o craque ou o pereba, o PT ou PMDB… No Flamengo a discussão é sempre Maracanã ou estádio próprio, Cuéllar ou Márcio Araújo, os carecas ou a Patrícia Amorim… Parece que ninguém nesse lugar enxerga que pode existir qualquer coisa fora de uma dualidade.

    Responder

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