Marcos Almeida: “Quanto vale um tuíte? E uma vida?”

Morreu um ser humano nos entornos do Engenhão. Houve agressões, depredação, troca de tiros. Há quem tenha corrido, há quem tenha fugido, há quem tenha chorado. Teve gente ferida, teve gente baleada. Tem gente internada em estado grave.

Morreu um ser humano nos entornos do Engenhão. O jogo era Flamengo e Botafogo. E a Flamengo e Botafogo restou a opção pela troca de farpas, provocações.

Morreu um ser humano nos entornos do Engenhão. Menos de um dia depois, a pauta na Gávea e em General Severiano era outra. Eram outras. Willian Arão, Estádio Nilton Santos, Luso-Brasileiro, twitter, cotas de TV para o Campeonato Estadual.

Morreu um ser humano nos entornos do Engenhão.

Está recente, não faz 48 horas, e ainda há muito a ser absorvido. Não para Flamengo e Botafogo. Após o jogo, ainda sem a confirmação da morte do torcedor alvinegro, o perfil oficial do Flamengo deu a primeira bola fora em suas redes sociais:

Twitter/@Flamengo

“Não adianta fugir, não adianta correr” soa pessimamente após um episódio de conflito armado. É de se causar revolta, e o Botafogo retrucou:

Twitter/@BotafogoOficial

A partir daí, o que era pra não acontecer aconteceu. A barbárie vista em Engenho de Dentro foi posta em segundo plano. Passava a valer, então, um novo Flamengo e Botafogo, agora fora das quatro linhas. Rubro-negros e botafoguenses defendendo os seus, atacando os dos outros. A vida que se foi e outras tantas postas em risco não valiam mais nada. Tudo por causa de um tuíte.

A imprensa começou a questionar se não seria correto o Flamengo pedir desculpas. Hora dessas o corpo do alvinegro devia estar a caminho do IML, e tudo o que se cobrava era uma nova postagem. Pronunciamento das autoridades públicas, da FERJ, dos presidentes dos clubes? Pra quê? O importante, ali, era o @Flamengo tuitar a retratação.

Não tuitou, assim como o vice-presidente de comunicação, Antonio Tabet. Responsabilizado pela controversa publicação – embora não tenha sido o autor dela –, ele resolveu se posicionar, como habitualmente faz, por intermédio do twitter.

Twitter/@antoniotabet

E tome mais revolta. Acusaram falta de sensibilidade a Tabet. Talvez tenha sido excesso de sinceridade. Ele não está nem aí para o ocorrido, assim como Eduardo Bandeira de Mello e Carlos Eduardo Pereira. Na manhã de segunda-feira, o presidente do Botafogo decidiu proibir o Flamengo de jogar no Engenhão. Em seguida, ambos os mandatários falaram, à ESPN, com discurso bastante parecido. O papo batido de “lutar contra a violência”, mas nunca encerrando a frase sem tecer uma crítica ao rival.

Sabe aquela história de “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”? Se o inimigo dos clubes fosse a violência, eles poderiam se juntar, nem que apenas dessa vez. Mas não. A morte à beira do estádio jamais superará a transferência de Willian Arão.

Na visão rubro-negra, o inaceitável ocorreu principalmente porque o Botafogo era o mandante. Na visão botafoguense, porque o Flamengo era o adversário. Fomentada pelos próprios dirigentes, a rivalidade clubística tira o foco da realidade. O inaceitável deixa de ser fruto da crise estrutural por que passa o estado do Rio de Janeiro. Torna-se aceitável. Afinal, “violência é coisa do futebol”.

Violência é coisa da sociedade brasileira. Em um país onde o índice de homicídios supera o das guerras no Oriente Médio, onde estupro vira motivo de chacota e onde o pai mata o filho por desavença política, é natural que a violência venha se manifestar em níveis extraordinários. Como parte de nossa cultura, o futebol também se insere no contexto.

Morreu um ser humano nos entornos do Engenhão. Amanheceu, e a segunda-feira que poderia marcar o começo de uma transformação no futebol carioca foi tomada por provocações. Atrito escancarado há mais de ano, fortalecido agora em função de um tuíte.

Enquanto isso, a família sangra a morte de Diego Silva dos Santos, botafoguense, 28 anos. Diego nunca mais poderá tuitar.

Marcos Almeida

Fonte: Nosso Flamengo

Veja também

  • Bandido bom é bandido morto.

  • Estão dando mais atenção pra postagem do Flamengo do que tentando fazer alguma coisa pra que essa violência no futebol acabe. A polícia tem que ser cobrada pra identificar os envolvidos. A imprensa e nós temos que cobrar que haja penas mais rigorosas pra esses marginais. Não é só porque morreu o torcedor, mas mesmo se não tivesse existido vítima fatal, o clima de terror que eles fazem é inaceitável. A cena do pessoal apavorado dentro do trem com a maneira que a torcida Jovem Fla estava agindo foi triste de se ver.
    O policiamento antes do jogo começar era praticamente inexistente. Eu sei porque eu estava no estádio, foi assistir o jogo e estava com medo como todo mundo. SRN

  • Na moral… basta com essa polêmica! Esquece isso. Esse Post em nada estimula a violência, os ignorantes que práticam, ja saem com a intenção de faze-la, independente do clube A ou B.

  • Sem dúvida faltou sensibilidade da página do Flamengo em não perceber que seria um post em pessima hora apesar de ter sido um erro inocente (na minha opinião) e extremamente desnecessária a resposta da página do Botafogo, incitando o ódio, acabou promovendo uma guerra que não tem cabimento. Desvaloriza a vida, desumaniza o povo, banaliza a morte de uma pessoa. É importante lembrar que nesse momento tem uma família de luto. Paz ✌

  • Problema é que os caras vivem em combate, torcidas organizadas vão ao estádio para torcer? Sim vão, mas também vão para se confrontarem entre si, seja contra torcida do time adversário, seja contra torcedores do mesmo time, absurdo, mas é fato. Quem vai ao estádio e fica próximo a algumas organizadas já viram que os mesmos às vezes procuram o confronto, é normal ouvir cantos vangloriando a morte de fulano X ou Y, então essa morte é algo comum nesse meio, para torcedores comuns não, mas para alguns das organizadas o que conta é eliminar torcedores rivais. Pena que Botafogo e Flamengo em vez de darem um fim nesse tipo de torcedor alimenta-os, a diretoria de ambos os clubes possuem responsabilidade nesses confrontos, mas prefere ficar apontando o dedo em vez de assumirem seus erros. Lamentável.

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