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Universidad Católica usa Ação na Bolsa e até imigração para crescimento do clube

Redação
Redação
Publicação: 15/03/2017
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Atualização: 15/03/2017
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O modelo de ações na Bolsa de Valores chilena virou exemplo de gestão no futebol deste país. O presidente da Universidad Católica, Juan Tagle, revelou que este tipo de administração e investimento salvou os grandes times do país.

Clubes começaram a atrair novos investidores, o que movimentou e trouxe a entrada de valores para os clubes, que graças a isso, puderam até contratar jogadores.

O presidente, que assumiu a U. Católica no ano passado, fala sobre a receita que fez o clube ‘virar o jogo’ no Chile, superando até mesmo rivais mais fortes economicamente.

Confira a entrevista feita exclusivamente pelo GloboEsporte.com:

GloboEsporte.com: No Brasil, clubes que mudaram a gestão tradicional para virarem sociedades anônimas acabaram tornando ao modelo anterior. Como foi no Chile?

Juan Tagle: No Chile funcionava como ainda é no Brasil até os últimos anos. Todos os clubes eram associações sem fins lucrativos, com sócios, dirigentes eleitos pelos sócios. Mas todos estavam com muitos problemas econômicos. Somos a terceira equipe em número de torcedores, atrás de Colo-Colo e Universidad do Chile. Os dois quebraram no meio dos anos 1990. Por que? Porque os dirigentes não eram responsáveis, não havia informação transparente, série de coisas e isso tudo levou esses dois clubes a quebrarem. A maneira de sair desta situação de dívida foi indicando acionistas para tomarem controle do clube. Começou o sistema primeiro nestes dois clubes, com ações na bolsa. Mudou da associação sem fins lucrativos para pessoas responsáveis que querem o sucesso do time e seu sucesso pessoal.

Na Católica começou quando?

Em 2005 começamos a separar o clube esportivo, que se mantém, com seus diretores, sócios, e o futebol, que é a única atividade profissional independente. Se formou uma sociedade anônima, uma empresa, com sua própria direção e as pessoas investiram para entrar na administração deste grupo. Existe um contrato de 40 anos de concessão para funcionar no mercado de Bolsa de Valores do país com o nome do clube e todo o futebol passa pelo conselho diretor. Quando houve a crise do futebol chileno, com todos os clubes praticamente quebrados, principalmente os dois mais populares, houve um debate político e econômico para qual solução se buscaria. E a solução principal foi criar uma lei que permitisse a criação de sociedades anonîmas esportivas, criar um veículo para que os acionistas coloquem capital, porque nos clubes sem fins lucrativos isso não era possível.

Alojamento para dezenas de jovens fica ao lado do estádio da Católica: na parede, um pouco da história do clube com ídolos em postêresA sala (Foto: Raphael Zarko)Houve muita resistência? Clubes de futebol geralmente são muito fechados.
Sim, e ainda há muito. Ainda há setores da sociedade que se opõem a isso. Dizem “o futebol não é negócio”, “não ao futebol-empresa, não à sociedade anônima”. Algumas pessoas eram contra e falavam que isso atenta contra a decência do futebol, contra o associado do clube. Mas nós buscamos o caminho de ser compatíveis com o caráter social do futebol e com um modelo de negócios que seja responsável, sério e profissional. Não negamos a essência social do futebol, como atividade aberta a comunidade. Mas buscamos um modelo sustentável. Não pretendemos ser um grande negócio porque o futebol não é um grande negócio. É difícil que um clube, ainda mais em um país pequeno como o Chile, seja um grande negócio, mas queremos que seja sustentável.

Os acionistas da “UC” são torcedores da Católica? Os do Colo-Colo são acionistas do Colo-Colo? É assim que funciona ou eu posso comprar ações da “La U” apostando na valorização dessas ações?

De maneira geral os acionistas são, claro, torcedores que querem ajudar, investir em alguma coisa. Aqui temos um caso mais conhecido que é do ex-presidente do Chile Sebastián Piñera.  É torcedor da Católica desde criança. Mas quando se fez a sociedade anônima do Colo-Colo ele foi um dos principais acionistas. No caso dele foi muito mais motivação política do que econômica. Colo-Colo é o time mais popular. Foi exposição importante para ele. Mas todos sabem que ele é torcedor da Católica. Mas o normal é que acionistas do Colo Colo sejam torcedores do Colo Colo, da “La U” invistam na “La U” e da Católica na Católica.

Até porque os torcedores não investem com o fim de ganhar dinheiro, de fazer um grande investimento. No Chile, se você quer fazer grande investimento não vai investir nas ações de um clube de futebol. Vai investir em bens, em mineração, em energia. No futebol, o que aspiramos é fazer um negócio sustentável, que se der alguma rentabilidade melhor ainda. A pessoa que investe não está buscando ganância econômica, está buscando investir como torcedor.

Quanto valem as ações da Católica?

Nossas ações na bolsa tem valor total de US$ 20 milhões. Creio que a Universidad de Chile e Colo-Colo estão em torno de US$ 40 a US$ 50 milhões. Para muitas empresas não são números grandes, são pequenos. Mas o futebol tem valor agregado muito grande. Eu, como presidente da Católica, sou mais conhecido que qualquer presidente de empresa gigante no Chile. Para a gente é um erro ver pessoas que entram no futebol por fim político, para ganhar popularidade. O importante é como sociedade anônima é manter a vinculação com o clube, com os torcedores, para que todos se sintam parte do clube.

Ainda há sócios da Católica, como é essa relação?

Sim, temos a figura dos sócios. Eles participam do clube, tem série de benefícios, descontos, todas atividades normais. Mas efetivamente não participam do governo do clube. O diretório do clube é o conselho diretor eleito pelos acionistas. Claro que nem todos estão de acordo com esse governo, mas é um modelo que funcionou, o futebol cresceu, as pessoas se sentem responsáveis pelas ações, decisões. Comparado ao que existia antes, é melhor hoje.

Quantos torcedores têm ação da Católica? Há cota mínima para investir?

Não sei o número exato. Não há cota mínima. Há muitas pessoas que investem US$ 100. Uma pessoa pode comprar ação por US$ 0,30. Mas a massa de torcedores em geral não compra ação. Os acionistas que investem no nosso clube pensam a longo prazo. Não é ação de muitos movimentos, que você compra e vende em três dias, como ação de sociedade grande. Há dois tipos de acionistas. Aquele que quer comprar partes grandes das ações e quer ter participação no diretório do clube. Temos um diretório com 11 membros e tem que ter 8% mais ou menos – ou reunir grupo com essa quantidade – se quer ter cadeira no diretório. Tem também o acionista pequeno, que faz apenas um aporte ao clube e não tem expectativa de ajudar.

Com esse modelo é possível contratar nomes como Buonanotte e Santiago Silva?

São investimentos importantes para nós. O futebol chileno em geral tem modelo de formar jogadores, exportar jogadores e trazer poucas figuras que possam fazer diferença, como Buonanotte, Santiago Silva. O normal é ter 70% a 80% de jogadores formados em casa. No caso desses dois (Buonanotte e Santiago Silva) são jogadores livres. Para comprar um jogador nesse nível não é possível. Não está no nosso alcance gastar US$ 4 milhões, US$ 5 milhões para trazer esses jogadores. Veja o exemplo do Flamengo. Li que eles ganham por direitos de televisão US$ 60 milhões. Nós, apenas US$ 4 milhões. São mundos distintos, mas que dentro de campo às vezes a distância diminui. Procuramos ter modelo responsável, como regra de ser muito responsáveis com investimentos, gastos. Todos anos colocamos como objetivo ter venda de jogadores. Nossas vendas não são como um jogador no Brasil, que sai por US$ 9 milhões, US$ 10 milhões. Aqui, saem por US$ 3 milhões. Foi o caso do Nicolas Castillo, saiu por 3 milhões de euros para o Pulma do México. Tínhamos 15% dos direitos econômicos dele. É muito difícil vender por valores muito acima disso. Eles aqui não saem do Chile para o Real Madri, saem para Argentina, Brasil, México ou clube menor na Europa.

Você tem salário como presidente do clube e representante dos acionistas?

Não tenho salário como presidente. Em alguns casos, porém, existe. No Colo-Colo o presidente tem salário. “La U” não tem. Isso estamos discutindo se deve haver aqui também. Com salário você pode democratizar a presidência, porque senão só pode ser presidente quem tem muito patrimônio. Porque como sociedade anônima cada um é pessoalmente responsável. Eu poderia ser retirado pelos acionistas se amanhã comprar alguém e o clube quebrar. Eu respondo com meu patrimônio. Tenho que ser muito responsável, meu patrimônio está em jogo.

Já houve divisão de dividendos dos valores do clube na Bolsa?

Não houve repartição de dividendos até hoje. As pessoas fazem investimento, deixam o investimento por um tempo. É um modelo a longo prazo muito mais para ajudar o clube, não com fim econômico.

O paulista Gustavo Pereira, de 18 anos, e o baiano Luis Gabriel, 19: dois brasileiros tentam carreira na base da Católica (Foto: Raphael Zarko)Como explica o bicampeonato no Chile contra times mais fortes economicamente?
Que bom que o futebol é assim. Temos menor capacidade de investimento em relação a nossos rivais. E veja o exemplo do Brasil. O Flamengo não é campeão nacional desde 2009! Não éramos campeões desde 2010, fomos vice-campeões algumas vezes e voltamos a vencer agora. Confiamos que trabalho a longo prazo, com boa base de times formados em casa, é o modelo que nos permite competir de igual para igual. Tenho melhor investimento, melhor base, somos mais respeitosos no processo – nosso treinador não é demitido depois de quatro partidas. É a receita de administração profissional, muito séria. Somos o primeiro clube a ter um gerente esportivo, que é nosso ex-goleiro argentino Tati Buljubasich, mas com poder realmente. Ele está desde 2010 com a gente. Somos mais estáveis nesse sentido.

Vi no CT da Católica jogadores brasileiros e outros sul-americanos na base. A Católica tem algum programa para receber esses atletas jovens de outros países?

É um tema que vai além do futebol. É uma transformação na sociedade chilena. Muita chegada de pessoas do Peru, Equador, Colômbia, Cuba… Mas sim, estamos atentos que sabemos que isso é também material com potencial para o futebol. Chile é um país que não tem originalmente pessoas de raça negra. É um tipo físico muitas vezes diferente, mais fortes. Isso pode significar bastante êxito. Na seleção sub-17 há um jogador nosso, um ponta direita que é filho de cubano. O melhor jogador da seleção. Estamos buscando esses jogadores, mas é difícil trazer jogador menor de idade, porque há regras da Fifa. Mas aproveitamos sim esse crescimento de imigração do Chile para tentar gerar frutos no futebol.

Por fim, muitos torcedores da Católica com quem conversei falaram sobre o sonho de um dia Conca jogar de novo aqui. É um sonho possível? Os acionistas não podem colocar um pouco mais de dinheiro por isso (risos)?

(Risos) Não sei quanto ele ganha no Flamengo, mas é um dos futebolistas mais bem pagos do mundo. Pelo menos era assim na China. Ele deixou muito boa recordação e em pouco tempo. Mas foi campeão em 2005. Chegou muito jovem. Existe essa expectativa. Quem sabe algum dia podemos realizar esse investimento.

Assuntos:CatólicaFlamengo
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