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O Globo: “Artigo: Uma visão elitista do confronto”

Redação
Redação
Publicação: 15/12/2017
24 Comentários
Atualização: 15/12/2017
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Fui ao Maracanã com uma turma de amigos que alugou um camarote. Tranquilidade por um preço alto. Tínhamos entradas para o estacionamento e partimos cedo. Às 19h30m, já estávamos no Rebouças, saindo da Zona Sul. Quando chegamos perto do estádio, já sentimos a desorganização. Duas horas antes do jogo, o clima já era pesado.

Passamos por um bloqueio de trânsito, mostrando ingressos e autorização para estacionar dentro do estádio. Alguns metros depois, havia outro bloqueio. Precisava? Não sei. O fato é que o horror começou neste segundo bloqueio, já perto do Portão 9. Uma turma resolveu tirar as grades que faziam o bloqueio, e o profissional que fazia as averiguações, no braço. Atropelaram tudo, jogando as grades para longe e enxotando o profissional. Uma das grades atingiu um senhor que passava alheio e que reclamou. A turma se virou contra ele e em segundos ele estava estendido no chão inconsciente. As crianças no carro assistiam a tudo, sem entender.

Por que a torcida do Flamengo agredia a torcida do Flamengo assim? Uma porrada no vidro do carro nos tirou do torpor para nos alertar que também éramos alvo. Tínhamos, em comum com o corpo estendido no chão, o fato de termos cruzado o caminho daqueles cidadãos que devem ter saído de casa sem ingresso com o objetivo de criar tumulto, agredir quem passasse na frente e manifestar seu ódio aleatório, gratuito e randômico.

Há tempos desisti de ir às arquibancadas. Todo mundo fica em pé, embora as cadeiras sejam confortáveis. A arquibancada virou uma geral. Só que a antiga geral era bem-humorada, e a arquibancada não é. É feroz. Por isto, a escolha caríssima do camarote. Desisti também de clássicos. A certeza da violência, dentro e fora do estádio, desanima. Fui ver a final da Copa do Brasil e demorei muito a entrar no estádio, embora tenha ido cedo, por conta dos milhares de torcedores que foram sem ingresso pra tentar arrombar e entrar na marra. O que se repetiu ontem, evidentemente, e vai se tornando uma tradição.

No intervalo, meu filho manifestou sua preocupação. Estava com medo da saída do estádio. Quando chegamos ao estacionamento, vi um carro retornando de ré. O teto do carro e o vidro traseiro tinham sido destruídos por um objeto pesado jogado do corredor de acesso às arquibancadas na área interna do estádio. Se atingisse uma pessoa, teria matado. Quem jogou o tal objeto não mirava ninguém em especial. Queria destruir, machucar, ofender quem quer que fosse e só.

O estacionamento ficou fechado por cerca de 50 minutos. As crianças, de dez e 12 anos, no carro, tensas com o que encontraríamos lá fora. Nisso liga um amigo que estava do lado de fora do estádio, com duas crianças de menos de dez anos, entre cercos policiais, agressores, balas de borracha, gases de efeito moral e sem conseguir fugir para lugar nenhum. Tinha ido de metrô e pensava em retornar da mesma forma. Pedimos que se unissem a nós, mas eles não conseguiam cruzar os bloqueios da polícia. Nem para chegar à porta do estacionamento, onde pegariam a carona.

No camarote, uma cena me chamou a atenção. Dois rapazes que estavam na última fila da arquibancada, logo à frente, resolveram ficar de pé nas cadeiras durante o jogo todo. Isto bloqueava a visão de quem estava atrás e obrigava a ficar de pé. Ao meu lado um senhor, já bem maduro e cadeirante, não conseguia enxergar nada. Com toda a educação e tato, pedimos aos tais cidadãos para que levassem em conta que a escolha deles implicava em impedir que um cadeirante visse o jogo. Eles atenderam prontamente, mexendo-se cinco centímetros para o lado e continuaram em pé. Mas ofereceram ao senhor da cadeira de rodas uma fresta para que ele visse cobranças de escanteio. Uns lordes.

Torcidas nem sempre foram exemplos de civilidade. A diferença é que hoje turbas hostis vão ao jogo sem ingresso, para entrar na marra. Antes, apontavam os morteiros para o céu, hoje apontam para alguém.

Fui a jogos da Copa do Mundo e das Olimpíadas, com a família, e não vi nem ouvi falar de nada do gênero e sei que se quiserem organizar, conseguem. E aí fica a dúvida: quem é o responsável pela desorganização do jogo de ontem? O Flamengo, que diz ter habilidade para gerir o estádio? O Estado, que embargou sua compra para fazer uma “nova licitação” que não sai nunca do papel? A Odebrecht, que aluga o estádio para eventos mas não tem nenhum interesse em ficar com o negócio? Quem vai pagar pelo estrago? Quem se responsabiliza pelos feridos?

Para mim, chega. Melhor ficar em casa e torcer pelo meu Flamengo sem me expor a estas coisas.

Fiquei muito preocupado com os amigos que chamei de malucos quando disseram que preferiam ir de arquibancada. Todos estão vivos. Mas não podemos chamar isso de diversão. Muito menos familiar.

* Léo Jaime é cantor e compositor

Fonte: O Globo

Assuntos:brigaconfusãofinalFlamengoIndependienteMaracanãSul-americana
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24 Comentários
  • Carlos Eugênio Abreu Camargo disse:
    15/12/2017 às 08:35

    Enquanto o Flamengo jogar jogos importantes em estádio com capacidade para 50/60 mil pessoas vai sempre ocorrer tumulto.Como pode um estádio que cabia 170/180 mil torcedores, agora só comporta 65 mil,sendo que o estado gastou R$ 1.400.000,00 na “reforma”.Com essa grana se construía um estádio com capacidade para 120.000 ou mais torcedores. Até o futebol do Rio foi afetada pela quadrilha montada por PT/PMDB e PP.

    Reply
    • Rosemberg Valle disse:
      15/12/2017 às 09:03

      Não concordo quanto a capacidade do estádio, aqueles delinquentes foram pra vandalismo.
      Temos que parar com essa bobagem que futebol precisa ter acesso à todos, futebol é negócio, a empresa precisa lucrar!
      Tirando esse jogo e final do Copa do Brasil, qual encheu estádio (nem mesmo a ilha)?
      Sobre corrupção na construção , não tem nada a ver com o Flamengo e não afetou em nada os clubes do Rio, visto que são empresas.
      A responsabilidade de forma geral é do cidadão que deixa se contaminar!

      Reply
    • Dieki disse:
      15/12/2017 às 09:04

      Para quê construir um para 200 mil se a lotação média não vai chegar a 20? O estádio do Corinthians é menor, 44 mil lugares, com média altíssima de público mas não há registro de invasões. Não é culpa do estádio pequeno, porque o Maracanã não é. A TJF está banida dos estádios, mas vai pra invadir. Que torcida é essa!?

      Reply
  • Rosemberg Valle disse:
    15/12/2017 às 08:55

    Perfeito, todos possuem parcela de culpa.
    Vejo um dos mais culpados o no governo que ainda não acabou com a torcida organizada.
    O Flamengo deveria ter contratado mais seguranças internos, visto que a responsabilidade contratual era dele.
    Os cidadãos precisam ter consciência, a Sena das pessoas roubando bebida dentro do estádio, mostra que muitos ainda aproveitam o caos e se juntam ao vandalismo ( mesmo que seja o roubo da bebida e depois “virar gente” novamente.

    Reply
    • Dienekes disse:
      15/12/2017 às 13:35

      Não existe ”acabar com torcida organizada”. A menos que vc identifique todos eles e os fuzile coletivamente num muro, não tem como acabar. São pessoas, e pessoas vão se reunir, e vão continuar se encontrando e fazendo o que gostam de fazer.

      É uma utopia, achar que proibir um certo nome, proibir uma certa camiseta, vai acabar com o problema da violência, que é geral… no país todo e no estado do Rio em especial que está um caos… Isso que aconteceu é só um reflexo da sociedade brasileira. Cheia de ladrões inclusive nas camadas mais altas e barbárie. Lembram no Espírito Santo quando houve a greve da polícia? Lembram do que ocorre quando acontece algum acidente na estrada? Populares roubam e saqueiam toda a carga como se fosse algo normal…

      Em São Paulo proibiram as organizadas, e o que aconteceu? Elas deixaram de existir? Só as colocaram na clandestinidade e as tornaram mais violentas já que agora não tem nada a perder. Proibiram a Mancha Alviverde, o que aconteceu? Mudaram o nome e criaram a Mancha Verde. Rs, parece piada. É muita ingenuidade, muita falta de conhecimento da situação e muito amadorismo do poder público.

      Reply
      • Rosemberg Valle disse:
        21/12/2017 às 15:08

        Você está errado, precisa acabar com a torcida e proibir que exista em qualquer esfera. Tornando crime, aí se formarem algo, serão presos.
        O que falta é lei específica pra acabar com isso.
        Não me importo se marginais apodrecem na cadeia, pois ninguém nasce marginal! A escolha que o indivíduo faz pra si é problema dele. Cabe o governo por pôr as regras para todos seguirem e quem não seguir, aguente as consequências.

      • Dienekes disse:
        22/12/2017 às 20:25

        A realidade concreta e a História demonstram o oposto. Como o estado vai vigiar milhares de pessoas 100% do tempo? Vai por tornozeleira eletrônica em todo mundo? E como vão controlar novos torcedores? Como vão saber todo mundo que um dia decide por uma camisa de um time pra fazer baderna? Vai prender todo mundo? Não consegue nem vigiar os presidiários direito. Não tem dinheiro nem pra manter os presos comuns, nem pra investigar crimes comuns muito mais graves que ocorrem aos montes no país. Um país que mais de 90% dos homicídios nunca são solucionados vai dar conta de vigiar e reprimir torcedor? Não existe isso. NUNCA vai acabar.

        A própria Torcida Jovem está proibida com seus líderes todos procurados com mandado de prisão decretado. Isso acabou com a Jovem? Ao contrário, agora que estão na clandestinidade, não têm nada a perder e estão mais atuantes do que nunca e MUITO mais violentos. A mesma coisa aconteceu em São Paulo quando proibiram as organizadas. A violência só aumentou. E vai aumentar mais, escreva o que tô dizendo…

        Antigamente quando havia um canal de diálogo e negociação com as TO’s e seus líderes, havia uma espécie de cadastro e legalidade, elas procuravam se comportar no RJ. Hoje que resolveram acabar com qualquer diálogo, simplesmente dar uma canetada e proibir, criou-se espécies de guerrilhas urbanas clandestinas e sem controle que nada tem a perder. Tem que entender que elas existem e ponto. É preciso encontrar uma maneira mais inteligente, fora do óbvio, e do simplismo, pra lidar com a situação.

      • Rosemberg Valle disse:
        23/12/2017 às 09:03

        Em no máximo 2 anos veremos se ainda existirá torcida organizada.

  • Sobei loscar disse:
    15/12/2017 às 09:34

    Esse era o problema que aconteceria com a elitização do futebol, um estádio que era grande e democrático, aonde se permitia a todo o tipo de classe social, agora é pequeno luxuoso bem confortável para quem tem muito dinheiro.
    Por que não construíram outro estádio, e não deixaram o Maracanã para a maior parte da torcida que sempre o frequentou, que era a camada mais pobre, principalmente da torcida do Flamengo.
    Não acho que o que foi feito está correto, longe disso, mas tem que se repensar a “ELITIZAÇÃO” do esporte mais popular do país.
    Futebol não pode virar apenas coisa de milionários.

    Reply
    • Dienekes disse:
      15/12/2017 às 13:28

      Perfeito. É o caminho inverso da história. Futebol começou como um esporte de milionários, engravatados e cresceu justamente pq se popularizou entre as camadas mais populares. Agora estão querendo retroceder elitizando novamente o futebol excluindo as camadas mais populares que fizeram o esporte ser o que é hoje e o Flamengo ser o que é.

      Reply
      • Sobei loscar disse:
        15/12/2017 às 14:10

        Correto,. é por ai mesmo.

  • Marcos Moura disse:
    15/12/2017 às 09:45

    Como exigir educação, bom comportamento e gentileza, do povo esquecido por todos, sem escola ou com péssimas escolas pra estudar, sem hospital para se cuidar, com salário atrasado (aqueles que tem um trabalho para ganhar o seu sustento), sendo governados por políticos corruptos, que além de roubar seu dinheiro, rouba agora também sua diversão, cobrando preços fora do seu alcance, e pra piorar sendo desrespeitados no seu próprio país por estrangeiros racistas babacas?!?! Uma hora a revolta chega incontrolável como chegou no Maracanã, deveria antes chegar lá em Brasília, no Congresso Nacional, mas vai chegar, se o Navio chamado Brasil continuar a deriva. SRN-ST desde 2013

    Reply
    • nico disse:
      15/12/2017 às 10:53

      isso não é desculpa, educação vem de berço, todos tem escolhas, sei que é um pais muito injusto, mas tem varias e varias pessoas com falhas de caráter, que se aproveitam dessas situações para se revelarem, bandidos, desagregadores sociais…. e te digo mais, muitos desses ai não querem ralar pra conseguir sair da situação ruim, querem buscar o facil, querem garantir o seu, custe o que custar, te provo, mostrando o video, em que o cidadão furta os pertences do motorista qeu acabara de atropelar um transeunte na radial oeste….isso não é pq torce pro flamengo, isso é o retrato do brasil, com os exemplos que vem de cima pra baixo (brasília). SRN

      Reply
      • Atyla Reis disse:
        15/12/2017 às 12:53

        É isso. O Flamengo é o retrato do Brasil.
        Eu sei todos tem escolhas e educação vem de berço, mas não é todo mundo que tem berço né?

      • nico disse:
        26/02/2018 às 13:24

        educação vem de berço sim, não importa se é rico ou pobre, minha mae não foi rica, não tem berço de ouro, mas mesmo assim meus avos educaram muito bem 11 filhos, não são perfeitos, mas todo mundo sabe respeitar um ao outro, souberam educar seus filhos, e to aqui, muito bem educado, com uma dificuldade tremenda, ela batalhou, meu pai tambem, e conheço e tenho varios amigos, que sem mãe, sem pai, sem os dois, foram e tiveram uma educação… eu não to falando de estudar nos melhores colegios, falo a educação de casa……. e tem varias historias, de pessoas que mesmo segregadas, escolheram lutar e conseguiram…. nunca podemos justificar essas coisas com esse papo de retrato do brasil, muito baderneiros nesse dia ai, tinham condições e estavam arrumando confusão pq gostam disso !!

      • Atyla Reis disse:
        26/02/2018 às 19:39

        Mas são sempre uns poucos que fazem grandes estragos.

      • Marcos Moura disse:
        06/03/2018 às 21:46

        Educação vem de berço, quando ha alguém com educação para ensinar a criança, do contrario ela vai crescer igual a um animal, simples assim.

      • Marcos Moura disse:
        26/02/2018 às 09:54

        Educação vem de berço, mas e se a criança não tem berço? e se não tem ninguém com educação para lhe ensinar? Pensa um pouco fora “da sua realidade”, nada justifica a violência e a bandidagem, mas a miséria pode explicar muito sobre isso.

      • nico disse:
        26/02/2018 às 13:26

        a miseria é um fator forte, mas não define as coisas, como ter dinheiro, pai, mae e outras coisas, não define nada, voce diz que não justifica, mas tenta justificar, tem varios exemplos, so que é dificl, o caminho é longo, eu não tenho dinheiro, nem chego a classe media baixa, moro em favela e não faço esse tipo de coisas, tem gente que gosta do errado e procura isso !

      • Marcos Moura disse:
        06/03/2018 às 21:44

        Nico, pela sua historia vejo que você e um vencedor, que bom, mas voltando ao que eu escrevi, ha uma grande diferença entre justificar e explicar, pesquisa ai e você podera entender o que eu quiz dizer.

      • Marcos Moura disse:
        26/02/2018 às 09:54

        Educação vem de berço, mas e se a criança não tem berço? e se não tem ninguém com educação para lhe ensinar? Pensa um pouco fora “da sua realidade”, nada justifica a violência e a bandidagem, mas a miséria pode explicar muito sobre isso.

    • Pablo Fachinelli disse:
      15/12/2017 às 14:20

      Quem nasceu primeiro? A educação ou a caridade? Cria coragem pra ser educado amigo, porque pra ser mal educado basta ser um ignorante covarde que não respeita nem um cadeirante.

      Reply
      • Marcos Moura disse:
        26/02/2018 às 09:49

        “Cria coragem pra ser educado amigo”!?, Ahn!?, do que você está falando? Graças a Deus sou muito bem educado, pude estudar, tive o carinho dos meus pais, trabalho e posso dar um relativo conforto a minha família. Acredito que você também tenha uma boa educação, mas muitos desses arruaceiros não tiveram essas coisas mínimas que você e eu tivemos. É certo que a atitude deles não pode ser justificada por isso, mas explica muito o que aconteceu, é o que penso. Cada um pode ter sua opinião sem ser grosseiro como você foi. Saudações Rubro negras.

      • Marcos Moura disse:
        26/02/2018 às 09:49

        “Cria coragem pra ser educado amigo”!?, Ahn!?, do que você está falando? Graças a Deus sou muito bem educado, pude estudar, tive o carinho dos meus pais, trabalho e posso dar um relativo conforto a minha família. Acredito que você também tenha uma boa educação, mas muitos desses arruaceiros não tiveram essas coisas mínimas que você e eu tivemos. É certo que a atitude deles não pode ser justificada por isso, mas explica muito o que aconteceu, é o que penso. Cada um pode ter sua opinião sem ser grosseiro como você foi. Saudações Rubro negras.

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