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Pedro Henrique Torre: “O Flamengo que não vibra cai de novo e ensaia retorno de rotina melancólica”

Redação
Redação
Publicação: 07/09/2018
1 comentário
Atualização: 07/09/2018
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Vitinho faz o primeiro gol com a camisa do Fla, contra o Inter (Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)
De forma fria, o jogo do Flamengo que entrou no Beira-Rio não foi ruim. Ao contrário. Sem praticamente meio time e diante do contexto, contra um Internacional em topo de tabela no estádio cheio, a atuação foi até digna com os desfalques. Em vários momentos do jogo, um desempenho superior ao do rival. Mas o grande problema deste Flamengo em meio a um furacão criado pelas próprias falhas parece ser mesmo esse: a frieza. É um time que não vibra. Toca a bola, gira ao jogo, mas evita a maior agressividade. Morder o adversário. Murcho. E desatento. Cedeu dois gols ao novo líder do Campeonato Brasileiro em lances de bola aérea. Um revés de 2 a 1 que voltou a dar o recado que a competição não permite cochilos. Rotação baixa. Frieza.


A tradição já estabelecida no Ninho do Urubu indica que a escalação do Flamengo, mesmo com tantas possibilidades devido aos desfalques, é de conhecimento público com certa antecedência. Uma vez mais o rival foi brindado com tranquilidade sobre o que ocorre em portas fechadas no treino do CT. Como o departamento de futebol parece considerar a prática irrelevante e nada prejudicial, o Flamengo foi mesmo a campo com Piris, Romulo e Marlos Moreno nas vagas de Cuellar, Diego e Lucas Paquetá. A surpresa de última hora de Mauricio Barbieri foi lançar o jovem Lincoln no ataque em vez de Henrique Dourado. Na prática, o 4-1-4-1 continuou, com Vitinho trabalhando por dentro, Piris à frente da defesa com momentos de alternância com Romulo.

Ocorre que o momento ruim do time atinge até mesmo quem vem em boa fase em 2018. Léo Duarte é um dos exemplos. Geralmente atento, com boas antecipações e muito seguro, o garoto começa a claudicar em um time que baixou totalmente o padrão de confiança atingido antes da Copa. Depois de uma atuação bem abaixo contra o América-MG, o zagueiro voltou a comprometer. De forma incompreensível, ele optou por recolher a cabeça e deixar o lançamento de Edenílson chegar à pequena área com cinco minutos de jogo. Provavelmente imaginava que Diego Alves agarraria a pelota sem maiores problemas. É, também, um dos problemas que enfrenta o Flamengo. Titubear. Hesitar. Imaginar. E buscar uma solução errada. Pottker estava atrás dele. A bola sobrou, limpa, para que o atacante arrematasse para dentro do gol com cinco minutos de jogo. 1 a 0.

Inter no início: gol precoce fez time se basear demais no contra-ataque

Era o que o Flamengo não precisava. Com a equipe completa, o gosto por dominar as partidas e pressionar o rival é compreensível. Há qualidade técnica para isso. Sem três jogadores do meio o natural seria esperar o Internacional e forçá-lo a sair de seu jogo de contra-ataques, tomando a iniciativa. O gol com cinco minutos tornaria a partida mais confortável aos gaúchos, principalmente pelo aspecto mental. Impulsionado, o Colorado até contrariou as expectativas. Tentou apertar mais o Flamengo após conseguir a vantagem. Também em um 4-1-4-1, o time de Odair Hellmann além de bem organizado entrega o que falta ao rival: vibração. É um Internacional com enorme desejo pela disputa, por ocupar bem os espaços do campo e sair em disparada ao ataque. Nico López e Pottker dão muito velocidade aos lados e o centro do campo é forte: Edenílson e Patrick combatem com a mesma eficiência que atacam. E Rodrigo Dourado é perfeito no início do jogo colorado, com força na marcação.

A opção do Flamengo era sair pelos lados. Inverter a própria lógica. Se com Paquetá, Cuellar e Diego em campo o time trama muitas bolas pelo meio, desta vez optou por acelerar a partida pelas pontas, com Marlos e Everton Ribeiro, tentando pressionar Zeca e, principalmente, Iago. Pará teve boas oportunidades de ir ao fundo. Em uma delas, cruzou bola na medida na segunda trave para Marlos Moreno. O colombiano deixou às claras a sua maior deficiência: a incapacidade de finalizar com perigo. De cabeça, perdeu gol feito. Aos poucos, o Flamengo entrava na partida e mostrava capacidade de rivalizar com o Internacional. Vitinho buscava o trabalho pelo meio, tentando encaixar bolas nas diagonais ou o arremate de fora da área. Mas tinha pouco poder de fogo. Lincoln, imaturo para confronto de tal porte, mostrou ter sido escolha ruim. Diante da ótima defesa colorada, o garoto buscava fugir da área e não prender os dois zagueiros nela, não forçando o time rival a abrir espaços na defesa. Foi presa fácil.

Fla no início: troca de bola, cerco à área rival, mas pouco incisivo

Ainda assim, o Flamengo terminou o primeiro tempo com impressão de que chegaria ao empate. Apenas impressão. Por mais que Piris da Motta e Romulo se alternassem na proteção à defesa e tentassem ajudar o ataque, o jogo era pouco agressivo. De um lado a outro, num pêndulo de posse de bola em frente à área do Internacional. Chances, mesmo, apenas duas. Ambas em cabeçadas de Marlos Moreno defendidas por Marcelo Lomba. O Flamengo, frio, parecia acreditar que o gol sairia naturalmente. Não mostrava vibração. Algo diferente para mudar o placar que dizia que o time estava, uma vez mais, perdendo no Campeonato Brasileiro. Mas o Flamengo atual tem dessas. Irregular. Acende e apaga. Mesmo com desfalques, consegue avançar o time. E esquecer a postura no intervalo.

O retorno do segundo tempo deixou ainda mais enigmático o time do Flamengo. Ora, era ali o Internacional quem parecia precisar do resultado. O time colorado voltou como quem ensinava aos rubro-negros: vibrante, agressivo, buscando morder a saída de bola rival, determinado a ampliar a vantagem e praticamente sacramentar a vitória. Teve duas chances, mais do que em todo o primeiro tempo. Na primeira, Nico López recebeu lançamento de Rodrigo Dourado e tocou por cima de Diego Alves. Na segunda, Zeca cruzou na área e Patrick, livre, bateu em cima do goleiro rubro-negro. A tentativa de Barbieri foi lançar Willian Arão na vaga do amarelado Piris da Motta. Romulo passou a fazer o papel de primeiro volante e subiu de produção: mostrou boa leitura das jogadas, facilidade para sair jogando. Algo bem diferente do que aterrorizava os rubro-negros num passado recente. Marlos foi à direita, Everton Ribeiro por dentro e Vitinho foi mais à esquerda. Arão fez o que sabe. Tocar e correr para buscar a área. O Flamengo tentava, enfim, ser agressivo. Deu momentaneamente certo.

Ao fim, um Inter tentando esfriar a partida e sacramentar a liderança

Justamente em uma enfiada de bola de Everton Ribeiro para Arão, o volante passou por Iago, foi à ponta e cruzou para a entrada da área. Marlos furou, Everton apenas ajeitou para a batida bonita de Vitinho, de chapa, no ângulo esquerdo de Lomba, explodindo no travessão e caindo dentro do gol. 1 a 1. Talvez o Flamengo, muito desfalcado, pudesse brigar com o Internacional em pleno Beira-Rio. Poderia pensar em provocar o rival, retomar a ideia inicial, forçá-lo a tomar a iniciativa. Golpeá-lo com o contra-ataque. Mas não houve nem tempo para um conforto de ideias. Em má fase, o Flamengo é desatento. Léo Duarte, de novo, vacilou. Escanteio de Nico López, voo de Dourado sem interceptação do zagueiro. Uma testada firme na rede de Diego Alves, dois minutos depois. O Flamengo não vibra. 2 a 1.

Ao fim, Fla de novo no campo rival, com Arão como maior arma agressiva

Hellmann buscou esfriar o jogo com a entrada de D´Alessandro na vaga do irritadiço Jonatan Álvez. Por instantes fez o papel de falso atacante. Solto à frente, dava passos atrás quando o time tinha a bola para municiar Nico López e Pottker pelos lados. Barbieri respondeu com Uribe no lugar de Lincoln e Matheus Sávio no de Marlos Moreno. O Flamengo continuou com a bola, trocou passes, de um lado a outro, empurrou o Internacional mais a seu campo. Mas, de novo, foi pouco agressivo. Parecia não se importar com o passar do relógio. Com a urgência de um ponto conquistado em um confronto-chave no Brasileiro. A rigor, apenas uma chance clara: enfiada de Léo Duarte para Willian Arão, que achou Uribe na área. O toque de primeira achou Matheus Sávio cara a cara com Lomba, mas o meia-atacante perdeu chance clara e concluiu em cima do goleiro.

Por opções equivocadas como Matheus Sávio existirá quem questione a qualidade do elenco do Flamengo. Ela existe e para os padrões nacionais há plenas condições de disputar com em boas condições as taças. Mas falta vibração. Ainda que soe repetitivo, o Flamengo pré-Copa tinha Vinicius Junior incendiando o jogo sem deixá-lo cair no banho-maria. A ausência do garoto e tudo que representava, técnica, tática e mentalmente, foi subestimada. O time de Barbieri, então, tornou-se irregular. Teve poucos momentos de vibração: justamente nos dois confrontos com o Grêmio na Copa do Brasil. Difícil dizer se a troca de técnico é necessária. Mas não há dúvidas de que o Flamengo precisa de ajuda. Uma injeção de ânimo para impedir que a equipe volte a ficar faça do tom abaixo da competitividade e vibração necessárias uma melancólica rotina como em 2017. Reinaldo Rueda já apontava a necessidade de guerrear. O problema é antigo. Distante da ponta de tabela, superado por rivais. Parece improvável a reviravolta no Brasileiro deste Flamengo. Um time que não vibra.

FICHA TÉCNICA
INTERNACIONAL 2X1 FLAMENGO

Local: Beira-Rio
Data: 5 de setembro de 2018
Horário: 21h45
Árbitro: Ricardo Marques Ribeiro (MG – Fifa)
Público e renda: Pagantes: 30.389 / 33.633 presentes / R$ 842.060,00
Cartões amarelos: Victor Cuesta, Jonatan Álvez, Iago e Marcelo Lomba (INT) e Piris da Motta (FLA)
Gols: William Pottker (INT), aos cinco minutos e Vitinho (FLA), aos 11 minutos e Rodrigo Dourado (INT), aos 13 minutos do segundo tempo

INTERNACIONAL: Marcelo Lomba; Zeca (Fabiano, 15’/2T), Rodrigo Moledo, Victor Cuesta e Iago; Rodrigo Dourado; Nico López (Leandro Damião, 31’/2T), Edenílson, Patrick e William Pottker; Jonatan Álvez (D’Alessandro, 21’/2T)
Técnico: Odair Hellmann

FLAMENGO: Diego Alves; Pará, Rhodolfo, Léo Duarte e Renê; Piris da Motta (Willian Arão, 9’/2T); Everton Ribeiro, Romulo, Vitinho e Marlos Moreno (Matheus Sávio, 34’/2T); Lincoln (Uribe, 24’/2T)
Técnico: Mauricio Barbieri

Reprodução: Chute Cruzado

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