#Retrospectiva2018: Julio Cesar: o adeus a um ídolo

FOTO: GILVAN DE SOUZA/FLAMENGO

Por: Carla Araújo

“Foi emocionante e teve tudo o que ele merece: Maracanã lotado, camisa do Flamengo e uma grande atuação na partida”. Assim o zagueiro Juan definiu a despedida do amigo e ídolo do Flamengo, Julio Cesar. Após 21 anos no futebol profissional, o goleiro se aposentou. Os últimos jogos no time rubro-negro foram por escolha do atleta. Ele afirmou ter entrado em contato com o Fla, que aceitou dar a oportunidade. Foram três meses no Ninho do Urubu, encerrando sua carreira, que teve um total de 705 partidas oficiais por clubes e 87 pela seleção brasileira.

No dia 21 de abril, o Flamengo enfrentou o América-MG, no Maracanã. A vitória por 2 a 0 foi apenas um detalhe naquela noite. A estrela da partida era Julio Cesar. Cerca de 52 mil pessoas lotaram o estádio para acompanhar a despedida do ídolo, que fez cinco boas defesas nos 90 minutos, fechando com chave de ouro a grande carreira. Ao fim do jogo, deu a volta no gramado, se ajoelhou e reverenciou a torcida. Nas arquibancadas, entoava o já consagrado “Ah, é Julio Cesar”. Muito emocionado, o atleta não segurou as lágrimas. Aliás, algo comum para ele, que se define como o mais chorão do futebol brasileiro.

Agradecer à torcida que esteve presente e veio prestigiar esse momento especial pra mim. Os que não tiveram a oportunidade de me ver jogar na primeira passagem, agora puderam ver o Julio Cesar vestir a camisa do Flamengo, encerrar o ciclo. O mais bacana no futebol é deixar um legado, algo de positivo. Quando eu fechar o livro e olhar toda a história que construí, o que mais quero é deixar algum ensinamento, que a pessoa olhe e imponha no dia a dia algo de importante. Isso não tem preço –, disse o goleiro, em sua última entrevista antes de se aposentar.

Julio Cesar reverencia torcida em seu jogo de despedida dos gramados (Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)

A CARREIRA:

O ano era 1991. Julio Cesar chegou ao Flamengo após fazer um teste, aos 12 anos. Em 1997, foi promovido ao profissional do clube. Na Gávea, caiu nas graças da torcida e era tido como promessa desde o começo da carreira. Na estreia como goleiro profissional, defendeu até um pênalti no Fla-Flu. Jogando pelo Rubro-Negro, conquistou quatro Cariocas, uma Copa dos Campeões Mundiais, uma Copa dos Campeões e uma Copa Mercosul. Foi reserva de Clemer até 2000, quando assumiu a titularidade. Saiu do Fla em 2005, se tornando o terceiro goleiro com mais jogos pelo clube na história.

Julio Cesar em sua primeira passagem pelo Flamengo (Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)

Na Inter de Milão, foi titular em sua primeira temporada defendendo o clube. O auge da carreira foi em 2009-2010, quando conquistou a tríplice coroa, com os títulos: Liga dos Campeões da UEFA, Copa Itália e Serie A. À época, foi eleito o melhor goleiro do futebol europeu. Aos 32 anos, saiu da Internazionale e se transferiu para o Queens Park Rangers. Ficou de 2012 a 2014, sendo anunciado, por empréstimo, pelo Toronto FC. No meio daquele ano, foi contratado pelo Benfica, seu último clube antes do retorno ao Fla. Ficou por lá até novembro de 2017, quando decidiu que iria se aposentar do futebol.

Em 29 de janeiro de 2018, o Flamengo anunciou a contratação de Julio Cesar por três meses (atuou em três partidas). O valor do contrato foi simbólico e o goleiro usou a camisa 12, que estava aposentada até então (como uma forma de homenagem à torcida rubro-negra). Um dia após ser apresentado, fez seu primeiro treino no clube. Uma imagem se espalhou na internet e mostrou a importância de Julio: os goleiros da base do Fla, Hugo Souza, Victor Hugo e Yago Darub, analisavam com atenção (e idolatria) os movimentos do arqueiro. Nem mesmo a chuva que caía foi um problema.

Com sorrisos de idolatria, jovens goleiros admiram o experiente Julio Cesar (Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)

– Estou bastante consciente da minha decisão. Foi uma escolha que fiz três meses atrás. O Flamengo deu oportunidade de extensão (de contrato), mas realmente eu já vim com uma ideia muito fixa. Pra ser bem sincero, a ficha ainda não caiu. Pode ser que, daqui a um ou dois dias, eu olhe pro céu e diga ‘e agora, o que eu vou fazer?’. Sendo flamenguista, tendo feito parte da minha infância, foi especial reencontrar o Flamengo – disse, antes de sua última partida como profissional no futebol.

Julio Cesar é apresentado em sua última passagem pelo Flamengo (Foto: Carla Araújo/Coluna do Flamengo)

A SELEÇÃO BRASILEIRA:

Pela seleção brasileira, foi o quinto goleiro que mais vestiu a “amarelinha”. Em 2002, após grandes atuações, veio a primeira convocação, sendo o reserva de Dida na Copa das Confederações de 2003. Estreou como titular no ano seguinte, na Copa América. Em 2006, foi convocado para ser o terceiro goleiro da Copa do Mundo. Quatro anos depois, foi o titular da Copa de 2010. O Brasil foi eliminado naquela edição pela Holanda (2 a 1), e Julio Cesar reconheceu que cometeu uma falha no primeiro gol do adversário.

O goleiro voltou à lista de convocados em 2013, quando integrou o elenco que enfrentou a Inglaterra em um amistoso. Atuou na Copa das Confederações naquele ano, defendendo um pênalti contra o Uruguai. Sem sofrer gols, Julio Cesar foi campeão da competição, após vitória em cima da Espanha, por 3 a 0. Em 2014, o atleta foi titular em todas as partidas da seleção na Copa do Mundo. Nas oitavas de final, contra o Chile, defendeu dois penais e foi eleito o melhor em campo. No entanto, na semifinal, contra a Alemanha, levou sete gols, no temido 7 a 1. Na disputa pelo terceiro lugar, tomou mais três da Holanda.

Com três participações em Copas do Mundo, Julio é também ídolo com a ‘amarelinha’

Sete clubes, três participações em Copas do Mundo e 33 títulos. Assim foi a carreira de um dos maiores goleiros do Brasil. Ao se aposentar, Julio Cesar teve, ainda, mais uma conquista: um espaço na “calçada da fama” do Maracanã. A matéria começou com aspas do amigo Juan, com quem jogou na primeira passagem pelo Flamengo, na segunda e também na seleção brasileira. Nada mais justo do que terminar o texto também com o zagueiro: “Julio é um ídolo do futebol brasileiro e mundial. Mas, aqui no Flamengo ele nasceu, é o clube que ele ama”, disse, em entrevista, ao fim do jogo de despedida do arqueiro.

Julio deixa marcada sua história na “calçada da fama” do Maraca