Proposta prevê empréstimos com juros abaixo do mercado para quitar dívidas; CBF atua como articuladora, e tema deve avançar só depois das eleições
Clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro negociam com o Governo Federal um socorro para a crise financeira que atravessam. A principal proposta envolve uma linha de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A CBF participa das conversas como articuladora, mas não financiaria o projeto.
O movimento avança em paralelo à Medida Provisória que o Governo Federal prepara para restringir as bets no país. Por isso, os dirigentes usam a possível perda de receita com as casas de apostas como um dos principais argumentos para obter o crédito.
Como funcionaria a linha de crédito do BNDES
Pelo desenho em discussão, os clubes teriam acesso a empréstimos com taxas inferiores às praticadas pelo mercado bancário. Em contrapartida, o dinheiro serviria exclusivamente para o pagamento de dívidas.
A proposta difere dos programas de REFIS (Programa de Recuperação Fiscal) já realizados. Afinal, o novo modelo não ficaria restrito a débitos tributários.
Além disso, as partes discutiram a liberação de recursos para investimentos em infraestrutura. Dessa forma, o projeto também contemplaria clubes com menor endividamento.
Entretanto, ninguém definiu ainda o montante que o BNDES poderia liberar. Os critérios para aprovação do crédito também seguem em aberto.
O Ministério do Esporte e a CBF demonstraram interesse no auxílio. Mesmo assim, a expectativa é de que o tema só evolua depois das eleições. O segundo turno acontece em 25 de outubro, daqui a um mês.
Corinthians e Internacional lideram as conversas
As negociações começaram no mês passado. Corinthians e Internacional, que enfrentam grave crise econômica e estão sob transfer ban da Fifa, capitaneiam o movimento.
Os presidentes Osmar Stabile e Alessandro Barcellos buscaram apoio de Pedro Daniel, atual CEO do Atlético-MG. Até o fim do ano passado, o dirigente ocupava o cargo de diretor executivo da consultoria EY. A empresa produziu um estudo que ajudou a embasar as conversas com o Ministério do Esporte e a CBF.
Os clubes também recorrem ao regulamento de Fair Play Financeiro da CBF, em vigor desde o início deste ano. O argumento é que, desta vez, as equipes atuam sob regras rígidas de governança. Assim, o ambiente teria mais controle e menor risco do que em socorros públicos anteriores.
MP das bets aumenta a pressão sobre o caixa dos clubes
Nas negociações, os dirigentes sustentam que uma eventual proibição das bets agravaria ainda mais a situação econômica das equipes. O setor teme que a medida inviabilize a maior parte das empresas de apostas, hoje entre os principais patrocinadores do futebol. Estima-se que as bets paguem cerca de R$ 1 bilhão por ano para estampar suas marcas nas camisas da Série A.
O cenário ganhou novo capítulo nesta semana. O presidente Lula chegou a cogitar vetar apenas os cassinos on-line. No entanto, ele optou por uma proibição mais ampla após o encontro no Palácio da Alvorada, nesta quarta-feira (23).
A assinatura da MP pode ocorrer ainda nesta semana. O texto oficial, porém, não foi publicado até o momento. A mesma apuração indica que o governo deve propor uma mesa de negociação com representantes dos clubes para reduzir o impacto da medida. Por outro lado, o Planalto descarta devolver parte das outorgas de R$ 30 milhões pagas pelas empresas.
Caso seja assinada, a MP passa a valer imediatamente. Contudo, o texto ainda depende de aprovação do Congresso Nacional para se tornar lei.
O que está em jogo para o Flamengo
O Flamengo aparece entre os mais expostos a uma eventual proibição. O Rubro-Negro mantém com a Betano o maior acordo de patrocínio do futebol brasileiro, com receita fixa de R$ 268 milhões por temporada.
Como o Coluna do Fla mostrou, a Betano sinalizou informalmente o risco de encerrar o patrocínio máster do Flamengo em caso de proibição. Segundo avaliação interna, o fim dos acordos ligados às apostas retiraria até 20% da receita prevista pelo clube.
O Flamengo assinou o manifesto “O fim do futebol brasileiro”, divulgado por clubes e federações na quinta-feira (17). Depois, na terça-feira (22), o clube voltou a se posicionar. Na nova nota, defendeu o combate rigoroso ao jogo ilegal, sem o desmonte do mercado regulado.
Enquanto isso, clubes e federações buscam uma audiência com Lula para apresentar os impactos da medida antes da publicação. Já a discussão sobre o crédito do BNDES deve ganhar ritmo somente depois de encerrado o calendário eleitoral.
