Foto: Reprodução
Campeão carioca pelo Flamengo em 1996, o argentino Alejandro Mancuso aparece no centro de um esquema de venda de licenças falsas de treinador. A revelação é da jornalista Joanna de Assis, do UOL, em reportagem publicada nesta quarta-feira (07). Segundo a apuração, jogadores e ex-jogadores pagaram até R$ 100 mil por certificados atribuídos à ATFA, a associação de técnicos da Argentina.
A lista de citados inclui dois nomes marcantes da história recente do Flamengo: o sérvio Dejan Petkovic e o peruano Paolo Guerrero. Além deles, a reportagem menciona Thiago Silva, Roberto Carlos, Felipe Melo (cria do Fla), Alex de Souza (com passagem rápida pelo Mengão), Luiz Gustavo, Diego Lugano e Paulinho. A ATFA afirma que toda a documentação enviada por Mancuso é falsa. O argentino, por sua vez, nega ter vendido as licenças.
De acordo com a apuração, Mancuso oferecia um pacote com quatro licenças da ATFA. Eram a PRO, de nível internacional, e a A, para o futebol profissional. Completavam o kit as licenças B e C, voltadas às categorias de base. Os documentos chegavam pelo correio em até dez dias.
Aos atletas, o ex-volante se apresentava como “diretor internacional da ATFA“. Além disso, dizia ter ligação com o presidente e com o departamento jurídico da entidade. A primeira denúncia surgiu em maio de 2024, quando um ex-jogador que pediu anonimato recebeu a oferta.
Em um dos áudios obtidos pelo UOL, Mancuso descreve o atalho oferecido aos ex-atletas: “Fechei com o nosso presidente da federação para que todas essas feras que jogaram futebol tenham um jeito para não fazer esse curso online. Pronto e acabou”. Logo depois, ele questiona: “São caras que jogaram bola a vida toda, precisa de três anos de curso online?”
Em outro trecho, segundo a reportagem, o argentino orientava os compradores a sustentar uma versão sobre o histórico escolar. Os registros indicariam três anos de curso online, entre 2021 e 2023.
A formação regular da ATFA, porém, segue outro caminho. O processo é progressivo, da licença C até a PRO, e inclui cursos, avaliações e atividades práticas. Cada curso dura de seis a 13 meses, e a trilha completa pode levar cerca de três anos. A entidade não oferece nenhuma opção de certificação imediata.
Ídolo da torcida rubro-negra, Petkovic confirmou ter negociado a licença argentina com Mancuso, segundo a reportagem. O sérvio afirmou que não completou a parte presencial do processo. Ele contou ainda que a polícia argentina chegou a investigar o documento. Paolo Guerrero, ex-centroavante do Flamengo, também figura entre os jogadores citados pela apuração.
Felipe Melo, que tem passagem pelo Flamengo, admitiu a negociação e explicou como percebeu o problema. Segundo o UOL, a licença dele acabou suspensa porque as aulas presenciais nunca aconteceram. Depois disso, o caso também entrou na investigação da polícia argentina em 2025.
— Eu imaginei que as licenças poderiam ser falsas quando eu comecei a cobrar pela aula presencial e o Mancuso nunca marcava. Pensei: “Isso aqui tá errado”. A primeira coisa que eu faço é tirar das minhas redes sociais, porque eu estava exibindo que eu era um associado da ATFA, né? E aí peço o meu dinheiro de volta. Diferente de muitos, eu consegui essa façanha aí — disse Felipe Melo à reportagem.
Thiago Silva, zagueiro do Fluminense, afirmou por meio da assessoria que pagou por cursos que não aconteceram como prometido. Segundo ele, os certificados chegaram no fim de 2023, mas ele nunca os utilizou. Roberto Carlos, por sua vez, recebeu licenças e uma carteirinha pelo correio. A assessoria do pentacampeão diz que ele não usou os papéis porque não completou o curso.
Alex de Souza comprou a licença argentina depois de concluir os cursos da CBF Academy. O ex-meia garante que nunca usou o documento. Além disso, no certificado dele, a modalidade aparecia como “futsal“, e não “fútbol“. Já Diego Lugano, hoje dirigente do São Paulo, confirmou ter adquirido as licenças em um “curso rápido“, sem cumprir a etapa presencial.
Paulinho e Luiz Gustavo seguiram uma linha parecida. Ambos disseram acreditar que a ATFA apenas reconheceria a carreira de atletas de alto nível. Em geral, os jogadores ouvidos sustentam que não sabiam da ilegalidade e que não usaram os certificados.
Em nota, a ATFA afirmou que Mancuso não integra a diretoria, não ocupa cargo de autoridade e não tem vínculo contratual com a entidade. A associação também diz que ele nunca teve autorização para representá-la.
A entidade lembrou ainda que a Justiça Federal argentina investigou o assunto em 2025. Na ocasião, a polícia fez busca e apreensão na sede da ATFA, mas não encontrou documentos que comprovassem emissões irregulares. Em seguida, o Ministério Público pediu o arquivamento. Em dezembro de 2025, o juízo responsável encerrou o processo por inexistência de crime.
No Brasil, os certificados tampouco passaram pela validação da CBF. Os jogadores não cumpriram o Anexo 9, procedimento da Conmebol que autoriza um atleta a fazer curso de treinador em federação estrangeira. Além disso, a Conmebol informou que não aceita as cópias autenticadas presentes nos documentos.
Mancuso, por outro lado, nega ter vendido licenças ou recebido dinheiro dos jogadores. Ao UOL, disse que nunca fez parte da ATFA e que atua apenas como comentarista de rádio. Segundo ele, os brasileiros o procuravam por causa da fama no país, e ele somente repassava o contato da federação.
Alejandro Mancuso tem 58 anos e construiu a carreira como volante de marcação forte. Na Argentina, defendeu Vélez Sarsfield (ARG) e Boca Juniors (ARG). Pela seleção, conquistou a Copa América de 1993.
No futebol brasileiro, jogou pelo Palmeiras em 1995 e chegou ao Flamengo no ano seguinte. Pelo clube carioca, atuou até 1997 e levantou o Campeonato Carioca de 1996. O estilo duro, aliás, fez dele um dos jogadores apontados como mais violentos do país naquele período.
Depois de pendurar as chuteiras, Mancuso manteve a relação de amizade com Diego Maradona. Assim, integrou a comissão técnica do craque na seleção argentina durante a Copa do Mundo de 2010.
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