O Flamengo x Portuguesa da Quaresma não corria o menor risco de se tornar um jogo memorável. Aliás, da mesma moléstia padecerão igualmente os demais 3675 jogos do Carioqueta 2016, a irrefreável irrelevância que contamina o Carioca não poupa nenhum dos seus participantes. O torcedor rubro-negro, acostumado às altitudes do topo da cadeia alimentar do futebol, é antes de tudo um forte e em nome de um pacto inegociável (Onde estiver, estarei.) tapa o nariz e encara as refeições sem sal e sem tempero com a resignação esperançosa de uma rainha de bateria que enfrenta rodízios de alface num spa com o único objetivo de ficar gostosa no Carnaval.
O Carnaval do torcedor do Flamengo é o Brasileiro, é para ele que nos preparamos, é nele que queremos ver o Flamengo evoluindo, harmonizando e batucando. Mas já que fomos constrangidos à disputar o Carioqueta com o melhor do nosso elenco acabemos logo com a palhaçada e ganhemos logo mais um caneco. Afinal, do seu próprio destino nem o Flamengo é capaz de escapar. Lamartine Babo, apesar de americano, quando escreveu aquela parte do Vencer, vencer, vencer! sabia perfeitamente o que estava dizendo.
Foi nesse espírito que o Flamengo entrou em campo pra enfrentar a simpática Portuguesa da Ilha. Que fez o possível pra dificultar o nosso trabalho, ficando fechadinha durante os primeiros 30 minutos e aguentando direitinho a pressão que o Flamengo botou pra cima deles. Até que o excelentíssimo senhor juiz arrumou um pênalti altamente discutível a nosso favor. Nada de extraordinário, o Carioqueta é o paraíso do pênalti maroto e isso pode acontecer nas melhores famílias, até pra quem não é a Vasca.
Às vezes, muito raramente, alguém rouba pro Flamengo. Felizmente, o Flamengo, que teve boa criação, devolve tudo. E Sheik não fugiu à nossa etiqueta, com a bola na marca fatídica, Emerson (née Márcio) mandou a bicuda e zuniu o balão lá em Barra Mansa. E foi melhor assim. Porque a pressão rubro-negra não arrefeceu e continuamos a martelar a tuga até que Guerrero mandasse a bola pro fundo do barbante. Logo depois o cada vez melhor William Arão executou com perfeição marcial um round head kick e marcou 2 x 0 no placar. O jogo acabou.
O segundo tempo foi protocolar e depois que o goleiro deles foi expulso virou Festa do Caqui. Sheik se redimiu, Arão fez outro e até o bravo Rodinei tirou sua casquinha dando números definitivos à goleada. Foi boa a estreia de Mancuello, Cirino continua em busca do seu verdadeiro eu e a defesa, ainda que seja questionável o desafio de enfrentar Fernando Fernandes, Rafael Paty e Elivelton, mostrou segurança. É indiscutível que a presença de Juan no elenco nos trouxe benefícios que vão muito além dos seus 36 anos de experiência.
5 x 0 é muito bom, seja qual foi o adversário, mas ao fim da peleja era impossível não relativizar tudo. O Carioqueta é um dos campeonatos mais bizarros do mundo e a cena em que meio time da Portuguesa protestou veementemente da não marcação de uma penalidade clara em favor do Flamengo é uma de suas melhores traduções. Enquanto for disputado nesses moldes, ao gosto do Senhor das Mariolas, o burlesco Campeonato Carioca para o Flamengo será sempre um dilema sem solução. Se perde ou empata algum jogo o nosso time é uma merda. E se ganha não vale nada porque os outros times são uma merda. O Brasileiro tem que começar o quanto antes, sabemos que o Carioqueta tem o dom de iludir.
Mengão Sempre
Arthur Muhlenberg
Fonte: República Paz & Amor
