Não houve desânimo de fim de Carnaval. A torcida do Flamengo compareceu em bom núm… Bem… Se for comparar com os números habituais de renda e público do Carioqueta, podemos ufanar e dizer que uma verdadeira multidão esteve presente, posto que só o Flamengo mesmo liberta o Ferjão do milagre numérico de um scout financeiro negativo em um evento desportivo. Qualquer dia desses vão informar em tom fúnebre e sepultar o treco de vez: “o jogo entre Laxivarense e Pirambola deu um prejuízo de menos cinco mil reais, com um público de menos 366 pagantes”.
O meu povo mais próximo “ixcrusive” encheu-me de orgulho ímpar. Entre um bloco e outro, durante todo o Carnaval, presenciava pelo Whatsapp um engalfinhar e um quebra pau cibernético extremamente empolgantes na disputa por um lugar nos veículos que conduziram a trupe até a Cidade do Aço. Ganhei a minha vaga de forma indelicada, ao fazer uma covarde imposição que misturava minha idade avançada e minha careca, como prova de que eu era quase prioridade na nau dos desesperados.
A movimentação do lado de fora do estádio causou surpresa. Filas, confusão, ingressos disputados como se fossem água no deserto. Quem não soubesse do que se tratava, certamente jamais desconfiaria ser uma mera terceira rodada do Ferjão Safra 2016. Sei lá se foi a estreia do Mancu ou a simples saudade. Fazia um certo tempo que o Raulino de Oliveira não tinha a honra de receber o Mais Querido.
Já com a bola rolando, uma gargalhada brotou da multidão. Um ruído estranho. Igual série de comédia antiga, daquelas que avisam de forma bem didática a hora de rir. O motivo? Mais um pênalti lá pros lados de São Januário. Daí teve um penal a nosso favor. Que foi, foi. Mas como foi um lance meio esquisito, para evitar qualquer sombra de disse-me-disse, o Sheik dispensou a vantagem, enfiou a botina “dicunforça” na pelota e jogou a criança e as desconfianças infundadas dos antis arderem bem no fundo de um dos fornos da siderúrgica local.
Jogo bom o do Nosso Flamengo nesta quarta. Não que o Carioca seja uma medida lá muito confiável nem pra cima e nem pra baixo. Tropeçar ou massacrar os nanicos regionais não diz muito… Mas uma coisa é significativa: Quem aqui nas mesas desse Boteco de quinta categoria, que tem a sorte de ter esse endereço chique, pode discordar? Esse é o joguinho típico em que o Flamengo marca um, no máximo dois gols, e depois entra em um estado de ânimo mais apagado que carro alegórico do Salgueiro. Só o fato de ver um Flamengo mordendo do início ao fim, em um jogo decidido cedo, em uma terceira rodada de Carioqueta, já é fator importante na hora de analisar o atual momento.
Todo mundo bem, ainda que eu continue achando o Jorge meio sonolento. Ontem até cheguei a pensar que fosse ordem do Muricy, já que o resto do povo estava em noite de empolgação maior que bloco na manhã do sábado de Carnaval. O ânimo foi tanto que a goleada só não foi maior porque muitos dos nossos atletas, ainda envolvidos pelo clima momesco, por brincadeira acabaram calçando dois pés esquerdos da chuteira. Todo mundo perdoado. Se pra fazer cinco for necessário isolar outras vinte na arquibancada, sou o primeiro voluntário a ficar lá catando as bolas vadias e devolvendo pro campo.
Gol do Guerrero, correria do Sheik e do Rodinei, disposição e classe do Mancu, dedicação do Saraujo e do Cirino, bicicleta do Juan, truques e malabarismos do Arão, uma festa.
Ainda assim…
Preocupação. Preocupação. Preocupação.
Estou fechado e concordo em gênero, número e grau com o Muricy. Mas se estou na coletiva eu ia pagar o maior mico. Sabe filme de guerra, quando um soldado-herói pula por sobre uma granada pra evitar a morte de outras pessoas? Pois é… Eu ia voar pela sala, empurrar o Muricy, e evitar sua sábia ousadia (me encheu de profunda admiração). Contrariando o trecho da Bíblia Azul, constante no Livro Dinheiros 6, Versículo 6, Muriçoca defendeu usar o estádio mais vezes, disse que vai conversar com a diretoria e… E… E… Blasfemou: “Vamos pensar no econômico ou queremos ganhar?”. Medo da resposta dos Smurfs.
Após mais de quatro décadas de arquibancada, a voz do povo ainda pode me brindar com momentos de cânticos mágicos e inéditos. Após as expulsões de dois dos nossos adversários, incluindo o goleiro, que se mandou após cogitar a possibilidade de levar gol até em chute do Gabriel, a massa enlouquecida assim cantava-comemorava-alertava: “Aaahhh… Tá sem goleiro… Aaahhh… Tá sem goleiro…”. Genial e infantil ao mesmo tempo. Momento mágico e em pleno Carioqueta. Mais mágico ainda.
Fonte: Torcedor do Flamengo
