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Mansur: ‘O projeto é a falta de projeto’

Redação
Redação
Publicação: 27/02/2016
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Atualização: 27/02/2016
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Em sua sala no superequipado CT de Xerém, Marcelo Teixeira, gerente da base do Fluminense, exibe trechos de um documento de 60 páginas. O manual esmiúça métodos de trabalho e modelo de jogo para a formação. Há ideias claras. Material farto para criar uma identidade de futebol para todo o clube. Fazê-la chegar ao profissional é um desafio. No topo da pirâmide, reina a instabilidade.

Há um projeto de clube nas Laranjeiras,que tem a formação como pilar. Falta um projeto estável de futebol profissional no fim da cadeia. Indagado pela coluna sobre a dificuldade de fazer o modelo de jogo em que são formados os jovens se refletir no time principal, Teixeira mede palavras, embora concorde que, em geral, clubes brasileiros vivem em permanente mudança. Trocam de treinador ao sabor da política interna e da pressão externa; escolhem substitutos ao sabor da disponibilidade no mercado. Não há filosofia que sobreviva. A cada novo nome, um recomeço do zero.

Em 2015, o Fluminense passou por Cristóvão Borges, Ricardo Drubscky, Enderson Moreira e Eduardo Baptista. Quatro nomes, quatro modelos de jogo e de treino. Baptista não viveu só de acertos, é óbvio. Mas trabalhou só dois meses e meio em 2015, tentou conhecer um elenco e um clube em turbulência política e técnica: com Ronaldinho Gaúcho, conviveu por dez dias. Caiu após 50 dias de trabalho neste ano. Entre opções e mudanças de elenco, teve que enfrentar o Botafogo com quase meio time titular diferente do ano passado. Estamos em fevereiro, e 2016 já devorou três técnicos da Série A em Fluminense, Figueirense e Ponte.

Não é exclusividade tricolor. É traço nacional. O São Paulo que teve Juan Carlos Osorio, adepto do jogo posicional e das ideias ousadas, hoje trabalha com Edgardo Bauza, que prioriza ordenar o time a partir da segurança defensiva. O Flamengo iniciou a última temporada com um Vanderlei Luxemburgo e a aposta num jogo de velocidade, passou por Cristóvão, que tentou priorizar a pausa e a posse de bola, até quase terminar o ano com Oswaldo de Oliveira, que tentou mesclar estilos. Nossos clubes não criam um rosto, uma escola que os caracterize.

Quem demite e contrata ao sabor do mercado, das pressões e da ansiedade vira passageiro das viagens táticas de cada técnico. O clube não pilota, é pilotado. Quem contrata sem saber exatamente por que está contratando, demite por estatística.
É uma espécie de teste de convicção em que, quase sempre, os clubes brasileiros são reprovados. Demite-se antes de haver trabalho para avaliar. Se houvesse por trás de cada escolha um projeto de construção de um estilo de jogo em que o clube escolheu acreditar, valeria a pena manter. Mas, em geral, o projeto é a falta de projeto. O projeto é o próximo jogo.

Na última semana, em entrevista ao jornal espanhol “As”, o holandês Ronald Koeman destacou que, genialidade dos jogadores à parte, o grande patrimônio do Barcelona é a preservação de um DNA, uma identidade de jogo a nortear o trabalho. Por mais diferenças que haja entre os times de Guardiola e de Luis Enrique, há uma essência respeitada. Nenhum treinador parte do zero. Há uma filosofia, uma ideia central inegociável. E nem é preciso se prender à elite da Europa. Os clubes holandeses têm identidades nitidamente respeitadas. São, acima de tudo, escolas.

O clube dita as diretrizes, escolhe profissionais que a elas se adaptem e se comprometam a preservar valores essenciais de cada instituição. Muricy Ramalho defende a unificação de um modelo no Flamengo. Fala em, no futuro, tornar-se um diretor esportivo, algo que Paulo Autuori também cogita. Se o farão bem ou mal, é uma discussão para o futuro. Fiquemos com o conceito. Que nossos clubes tenham uma solução de continuidade diante da esquizofrenia com que tratam o cargo de treinador. Seriam como guardiões do estilo. E cada trabalho não pareceria sempre um eterno recomeço.

O debate abandonado

Nós, brasileiros, sabemos como poucos o mal que a corrupção faz à sociedade. O futebol não seria diferente. E sofreu um efeito tão maligno quanto a apropriação de dinheiro por parte de uma elite de dirigentes que fez do jogo um negócio particular: empobreceu o debate.

Natural que a discussão sobre transparência fosse tema relevante na eleição da Fifa. Mas o debate sobre o futuro do jogo foi abandonado. E era tema urgente. A mesma globalização que gera encantamento pelos superclubes da Europa, também revela uma doença. A concentração de riqueza restringe o direito de sonhar. As grandes conquistas são acessíveis a uma pequena elite num futebol que tem centro e periferia cada vez mais distantes. O peso de camisas tradicionais da América do Sul está cada vez mais restrito aos limites geográficos do continente. Resta saber se a vitória de Gianni Infantino vai reforçar o eurocentrismo.

Fonte: Carlos Eduardo Mansur

Assuntos:brasilCarlos Eduardo Mansurclubesmetodologia
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