“E diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma Bastilha inexpugnável.”
As decisões tem o poder de igualar, até onde é possível, todos os torcedores de todos os times. Diante de uma final de campeonato a ansiedade, o nervosismo, o frio na barriga e até mesmo o inominável e jamais confessado medo de perder, irmana os torcedores do descomunal Flamengo Alegria do Povo nas Quartas-Feiras do Mundo aos de qualquer outro timinho. Humanos, quase todos, sofremos por antecipação. Nosso inimigo comum é o relógio, que marca vagarosamente os séculos que ainda faltam pro jogo começar.
Por mais confiante que seja um mulambo nos poderes infinitos do Flamengo é absolutamente impossível para nós relaxar antes de uma decisão. Nas intermináveis horas que se arrastam antes da bola rolar valendo taça de nada vale nossa vasta experiência em doutrinar os que se colocam em nosso caminho, impor nossa superioridade em qualquer jurisdição, não apenas dentro das quatro linhas mas também, e principalmente, no campo das ideias, e levantar canecos com uma graça toda própria. A tensão rubro-negra é absurda, se pode medi-la em gigapascals, comparável apenas à nossa explosão de alegria pela conquista.
Entretanto, ouso a dizer a vocês, fiéis leitores do humilde bloguinho, que encontrei a serenidade e a paz de espírito lendo furiosamente todo o noticiário relativo ao grande jogo. A leitura, além de diminuir a minha própria tensão, aumentou a confiança e ainda encheu o peito de orgulho pelo que o Flamengo vem protagonizando a presente edição da Copa do Brasil de forma heroica e apaixonada.
Antes que nos metamos a fundo nesse assunto é preciso que se deixe para trás qualquer prurido que se tenha contra a sinceridade esportiva. Entre os muitos cânones da etiqueta boleira há um mandamento que pontifica severamente que não devemos jamais subestimar o adversário.
Então pior pro cânone, porque se tinha uma coisa que estava aumentando sensivelmente aqueles níveis de tensão era a ligeira pequenez do nosso genérico paranaense. Evidente que classificar nosso adversário de hoje à noite como time pequeno é uma insensatez. Da mesma forma que chama-lo de time grande é uma fanfarronada.
Mas é inegável que a pequena proeminência do Atlético no cenário nacional resulta em um considerável aumento de peso sobre as costas do Flamengo, a eterna viga mestra do futebol brasileiro. A vergonhosa pressão exercida pelo adversário sobre a arbitragem através da imprensa das províncias é outra prova inconteste da pequenez acima mencionada. É justo que nos preocupemos, porque todo mundo já sabe como se comporta o piedoso Flamengo diante dos pequenos ou quase pequenos.
Ao considerarmos o impiedoso, contínuo e injustificável ataque que o Flamengo vem sofrendo na imprensa só podemos levantar as mãos pro céu e agradecer de coração. A tentativa desesperada das forças arcoíristas reunidas em fabricar crises, criar impasses e criticar o Flamengo, não apenas em termos esportivos, mas também econômicos, sociais e antropológicos, são a prova do temor que provocamos. São o recibo máximo que poderíamos esperar de nossa imensa clientela. Ataca-se o Flamengo porque os manés ainda pensam que o Flamengo sai dessas batalhas extenuado, entregue e exangue. Quando a história mostra que é exatamente o contrário que realmente acontece.
O ataque da crítica pelancuda ao Flamengo na questão dos preços ingressos, iniciado há 10 dias e ainda em curso, é despropositado, sem base e covarde. Contra o Flamengo, o jornalismo que gosta de se identificar como independente atira pedras. Contra o governo, que concedeu a um consórcio privado a gestão de um bem público e estabeleceu autocraticamente novos padrões para a experiência de torcer em um estádio de futebol nada falam. É evidente que as críticas que se fazem ao Flamengo e não se fizeram ao Atlético Mineiro, ao Cruzeiro ou ao Rock‘n Rio em situações análogas são apenas reles antiflamenguismos mal disfarçados.
Depois que essa lamentável caôzada bateu na trave, porque todas as chicanas tentadas pelos antis nas barras dos tribunais foram cassadas e se venderam todos os ingressos para a grande final, fazendo uma grande receita para o clube, inventaram outras problemáticas para provar pro A + B que o Flamengo não tinha mais chance de se dar bem.
Primeiro foi a constatação de que o Flamengo será rebaixado no Brasileiro, apesar dos oito times abaixo de nós na tabela. Depois disseram que o Paulinho estava sendo procurado por um pistoleiro da FIFA por causa de malfeitos na Bulgária. Depois que o time se amotinou por causa da premiação. Tá puxado!
Na hora em que o nível de apelação alcança este ponto muita gente fica com raiva, indignado. Fala em cancelar assinaturas e perde um tempo enorme ouvindo musiquinhas cretinas ao telefone só pra poder reclamar no SAC da operadora de TV a cabo. Eu fico com raiva também. Quer dizer, eu fiquei com raiva, mas já passou. Porque percebi que esses furdunços criados artificialmente em redações, essa crise de pé-quebrado que não teve força para sequer atravessar os muros da Gávea, são na verdade bons augúrios.
Essa agenda negativa que nos foi imposta provocou exatamente aquele mal estar que sempre é muito bem vindo nos períodos pré-titulo do Mengão. É o tô de mal do Pet com Edílson antes do Tetra Tri de 2001, é a demissão tipo punhalada nas costas de Waldemar de Oliveira (famoso Waldemar é o caralho) antes do Bi da Copa do Brasil com Ney Franco em 2006. Lembram? A maldita lâmpada em que o Imperador pisou e queimou o pé nas vésperas do Hexa de 2009. Enfim, são os nossos barracos, a dose de confusão que não pode faltar na receita dos nossos triunfos.
Depois que esses fatos ficaram evidentes fiquei muito mais tranquilo. Mas não muito. Como sabemos, se tá muito tranquilo não é o Flamengo. Mesmo porque é impossível ser campeão relaxadão, na pura positividade rasta. Campeão tem que ter ambição, cobiça e um pouco de maldade. Ainda mais na Vila Capanema, pardieiro dos mais sinistros, onde os locais apavoram e a torcida visitante se espreme num cantinho e mal vê o campo.
Pouco interessa aquela conversa chata de que o time dos caras é melhor que o Flamengo. O que interessa não é saber quem é o melhor e sim quem será o melhor em 180 minutos. Porque o que mais ouvimos são os grandes luminares do pensamento esportivo nacional proferirem do alto de suas bancadas que o Flamengo dessa fase não passará. E mesmo que desde as oitavas tenha acontecido invariavelmente o contrário eles não trocam o disco.
Mas chega de papo, decisão é decisão. Vai ser uma guerra, porque é o jogo da vida dos caras. Mas aí empatou, porque também é o jogo das nossas vidas. Quero muito ver o Flamengo com a rédeas soltas, sem economizar nada, jogando hoje como se não houvesse um jogo de volta. Pra fazer o resultado lá na casa dos alemão, recompensar a mulambada pela imensa paciência e calar definitivamente a boca de quem escolheu o time errado pra torcer contra.
O Flamengo vibra, sua, se entrega, troveja, transborda e ativa os poderes do Manto Sagrado movido pela confiança. A minha, a sua, a nossa confiança. Somos nós que empurramos o time, sempre pra frente, sempre pro alto. Na arquiba ou na TV, somos nós que abastecemos esse time. Pode confiar. Pode confiar porque o nosso Flamengo, aquele Flamengo, está de volta.
Fonte: Urublog
