A direção do Flamengo aumentou o valor dos ingressos para a final da Copa do Brasil. A rigor, nada de novo na medida, praticada hoje por todos os clubes brasileiros que chegam às finais de alguma competição ou mesmo nas fases eliminatórias.
Diretoria do Flamengo está dando exemplo de transparência.
A direção do São Paulo reduziu os preços de todos os ingressos para os jogos do time no Campeonato Brasileiro. Em alguns casos, sócio-torcedor pagou somente dois reais – R$ 2,00 – por um ingresso da antiga arquibancada não central. Choveram elogios para essa medida, que está longe de ser inédita e foi adotada até por alguns de seus críticos. E também choveram algumas críticas, minhas inclusive, motivadas pelo fato dessa redução ter sido uma medida tomada em desespero de causa e não como fruto de uma estratégia para aumentar a presença do público.
No sentido oposto, o Corinthians aumentou tremendamente os preços dos ingressos para seus jogos durante toda a temporada 2013. Apesar disso, o Pacaembu presenciou grandes ocupações durante a maior parte do ano, mesmo quando o time já estava com o futebol em baixa. O planejamento feito pelo clube, apoiado em pesquisa, funcionou. Resta ver, agora, o grau de flexibilidade da direção e seu planejamento, para adequar os preços à realidade de uma campanha ruim.
Três medidas iguais no conceito – alterar preços de ingressos – e diferentes nos mecanismos, modos e finalidades. E as três foram corretas e funcionaram.
Num mundo ideal os preços já seriam conhecidos desde o início de uma competição e não teriam alterações, partindo do princípio de que até em mata-mata o primeiro jogo é tão importante quanto o último. Mas aqui no Brasil do futebol, a distância entre a vida real e a teoria é muito grande, o que me leva a pensar, repensar e aceitar, até mesmo recomendar, essas alterações de preços.
Em recente levantamento da Pluri Consultoria sobre os preços dos ingressos no Brasil (Série A), a empresa chegou a um preço médio de R$ 47,62 para o ingresso “inteiro” em venda mais barato. Entre os fatores que contribuíram para a queda de outubro estão as promoções feitas por alguns clubes, como São Paulo e Ponte Preta, e a inexistência de jogos com características de eventos, que costumam atrair grandes públicos. Esse valor representou uma queda de 6,6% em relação ao preço médio de setembro. Entretanto, considerando o ano de 2013 ele aumentou 39,1%. Aumento que passa para 42,1% se considerarmos o período dos últimos doze meses. Tomando por base o período de dez anos, esse ingresso “inteiro” médio está 370,1% mais elevado.
Cabe aqui uma comparação, antes de falar um pouco sobre o tal do ingresso “inteiro”: esse valor de R$ 47,62 que a Pluri encontrou para o ingresso médio no Brasil, em outubro, para os jogos da Série A, a nossa Liga de primeira divisão, equivale hoje a € 15,27. Vai ser difícil encontrar um jogo de primeira divisão na Europa por esse valor para o ingresso avulso.
E os jovens estudantes? O Arsenal, segundo a BBC em matéria do site da ESPN, reserva 1.000 dos 60.000 lugares do Emirates Stadium, para jovens entre 12 e 16 anos, ao módico valor de 10 libras cada ingresso. Quanto dá isso em reais? Não muito, apenas R$ 36,99 – opa, mais barato que o nosso ingresso médio inteiro e 55% maior que a metade desse ingresso – R$ 23,81. Mais um ponto a considerar: os 1.000 lugares com esse preço equivalem a 1,7% da capacidade do estádio, o que significa que seu impacto sobre o ticket médio é baixíssimo, mais próximo do zero que de um ponto percentual.
É preciso acrescentar o “inteiro” para diferenciar do meio ingresso, ou melhor, da “meia-entrada”, aquele ingresso pelo qual um estudante, suposto ou verdadeiro, paga metade do preço, mas tem acesso à íntegra do espetáculo. Lembrando que a meia-entrada foi criada, ainda na década de 50, para permitir o acesso de estudantes a produções culturais, que serviriam como complemento ou aprimoramento do que aprendiam nas escolas. Deu no que deu.
Segundo o vice-presidente de marketing do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, na semifinal da Copa do Brasil, no jogo contra o Goiás, 74% dos ingressos vendidos foram “meia-entrada”.
É bom repetir: 74% dos ingressos vendidos foram “meia-entrada”. Trocando em miúdos, de cada quatro ingressos, três foram metades e lá se foi a receita que ajudaria o clube a pagar alguma dívida ou alguns salários.
Bem ou mal, entretanto, a meia-entrada significa “meio dinheiro” e meio é sempre mais que nada, não é mesmo? Falemos, então, do nada, do zero.
O presidente do Flamengo, em entrevista para explicar o que a rigor não precisaria ser explicado, acrescentou mais um dado a essa situação: um Maracanã lotado tem 15.000 gratuidades.
Quinze mil pessoas, a maioria das quais não precisa de nada grátis, entram sem pagar. O que significa que 22 jogadores e 7 árbitros, que trabalham no gramado, e mais centenas de pessoas no entorno do campo de jogo e dentro do estádio, têm que trabalhar para 15.000 privilegiados se deleitarem a troco de nada. Como não existe almoço grátis, alguém está pagando por esses 15.000 e entre os pagantes compulsórios está o clube mandante da partida.
O preço dos ingressos brasileiros parece caro e às vezes até é caro, mesmo, mas um olhar mais atento aos borderôs vai revelar uma realidade diferente daquela que é vista nos sites e painéis de bilheterias. A meia-entrada e as benemerências derrubam os preços reais, efetivos, e a receita dos clubes.
A presença cada vez maior dos sócios-torcedores também tem um efeito redutor sobre o valor do ingresso médio, mas nesse caso de forma benéfica, pois esse torcedor colabora com o clube mensalmente, dando-lhe até condições (futuras, pois o presente de todos é complicado) de alcançar mais rapidamente uma boa condição de sustentabilidade. O que o clube deixa de arrecadar no guichê, é arrecadado com sobras no carnê mensal. O sucesso da elevada média de público do Corinthians está ligado a uma inteligente concepção do seu programa de sócio-torcedor, onde a assiduidade no estádio e recompensada com… mais assiduidade ao estádio.
Não posso terminar esse tópico sem dizer que o sócio-torcedor não pode ser somente um gerador de caixa. Precisa ser, também, um participante real na vida do clube, o que só acontece onde ele vota e pode ser votado.
Cambista é um bom indicador de mercado. A presença desse pessoal e os valores que conseguem pelos ingressos, mostram que os preços podem, sim, ter um patamar diferente. No ingresso que o cambista vende o clube não perde, mas deixa de ganhar. Mas há os casos em que os cambistas devolvem o que não conseguiram vender e o clube aceita… E fica no prejuízo. Sim, isso acontece, mas aí já é caso de polícia.
Cada jogo, cada espetáculo, tem um preço que as pessoas interessadas podem ou não pagar. Foi o que disse Andrés Sanches, ex-presidente do Corinthians, na semana passada, no II Fórum do Futebol Brasileiro. Se o preço for considerado caro, vai sobrar muito lugar. A resposta a isso será uma redução até que o nível que o mercado está disposto a pagar seja alcançado.
Assim funciona o sistema capitalista, tão malvado para muitos e absolutamente desconhecido para grande parte de nossa população e a quase totalidade de nossos dirigentes e parlamentares.
Uma coisa fundamental no capitalismo é a responsabilidade e a cobrança inerente a ela. Os dirigentes do Flamengo têm vindo a público para justificar o aumento dos preços para o jogo final da Copa do Brasil. É bom que tenham feito isso, não para se desculparem por algo que não precisa ser desculpado, pois essa medida era mesmo necessária, mas como mostra de respeito ao torcedor rubro-negro. É parte do que pressupõe o capitalismo e a democracia: prestar contas ao cidadão, que nesse caso é, também, torcedor e consumidor.
Outros clubes têm feito o mesmo e continuarão fazendo, assim como o Flamengo. Cabe ao torcedor, dentro de suas possibilidades, seguir colaborando e, o mais importante, cobrar. Não por resultados, como acontece costumeiramente, mas pela boa aplicação de seu dinheiro transformado em ingresso, royalties, PPV ou simplesmente ponto de audiência da transmissão.
Indo além da gritaria, principalmente nas redes sociais, alguns torcedores deram um passo além e foram ao PROCON, querendo derrubar esse aumento, mas, sinceramente…
Passo.
Fonte: Olhar Crônico Esportivo
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