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Joel Santana lamenta momento dos Clubes do eixo Rio-São Paulo.

Simon Lédo
Simon Lédo
Publicação: 27/10/2013
Nenhum comentário
Atualização: 23/01/2015
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Desempregado do futebol desde maio passado, quando foi demitido do Bahia após o vexame na decisão do Campeonato Baiano, Joel Santana, ainda assim, está em alta. Mas em outra função. Aos 64 anos, o carioca fanfarrão vem brilhando como garoto-propaganda.

Além de estrelar um comercial de produtos de higiene e limpeza, “Papai Joel” fez no dia 28 de setembro uma participação especial no programa humorístico Zorra Total, da TV Globo.
Em entrevista exclusiva ao A TARDE, o técnico, porém, faz questão de dizer que os seus dias no futebol “não estão acabados”, e que “só está dando um tempo para cuidar da imagem”. O treinador também falou sobre a última passagem fatídica pelo Bahia e revelou a tristeza pelo fracasso à frente do tricolor.
Como surgiu o convite para o papel em Zorra Total?
O convite veio de forma natural. Assim como já me chamaram em vários outros programas. Na última segunda-feira mesmo, estava na TV Gazeta. Muitos programas querem o Joel em função do sucesso.  Teve um comercial que fiz (da Pepsi, em 2012 ) que foi eleito o melhor do ano. Dá para acreditar? (risos)
Tanto esse convite quanto as propagandas que fez anteriormente foram consequência do seu inglês ‘macarrônico’. Imaginava que isso poderia lhe render frutos?
Não sei nem como explicar. Cara… (pausa). Vou te contar uma passagem: dia desses, estava almoçando. De repente, vieram uns quatro garotinhos querendo tirar fotos e falaram, “poxa, tio, tu tá legal naquela propaganda”. Quer reconhecimento melhor que este, hein? Diz aí! Quando eu saio na rua é um sucesso geral com todo mundo que gostou. Homens, mulheres, idosos, crianças… E outra, o primeiro comercial (da Pepsi) teve 31 milhões de acessos. Você sabe o que são 31 milhões de acessos? Superou comerciais que tinham Messi, o que dizem que é bonitinho lá, Cristiano Ronaldo; o Federer… As pessoas gostam de me ver. Por sinal, vou revelar uma coisa: quando estava no Bahia, ia fazer uma propaganda para uma grande empresa daí, mas não deu tempo.
Quando você apareceu falando inglês como técnico da África do Sul, em 2010, foi ridicularizado por muitos. O que diria a essas pessoas agora?
Eu não digo nada. Não tenho o que dizer. Todo mundo daqui (do Brasil) fala muito bem inglês, não é? Nas viagens para o exterior, falam fluentemente, não é? Ninguém passa por ‘perrengue’, não é? Não sei se você notou, mas aquele episódio deu até um incentivo  para as pessoas procurarem falar o inglês correto. Agora, sabe por quê? Porque em nosso país existe uma diferença muito grande. O técnico da Rússia hoje, que foi treinador da Inglaterra na Copa na África do Sul (pausa)…  Putz, esqueci o nome! Tá na ponta da língua. Pesquise aí e bote no A TARDE o nome certo (Fábio Capello). Simmm… ele é italiano. E o inglês dele é parecido com o meu. Os ingleses chegaram para ele: “Não estamos preocupados se você vai falar certo ou errado. A gente se vira, procura te entender. Queremos é ver seu sentimento no que você está tentando explicar”. Lá na África do Sul, eu tinha uma intérprete brasileira que falava muito bem inglês e estava no país. Tiraram ela e botaram outra que falava o português, mas de Portugal. Ela nunca tinha falado de futebol na vida. Um dia eu me empolguei e foi. Agora eu me divirto bastante, não tenho nenhum tipo de problema. Isso não discrimina nada. Acho que a vida é assim, nos traz muita experiência. Vou botar essa história no meu livro.
Você se acha engraçado?
Se estou fazendo esse sucesso todo, algum motivo há…
Pensa numa carreira artística?
Eu quero falar para você: eu não sou artista, sou técnico de futebol. Surgiu a possibilidade, aproveitei. Sou um cara versátil. Amigo… o que faço, faço bem. Eu vejo tantos artistas, principalmente americanos, por exemplo, que fazem outro tipo de atividade sem ser a principal deles. Eu acho que é normal e natural em qualquer ramo de trabalho. Basta ter competência. Se der para conciliar, não vejo problema algum.
Você é hoje um dos garotos-propaganda mais bem pagos do Brasil. Na “ponta do lápis”, o que dá mais dinheiro: ser treinador ou garoto-propaganda?
Isso daí… de que sou o bem mais pago do Brasil, você que tá dizendo! (risos). Mas a verdade é que não posso falar. Por força contratual. Já imaginou a Ivete (Sangalo) dizer quanto ganha num show? Ela não faz isso. Existe todo um aval jurídico, que nos impede de falar. Desculpa!
Acha compatível ser técnico de futebol e humorista?
Vamos lá… volto a dizer, o Papai Joel não virou humorista. E outra: não estou desempregado. Estou curtindo o momento, dando um tempo, ficar um pouquinho fora da mídia. Dar um descanso a vocês. Mas vocês não me esquecem. Não é verdade?  Querem me ver nas coletivas. Porque eu não fico na mesmice, naquele blá-blá-blá. Já era para estar empregado. Recebi propostas, muitas propostas, mas não dentro daquilo que eu estou programando. Na realidade, os últimos clubes eu peguei foi para tirar de alguma situação de dificuldade. Era aquela coisa: “Papai Joel me salva!”.  Vem dando certo, graças a Deus, mas um dia não vai dar certo. E aí, o que eu faço?
É que a função de treinador de futebol, pelo menos no imaginário, está ligada à imagem de liderança. Você acha que um técnico-humorista pode ser levado a sério pelos jogadores, por dirigentes, por torcedores e até pela imprensa?
Cara… aqui é Papai Joel! Você  acha mesmo pelo currículo que eu tenho, conquistas…  Algum jogador vai falar algo? Vai me desrespeitar? Peraê! Eles me veem como um pai. Pergunta a qualquer um aí na Bahia. Você mesmo sabe… não é verdade? Em campo, prevalece o respeito mútuo.
Trocaria o momento que está vivendo por um clube do Oriente Médio ou para dirigir alguma seleção na Copa?
Bateu na trave. Tinha um monte de empresário me procurando e eu achava que estava certo. Mas como conheço o Oriente Médio, só está certo depois que assinou o contrato e recebeu o dinheiro. Você dirigir uma equipe no exterior ou na Copa, você sobe um degrau dentro da sua vida profissional. E nenhum profissional abre mão disso. Ainda mais que está tão difícil o profissional brasileiro sair para o exterior, porque nós passamos um momento muito ruim no futebol. Agora que estamos recuperando nosso prestígio internacional.
O Brasil sempre exportou muitos jogadores para a Europa, por exemplo. Porém, os técnicos brasileiros que estiveram por lá, Luxemburgo (Real Madri,2005) e o próprio Felipão (Chelsea, 2008/2009), não tiveram tanto êxito. Na sua opinião, o que ocorre?
Eles (europeus) não dão facilidade para nós entrarmos lá. Para se adequar, você tem que fazer cursos, universidade, falar vários idiomas. É uma outra realidade. É exigido. Tem que se submeter a vários cursos de técnico também. Aqui no Brasil, não. Aqui o cara para de jogar e vira treinador. Às vezes, o cara é preparador físico e no outro dia ele vira treinador. Aqui todo mundo vira treinador. A profissão mais fácil nesse país é ser treinador. Aí dá uma sorte de pegar uma equipe arrumadinha, faz uma boa campanha e pronto, já começa a falar em voz alta.
Na atual edição do Campeonato Brasileiro, são dez nomes novos de técnicos. Por sua vez, treinadores de renome estão desempregados, como Falcão, Autuori, Mano Menezes, Dunga, Carpegiani.. Sabe o porquê desta situação? Está havendo uma renovação?
Depende. Tem treinadores e treinadores. Quem foi que você falou? Autuori, não foi? Esse daí, foi campeão mundial, tiro o chapéu. Mas hoje, você vê treinadores sem nenhum embasamento virar técnico de time grande. Mas é que nem balão. Sobe e daqui a pouco, apaga. Então, as coisas hoje se desenvolvem assim. Tenho 30 anos de currículo. Eu sou o maior conquistador de títulos do Rio de Janeiro, por quatro clubes. Eu quero exercer minha função talvez mais um, dois anos, não sei ainda. No nosso país, as pessoas acham que quando você tem experiência está ultrapassado. É o único lugar que acontece isso. Exerço minha profissão há 30 anos, acompanho tudo, vejo futebol de manhã, todos os programas. Vou confessar: tenho vontade de viajar para a Europa e ver alguns trabalhos para pararem de falar isso. “Ah, o Joel está ultrapassado”. Pô, acabei de ganhar um título, em 2010. Tenho que ganhar título todo ano? Tem treinador que nunca ganhou nada e “ele é o bom, é isso, é aquilo”… peraê, não é?!
A atual hegemonia no futebol do país é mineira. Atlético-MG, campeão da Libertadores, e o Cruzeiro, líder do Brasileiro 2013.  O que está por trás desta supremacia?
Investimento. Há dois anos, brigavam para não cair. Hoje, não. O Cruzeiro trouxe 18 jogadores, o Atlético também. Trouxe Ronaldinho etc. As diretorias investiram na base, no time principal. Abriram o cofre, o resultado está aí.
Já o futebol do todo-poderoso eixo Rio-São Paulo tropeça. O que ocorre com os clubes desta região?
Está num momento ruim. Aqui no Rio (de Janeiro), todo mundo mal. O Flamengo está respirando agora. O Vasco corre para não cair. O Botafogo tenta se equilibrar, assim como o Fluminense, que há pouco tempo era campeão brasileiro. Os clubes passam por uma situação semelhante a de treinadores. Ou seja, eles estão oscilando. Mas já, já, a praça volta a se fortalecer. Assim como em São Paulo.
Em abril, você assumiu pela quarta vez o Bahia. Foram apenas oito jogos. Deixou o clube após a goleada por 7 a 3 para o Vitória. Aquele resultado ainda o atormenta? O que faltou àquele time?
(Pausa, seguida de respiração profunda). É a maior tristeza do mundo. Meu caro, botam na minha conta uma coisa que eu não fiz. Da outra vez que estive aí (2011), assumi o time perto da degola (em 15º lugar, com 24 pontos, a três do Z-4). No final do ano, era festa. O time não caiu. Desta vez (este ano), Marcelinho Filho, Angioni…  de tanto me pedirem, eu voltei. Voltei para tentar recuperar o terreno perdido. Mas aí.. houve aquilo (perda do título, goleada para o Vitória). Em 20 dias, apagaram uma história de 20 anos. Jogaram todas as minhas conquistas, títulos no lixo. Será que eu só fiz coisa ruim aí?
Ficou magoado?
Não me sinto magoado, mas foi algo que me entristeceu. Você algum dia já ouviu eu falar mal do Bahia? Já deturparam uma fala, um discurso que não tinha associação alguma ao Bahia (episódio da Sardinha). Nunca falei mal do clube e da torcida.  É triste. Crucificaram-me, bateram-me, quebraram-me igual à Joana d’Arc (mártir francesa queimada viva). Mas tenho certeza de que vou voltar. Breve, breve. Senhor do Bonfim sabe o que faz.
A antiga direção do tricolor foi destituída. Seus amigos Marcelo Guimarães Filho e Paulo Angioni deixaram o clube… A auditoria feita pela atual gestão do Bahia acusa o ex-presidente de crime e rombo de R$ 83 milhões durante seu mandato. Acredita na inocência dele?
Não gosto de falar de politica. Não sei o que aconteceu aí, não tenho conhecimento de causa. Tenho respeito muito grande tanto pelo Bahia quanto Vitória. Longe, aqui do Rio, fica difícil de eu comentar sobre algo. O que posso falar é que quero ajudar de qualquer maneira quem precisar.
O Bahia te deve algum dinheiro? Se sim, como está a situação? Vai receber ou terá de acionar o clube?
Isso é questão pessoal. Mas jamais faria algo para prejudicar o Bahia.
Como você vê o atual cenário no qual vive o tricolor? Para você, quem ou quais são os culpados pelo fato de o Bahia estar hoje bem próximo à zona de rebaixamento?
Calma! O time vai sair desta situação. Por que tem uma boa comissão técnica, grupo de jogadores experientes. E, principalmente, a torcida tricolor não vai deixar cair!
Se pudesse dar um recado à torcida e ao técnico Cristovão Borges, o que diria?
Está na hora de união. Ao Cristóvão desejo toda sorte do mundo, um cara sensacional, grande ser humano. Quando a torcida do Bahia quer, ela remove montanhas! Quando estive aí (2011) e livrei o clube do rebaixamento, o Papai Joel contou com a nação, com o torcedor que ama o azul, vermelho e branco, que bate no peito e diz: sou Bahêa! Esta na hora de provar isso. Ir à Fonte Nova, aos treinos, apoiar o Bahia. Chegou a hora, torcedor! A hora de provar que “em vibração ninguém vence o Bahia”.
Sobre a Copa 2014, está confiante no hexacampeonato?
Vamos jogar dentro de casa, com a nossa torcida,  se não tiver confiança… fica difícil.
Qual foi o segredo para o Brasil, de desacreditado antes da Copa das Confederações, tornar-se um dos principais favoritos ao Mundial no próximo ano?
Muito trabalho e doação dentro de campo.
Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Robinho, Alexandre Pato. Levaria um deles para a Copa?
(risos) Não sei. Pergunta ao Felipão, pô! Ele tá ganhando bem demais para isso.
O que acha da polêmica em torno de Diego Costa, do Atlético de Madri – que é disputado por Brasil e Espanha?
Tá uma agonia isso aí. Pior do que novela mexicana! Isso se resolve nos bastidores. Não me mete nisso, não.
Qual sua opinião sobre o movimento criado por jogadores (Bom Senso FC), que, entre as bandeiras, pede a diminuição do calendário nacional?
Acho válido. Precisa-se reunir: imprensa, jogadores, clubes, dirigentes.. está na hora mesmo de se fazer um calendário mais humano. Jogos dia de quarta e domingo, não dá. Quem paga o pato, acaba sendo o treinador. Torcida não quer saber o porquê da derrota não. Quer ver o clube vencer. Realmente chegou a hora de se conversar.

Fonte: A tarde
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