Além das dívidas, o Flamengo trabalha para se liberar da nostalgia de um tempo em que as ondas do rádio e a mitologia de Mário Filho carregavam o imaginário com tintas rubro-negras. A mística já não basta. Enquanto o rio de anunciantes corre para São Paulo, só a excelência esportiva fará o rubro-negro conservar o título de mais querido do Brasil.
— O Flamengo se dividiu, parece que o futebol não é prioridade. Você pode não ter casa, luz mas tem que ter comida. Para se sustentar, o Flamengo precisa de apoio popular e de um grade time, que hoje não tem — disse o ex-craque e treinador rubro-negro Evaristo de Macedo, ao estender o lamento à forma com que o clube passou a taxar os sócios isentos. — A gente sabe que o clube tem necessidade, o valor é irrisório, mas podiam avisar.
Os valores em questão vão além dos R$ 10 por dependente ou R$ 12 para manutenção do clube. Ao tratar os sócios como fonte de renda, a diretoria se esquece que num clube muitas situações se resolvem na conversa.
— Quando era presidente, meu pai (George Helal) percebeu que o Bebeto estava triste e trouxe seus nove irmãos de Salvador — disse Ronaldo Helal, sociólogo especializado em esporte e acima de tudo rubro-negro. — É preciso que haja razão para administrar a paixão, mas o Flamengo não pode ser tão frio. As ações não estão erradas. A condução revela falta de habilidade. Parafraseando Tom Jobim, o Flamengo não é para principiantes.
A expectativa de uma gestão revolucionária remonta aos anos 1970, quando a Frente Ampla pelo Flamengo chegou ao poder às vésperas da fase mais vitoriosa do clube. Muitos brilhantes, quase todos arrogantes, os jovens tinham a presunção de que só eles sabiam o que era melhor para o clube até que o início da gestão fez o grupo pedir socorro a quadros da gestão anterior. Por mais que o passado seja condenado pelo endividamento do clube, há muitas conquistas que precisam ser preservadas. Além da sala de troféus, do patrimônio físico e do balanço contábil, o Flamengo é feito por algo que não pode ser medido. Assim como os deuses do futebol, a alma rubro-negra só existe para quem acredita nela. Na dificuldade de localizar aonde se forma o caráter de um clube, Zico disse “já tive a sorte de pegar assim e conseguimos ajudar a aumentar. Caiu no agrado do povo, não tem volta”. Para Evaristo, a alma está na camisa, que “anda meio vazia, mas faz quem a veste se sentir um super-homem”. Com a ajuda das ciência sociais, Helal lembra que o patrimônio imaterial do Flamengo não tem dono.
— O torcedor jamais vai deixar essa identidade morrer.
A tese se confirmou na vitória sobre o Cruzeiro pela Copa do Brasil, quando o mar vermelho e preto invadiu o novo Maracanã com a força de uma paixão represada. Para quem teme pela alma rubro-negra, o conforto vem da mitologia. O Flamengo é sempre mais poético, popular e vigoroso quando se aproxima do gigante Mário Filho.
Fonte: O Globo

