Na mesma semana em que o vice de futebol do Flamengo, Wallim Vasconcellos, ao comentar a proibição da entrada do ídolo Nunes no Ninho do Urubu, em janeiro, alegou que até Zico seria barrado em nome da privacidade do ambiente de trabalho, sócios-proprietários e beneméritos com serviços prestados souberam que estão devendo ao clube. Pela nova ordem rubro-negra, o boleto chegou antes da aprovação das novas taxas no conselho.
Os episódios sugerem que o clube esteja criando dificuldades para que ídolos e grandes rubro-negros se aproximem, mas, por outro lado, o profissionalismo e a austeridade são vistos como forma de revigorar a tradição rubro-negra. Diante da divergência, se a gestão impessoal e financista é um meio ou o fim em si mesmo, os princípios estão num trecho das “Histórias do Flamengo, livro de Mário Filho, de 1938.
“Por que o Flamengo se tornou o clube mais amado do Brasil? Porque o Flamengo se deixa amar à vontade. Não impõe restrições a quem o ama. Aceita o amor do príncipe e do mendigo e se orgulha de um e de outro. Se um flamengo matasse pelo Flamengo, seria um herói; se morresse por ele, um mártir ou um santo. O Flamengo nunca se envergonhou de nenhum jogador que lhe vestisse a camisa”.
O jornalista era uma caixa de ressonância antes de dar nome ao estádio, mais conhecido como Maracanã. Narrador do mito original do futebol carioca, ao cobrir de drama e lirismo uma historiografia até então inexplorada, suas palavras ainda ecoam de forma provocadora. Quarenta e sete anos depois de sua morte, que se completam depois de amanhã, Mário é atual como o debate que se instalou no Flamengo sobre o desafio de modernizar o clube sem perder sua identidade.
— Não tem nada disso. Estão confundindo organização com elitização — disse Zico, disposto a ampliar os limites da discussão. — Tem que facilitar para o povão, mas o Flamengo de hoje não é só Rio, é Brasil, é mundo. Se o time tem 19 jogos como mandante, deve fazer cinco fora do Rio.
Ao ceder sua imagem ao programa sócio torcedor em troca do valor da primeira mensalidade, o ídolo trabalha para que o clube não fique fechado nas brigas políticas que segundo ele teriam amplificado a barração de Nunes num treino em janeiro.
— Todo clube tem normas para serem respeitadas. É preciso que haja sensibilidade. Defendo que todo ex-atleta tenha o direito de visitar o clube. Soube de casos de outros jogadores que não puderam entrar na Gávea — disse Zico, ao rejeitar o papel de garoto-propaganda da atual diretoria. — Não tenho nenhum compromisso. Meu contrato é com a empresa que explora o programa, não recebi um centavo ainda.
Fonte: O Globo

