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Flamengo: Bilheteria, ainda que tardia.

Coluna do Flamengo
Coluna do Flamengo
Publicação: 27/08/2013
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Atualização: 23/01/2015
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Nesta terça feira a coluna do advogado Walter Monteiro trata da questão dos ingressos para as partidas do Flamengo, alvo de grande celeuma nas últimas semanas. Brevemente também irei abordar o assunto, sob uma ótica um pouco diferente.
Por anos, muitos anos mesmo, o Flamengo era líder absoluto por qualquer critério que se olhasse no aspecto extracampo: era o time com a maior receita, com o maior valor de mercado, com o maior colégio eleitoral em suas eleições, com as maiores rendas nos estádios, com os maiores públicos pagantes, com a maior torcida e com a maior dívida.  Agora só nos restam as duas últimas.
Desde que Bandeira de Mello tomou posse, sua gestão tem sido criticada de forma implacável pela política de preços dos ingressos. Eu mesmo, admito, achava um equívoco a rápida majoração das entradas. Só que é impossível manter a opinião depois de analisar com detalhes os resultados financeiros recentemente divulgados. Disse isso na análise que publiquei em site especializado, em conjunto com meu parceiro (e também colunista deste Ouro de Tolo) Jorge Farah, que todos chamam de JEFF.  Mas só que o tema é tão relevante que merece um aprofundamento.
Acho que todos concordam que em paralelo à competição desportiva, os clubes também são rivais no aspecto econômico. Times mais valiosos atraem mais recursos de patrocinadores, mais audiência, mais dinheiro. E no futebol jogado nesse milênio, dinheiro pode não ser tudo, mas é quase. Um time rico vai brigar pelas primeiras posições em pelo menos 4 de 5 campeonatos que disputar – e o mais provável é que esteja bem posicionado em todos eles. Um time com menos recursos terá que superar suas limitações contando com o acaso.
Como os times montam seus orçamentos e assim agregam valor ao seu negócio? Basicamente, há 5 itens essenciais: direitos de transmissão (broadcasting), marketing/licenciamento, contribuições de sócios, transferência de atletas e bilheteria (match day).
No Brasil, a divisão típica dessas receitas obedece ao seguinte padrão, segundo a média dos 20 clubes da primeira divisão em 2012:
ITEM %
TV 40%
Marketing/Licenciamento 14%
Mensalidades/Sócio Torcedor 11%
Bilheteria 7%
Transferência de Atletas 14%
Outras Receitas 14%
(Fonte: Amir Somoggi)
Porém, esse é um ciclo em transformação. A tendência é de que a bilheteria passe a ter um peso cada vez maior na geração de receitas. Basta observar como Real Madrid e Barcelona faturam (sem incluir receitas de transferência de atletas):
ITEM – REAL MADRID – BARCELONA
TV 36% 44%
Estádio 30% 25%
Marketing 34% 31%
* “Estádio”inclui mensalidades de sócios torcedores
Não é o caso de comparar a realidade espanhola com a brasileira, mas parece um tanto óbvio que, ao contrário do que a maioria pensa, a receita de estádio é cada vez mais relevante na composição da receita de um clube – qualquer clube.
Só que, no Flamengo de 2013, essa receita não é apenas “relevante” ou “importante”. Ela é simplesmente a garantia de sobrevivência até o fim do ano. Ou o clube arrecada para valer na bilheteria, ou não deverá haver dinheiro para fechar as contas.
Em 2012, como eu e JEFF dissemos no artigo sobre a análise do balanço, o Flamengo conseguiu a vexatória DÉCIMA QUINTA colocação no quesito “receita de estádio”. Dentre outros, Figueirense, Bahia (com a Fonte Nova fechada), Atlético PR (na segunda divisão) e Botafogo ficaram na nossa frente. Faço questão de lembrar que mesmo jogando no Rio e cobrando preços que não eram percebidos como caros o Flamengo não teve apoio necessário para sequer ficar entre as 10 maiores arrecadações.
Mas nada é tão ruim que não possa piorar: no primeiro semestre de 2012, a disputa da Libertadores fez com que o clube tivesse uma arrecadação ainda maior do que no mesmo período de 2013, quando ainda fomos prejudicados pela parada da Copa das Confederações e a desclassificação prematura no Carioca.
Portanto, para ter uma posição digna de seu tamanho e potencial, o clube tem apenas o segundo semestre para se recuperar. E não há outro meio de chegar lá senão cobrando preços que assegurem essa recuperação.
E isso ainda nem é o mais importante….
O que realmente precisa ficar claro é que o Flamengo simplesmente não tem mais de onde tirar dinheiro. Não há atletas para vender, contratos de patrocínio para assinar, cotas de TV para receber (já que essas foram adiantadas), o Sócio Torcedor tende a evoluir lentamente (ou até estagnar/regredir no curto prazo). É bilheteria ou nada. Entenda-se por “nada” antecipar receitas do contrato com a TV de 2015 ou 2016, contrair empréstimos bancários ou, ainda pior, rodar o chapéu entre “investidores” de ocasião.
Vou repetir, para ver se todo mundo entende: o Flamengo de 2013 depende DEMAIS da arrecadação de bilheteria, como nunca deve ter dependido antes.  E ainda por cima teve o azar de cair nessa esparrela justamente nessa fase de transição do Consórcio Maracanã, quando tudo é ainda muito incerto.
Dito dessa forma, duas decisões que o Presidente Bandeira de Mello tomou e pelas quais é escorraçado precisam ser compreendidas pela torcida.
A primeira é o aumento dos preços. Eu estou abismado como o Presidente e seus assessores têm tido dificuldade de explicar para a torcida algo tão crítico e essencial, volta e meia caindo na armadilha do discurso da “elitização” dos estádios.
Sobre isso, quero me permitir uma ligeira digressão. Não há nada mais preconceituoso e fora de foco do que o discurso mentiroso de que os novos estádios e novos preços transformarão as arquibancadas em um reduto das classes A, AA e AAA+.
Eu sou, tecnicamente falando, um cidadão da elite, o que torna natural que a maioria dos meus amigos também o sejam, embora raramente se percebam assim (afinal, quem ganha mais de R$ 6 mil mensais está nessa categoria). E geralmente é dessa gente que partem as críticas contra a política de preços, destinada a afastar os “pobres” dos estádios.
Só que os “pobres” brasileiros viajam de avião, compram carros à prestação, compram geladeiras duplex, TVs de LCD, notebooks, smartphones. Há mais de 1 milhão de textos na Internet falando sobre a Nova Classe C brasileira e seu apetite por consumo de itens caros. Será que os defensores de ingressos “populares” realmente acreditam que um membro da nova classe média não tem R$ 80,00 ou R$ 100,00 para ir ao Maracanã quando tiver vontade de ir? Óbvio, não tem para ir SEMPRE. Mas pode ir ocasionalmente.
Cobrar ingressos mais caros significa, antes de mais nada, valorizar o produto. É de se esperar – ou melhor, é o caso de cobrar – melhores serviços, melhor atendimento, uma contrapartida compatível com os preços praticados. Mas é um movimento irreversível, um fenômeno que guarda semelhanças com o que as salas de cinema experimentaram no fim do século passado, quando deixaram de ser auditórios empoeirados de bairros para os atuais multiplex. Que cobram mais caro – bem caro, por sinal -, mas nem por isso estão vazios.
Voltando ao Flamengo, outra coisa que me incomoda tem a ver com a outra decisão relevante da presidência, a escolha de Brasília como sede do time para esse primeiro turno do campeonato.
Nenhuma decisão na história recente do clube foi tão bem sucedida quanto aos objetivos traçados, que são, como todos sabemos, faturar – e aqui aproveito para insistir no tema, um faturamento absolutamente vital para esse ano. A resposta do torcedor brasiliense foi espetacular.
O desempenho medíocre do time reacendeu uma falsa polêmica, de que só o torcedor carioca tem a manha necessária para apoiar o time como se deve e que tudo voltará a brilhar quando o Flamengo voltar a sua casa. Reconheço a importância mítica do Maracanã e a força que suas arquibancadas emprestavam ao time. Afinal, fui criado ali, é o lugar que mais gosto na cidade, muito mais do que a praia ou os botequins. Mas convenhamos que a realidade é mais dura do que gostaríamos.
A polêmica estourou de verdade depois que o time foi derrotado para o Grêmio. Houve quem dissesse até que o estádio estava “vazio”, com mais de 20 mil pagantes. Para esses, quero lembrar que o último Flamengo x Grêmio no Maracanã também foi em um sábado à noite, em 2010, quando 7 mil testemunhas viram Petkovic marcar nosso único gol naquele empate.
Esse discurso infeliz de que o time vai mal porque joga em Brasília embute uma maldade e uma generosidade. A maldade é com os torcedores Off-Rio em geral e brasilienses em particular, que são “acusados” de não saberem torcer e empurrar o time.
A generosidade é com os verdadeiros culpados por esse desastre, ou seja, jogadores, comissão técnica e responsáveis pela montagem do elenco. Se alguém não tem culpa de nada é a massa que vai ao estádio para exercitar sua paixão.
Há, de fato, um pequeno nicho de torcedores diretamente prejudicado pela política de preços. Ele é formado por gente completamente viciada em estádio, que vai ao maior número de jogos que consegue. Não por acaso, a maioria dos meus amigos é assim. Para quem vai a mais de 10 jogos por ano, os aumentos são doloridos e a chiadeira entre esse povo é justificada.
Só que não deve existir nem 50 mil pessoas nesse contingente. Ora, o clube não pode traçar sua estratégia operacional olhando para 50 mil torcedores. Sua missão é com o coletivo da Nação, para quem recuperar a arrecadação fará toda a diferença.  Para esse segmento muito específico, uma política que premie a fidelidade pode ser pensada, com calma, através do programa de Sócio Torcedor e carnês de venda antecipada.
Falei para caramba, mas precisava dar esse recado: não há nada mais importante para o Flamengo daqui até o fim do ano do que equilibrar suas finanças via bilheteria. O torcedor precisa se convencer disso, custe o que custar, rechaçando com veemência as insinuações de que está em marcha um processo de elitização.
E, presidente Bandeira, está na hora de melhorar o discurso para passar essa mensagem. Dizer que tem torcedor sem dinheiro até para pegar ônibus não ajuda em nada.
Fonte: Pedro Migão

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