Sou um veterano e às vezes saudosista. Sinto falta das manhãs de domingo com clássico no Maracanã em que, desde cedo, carros desfilavam pelas ruas da minha Niterói com bandeiras dos times envolvidos. Você pulava da cama e, olhando pela janela, sentia claramente: o clássico já começou.
O clima era fantástico, as pessoas não falavam em outra coisa, os jornais traziam amplas coberturas do confronto esperado e as rádios nos abasteciam com todas as informações e a expectativa naquela Era pré-TV paga. E nem sempre as manifestações eram de carinho. Quem ama um time detesta o rival.
Aqui em Belo Horizonte, horas antes de Atlético e Flamengo reviverem os memoráveis duelos do passado, o foguetório de torcedores do Galo no lado de fora do hotel que hospeda os rubro-negros foi um sinal. Um sinal de partida e um aviso aos adversários. Algo como “preparem-se, hoje vocês vão sofrer”.
Sofrer a pressão de uma torcida fanática na tentativa de levar o time a uma vitória memorável. Pode ser que não aconteça, mas antes de a bola rolar, na cabeça de todo atleticano a vingança está encomendada e tem hora marcada. E isso pertence ao futebol, como costuma dizer justamente o técnico do Flamengo.
Na prática os fogos que estouraram na madrugada mineira não atormentaram os jogadores de Vanderlei Luxemburgo. Mas esse ritual faz parte de uma tradição, de uma manifestação aparentemente tola, mas apaixonada e que mexe com as pessoas. E nem tudo é lógico quando envolve amor.
A imprensa aborda o tema, os torcedores ficam inquietos. Vira assunto. Entendo a ira dos vizinhos eventualmente incomodados, claro. Se chamarem a polícia terão toda razão. Mas não engrosso o discurso moralista e careta.
Na prática é a saborosa rivalidade explodindo no ar em forma de rojões, que apesar de perigosos, sabemos disso, fazem falta nos estádios cada vez mais assépticos e agora com a pífia entrada em campo simultânea. Não temos mais a festa, a “tempestade de bandeiras” na entrada dos times em campo, como diria o locutor Waldir Amaral.
Acabou a vaia sonora ao time visitante na chegada ao gramado, pois as duas equipes caminham lado a lado, jogando no lixo nossa velha tradição, uma patética cópia do formato europeu que nos faz parecer tolos colonizados. Se quiser ver um recebimento de verdade, você tem que ir à Argentina ou ao Uruguai. Pena.
Grande jogos de futebol começam antes de a bola rolar. Na provocação ao rival feita pelos jornais. Na frase de impacto do técnico que dá partida na batalha psicológica. No torcedor que sai pelas ruas afirmando que seu time vencerá. Nos rojões que rasgam a madrugada na tentativa não só de perturbar o sono rival, mas de avisar: “Estamos aqui. E hoje o bicho vai pegar”.
Ao inferno com o politicamente correto. Viva o futebol, uma guerra do bem.
Fonte: Blog do Mauro Cezar Pereira
