Um dia antes da final do Campeonato Brasileiro de 1980, considerada como o maior confronto entre Flamengo e Atlético-MG na história, o atacante Reinaldo, ídolo da torcida alvinegra, deu uma prova de coragem ao criticar a ditadura, o presidente João Baptista Figueiredo, último dos militares a comandar o país, e a Petrobras, “menina dos olhos” do Governo.As críticas foram feitas na coluna que o “Rei”, como o centroavante era conhecido, assinava no Jornal do Shopping, de Belo Horizonte, e publicada no dia anterior à polêmica vitória por 3 a 2 dos cariocas sobre os mineiros, no Maracanã. A arbitragem de José de Assis Aragão, que expulsou três jogadores do Atlético (Reinaldo entre eles) é até hoje contestada em Minas.
A primeira provocação foi feita a Figueiredo, que afirmou que torceria pelo Internacional na semifinal contra o Atlético-MG, já que seria um “gaúcho bairrista” – na verdade, ele nasceu no Rio de Janeiro. “(A vitória sobre o Inter) De uma forma desportiva revolucionária, contrariou a vontade do presidente João Baptista Figueiredo”, escreveu Reinaldo.
Em seguida, quem é alvo da caneta afiada do “Rei” é a Petrobras, que havia recém-descoberto um suposto poço de petróleo no Amapá, além do descontrole da inflação do governo militar.
“A Taça de Ouro chegou à sua final, e foi muito pesado esse torneio. Mas agora é momento da gente vibrar com gols fantásticos, que divivem a alegria desse povo dopado pelo futebol (que até esqueceu que do poço da Petrobras, no Amapá, saiu só água, que a gasolina subiu e que o pique da inflação aumentou)”, colocou Reinaldo.
“O povo quer é futebol. E como os jogadores não estão nem aí, não querem saber se estão sendo usados, a torcida fica anestesiada e não quer nem saber quanto está custando o ingresso, ela quer é saber se tem garantido seu lugar no circo. […] Acabada a festa, se não tiver pão, a culpa não é do futebol”, finaliza o atleticano.
A coluna levou como título “Frei Beto é meu técnico”, em referência ao encontro que o elenco do Atlético-MG teve com o escritor e religioso que foi preso duas vezes durante o regime militar. Frei Beto foi aos vestiários do Mineirão após o “Galo” eliminar o Inter na semifinal, e levou o recado de um metalúrgico que começava a ganhar fama.
“(Ele levou) Um abraço do Lula e de todos os metalúrgicos do ABC, que agora eram também nossos [do Atlético] aliados. Naquela quarta-feira, Frei Beto foi meu técnico”, contou Reinaldo.
A coluna do “Rei” foi considerada na época um ato de coragem, já que a ditadura militar, apesar de ter entrado em período de transição à democracia com depois que Figueiredo assumiu, ainda estava longe de acabar. O texto foi publicado em 1980, ou seja, cinco anos antes do fim do regime.
Fonte: ESPN
