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Uma renúncia sem surpresa

Redação
Redação
Publicação: 28/10/2015
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Atualização: 28/10/2015
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Zico renunciou à sua anunciada candidatura à presidência da FIFA. Não vi surpresa nesse gesto, pelo contrário, foi apenas a consequência lógica de uma ação que nunca teve futuro. Surpresa, de fato, foi ele ter se lançado candidato.

Em tese, qualquer pessoa pode candidatar-se à presidência da entidade maior do futebol mundial. Foi o que fez, em 2011, o jornalista americano Grant Wahl, da Sports Illustrated. Em entrevista ao portal GloboEsporte (aqui) ele falou sobre sua candidatura e listou algumas de suas propostas:

“… uso de tecnologia para decidir se a bola entrou ou não; a indicação de uma mulher para o cargo de secretário-geral, atualmente exercido por Jerome Valcke; não dar cartões em comemoração de gols; e colocar na internet todos os documentos da Fifa.”

Naquela época, um candidato a candidato precisava da indicação de apenas uma federação nacional para disputar a eleição e ele não conseguiu. A necessidade hoje é de cinco indicações e Zico não conseguiu nem mesmo uma, oficialmente. Apenas a promessa da indicação pela CBF se conseguisse as outras quatro.

Desde seu lançamento não levei a sério a candidatura Zico, não no sentido dela não ser séria e bem intencionada, pois foi, assim como sério e bem intencionado é Zico, mas no sentido de ser consequente e ter alguma possibilidade de sucesso, por mínima que fosse. E, por sucesso, imaginava também sua possível gestão.
Se vamos falar de eleição temos que falar de candidato. Para muitos adeptos de Zico, na verdade mais fãs do craque do passado do que do candidato do presente, o grande ponto a seu favor era o caráter e sua história nos gramados.

Caráter é bom e necessário, mas um candidato a um cargo executivo ou parlamentar precisa ter muito mais que bom caráter, mesmo porque, bom caráter, honestidade, respeito às leis, são predicados básicos para qualquer cidadão, seja ele candidato ou não a alguma coisa. No Brasil temos uma distorção criada por muitos anos de ataques à política e aos seus praticantes, muitos deles favorecidos, não podemos esquecer ou minimizar, por atuações desastradas e infelizes e mais: muitos enveredaram, simplesmente, pelos caminhos do crime, como a Justiça está provando e punindo agora. Tudo isso acabou criando ou reforçando um verdadeiro preconceito em relação a algo tão fundamental ao ser humano: a política. Porém, gostemos ou não, não existe vida em sociedade sem ela, a política.
E a FIFA é um organismo eminentemente político.

Um candidato a um cargo executivo, especialmente da magnitude de presidente da FIFA, precisa ter muitas habilidades, conhecimento e experiência. Sem isso, tudo que restará será o risco potencializado da candidatura ser somente uma aventura e o presidente se tornar um marionete de grupos ou pessoas dentro da entidade.

Dentro da FIFA, como dentro de qualquer organismo social, até mesmo dentro do condomínio em que você mora (e, vamos lá, vai, quando você foi a uma reunião do condomínio?), as pessoas têm ideias e propostas diferentes. Elas, naturalmente, se agrupam de acordo com seus interesses e lutam por eles.

A FIFA é regida, em última instância, por 209 diferentes federações nacionais. Por 209 eleitores, que têm interesses distintos, muitos deles conflitantes ao extremo.

Vejam isso, por exemplo: a América do Sul é formada, para efeito FIFA, por 10 países (Guiana e Suriname são filiados à CONCACAF e Guiana Francesa, Falklands e Geórgias e Sandwich do Sul são possessões). Esse pequeno grupo, o menor entre todas as federações continentais, tem direito a 4 vagas cativas na Copa do Mundo e mais uma que é disputada em repescagem. E, pelo histórico, essa quinta vaga é sul-americana, sempre. Então, para os países da África, Ásia e Europa, que juntos têm 153 membros – 73% dos votos – e 22,5 vagas na Copa do Mundo, equivalentes a 70,3% das vagas numa Copa, é um absurdo que os 10 países sul-americanos, que representam 5% dos membros e, portanto, 5% dos votos da FIFA, sejam donos de 14% ou, na prática, 16% das vagas da Copa do Mundo.

A pressão para tirar pelo menos uma vaga sul-americana, talvez até duas, vem da Ásia, dona de 21% dos votos e 14% das vagas. Vem também da África, dona de 26% dos votos e apenas 16% das vagas. Vem também da Europa e da CONCACAF. Não demora muito e poderá acontecer de a própria Oceania tentar uma vaga cativa, usando para isso seus onze votos (um a mais que a América do Sul), que seriam dados em bloco para um candidato e seus apoiadores que garantissem ao continente formado por ilhas, arquipélagos e mais a Austrália.

Esse é apenas um exemplo dos muitos interesses diferentes dentro da entidade máxima do futebol. As disputas políticas são intensas, acirradas e são legítimas.

Sim, há corrupção, há ilegalidades, mas elas não eliminam a necessidade de fazer política em tempo integral.

Foi sempre pensando nesse quadro mais amplo que nunca enxerguei como possível a candidatura Zico. Quem iria fazer política por ele? Porque alguém teria que fazer o papel de presidente e conduzir a entidade.

Em sua própria casa, o Clube de Regatas do Flamengo, Zico permaneceu apenas 4 meses como dirigente e renunciou em função das pressões que sofria. Foi um período marcado por um fato totalmente fora da rotina de qualquer clube e que esperamos todos que nunca mais se repita, um episódio de profunda infelicidade: o caso Bruno.

Não ficou somente nisso: o time de futebol não encaixou, treinador foi trocado com pouco tempo de trabalho (uma constante no futebol brasileiro e no Flamengo, até mesmo nesse novo Flamengo de gestão séria e competente fora dos gramados), derrotas se sucederam e, cereja do bolo, críticas de alguns setores ao acordo firmado entre o Flamengo e o CFZ, o clube do qual Zico era dono.

Muita coisa?

Sim e não, mas nada de muito extraordinário para um clube e para dirigentes de futebol nessa Terra Brasilis. Pode-se dizer, exceção feita à tragédia da moça assassinada, que o dia a dia de todo dirigente em parte do ano, em partes de suas carreiras, são iguais ou até piores.

Olhando de fora, acredito que faltou a Zico habilidade e vivência política para passar por cima desses problemas e lidar com adversários mais toscos e primitivos, mas que nem por isso são muito diferentes do que enfrenta um presidente da FIFA. Mudam os idiomas e as vestimentas, mas não mudam a truculência e os métodos. E, se mudarem, será para pior, por serem, imagina-se, mais elaborados.

Faltou, também e talvez, o gosto pelo fazer política. Um gosto fundamental para quem quer entrar no mundo das entidades representativas.

As dez propostas de Zico para a FIFA são muito boas e refletem os novos tempos. Pessoalmente, vejo com ressalvas as questões referentes à ampliação do colégio eleitoral e a adoção de tecnologias diversas para “auxílio” à arbitragem.

Os demais candidatos não fugirão muito desse ideário, com peso maior para Transparência e Democracia.

A candidatura Zico, eu acredito, seria vista com outros olhos, mais positivos, se ele tivesse ao menos durante algum tempo exercido funções de direção como fizeram outros ex-atletas, todos fora do Brasil.

Sem entrar no mérito e sem fazer pré-julgamento, vemos hoje ou em passado recente Platini e Beckenbauer em posições destacadas, assim como Rummenigge. Fora do futebol, temos Sebastian Coe, há pouco eleito e empossado como presidente da IAAF – Associação Internacional de Federações de Atletismo – e depois de ter sido o principal dirigente na organização dos Jogos Olímpicos de Londres.

Entre nós, tudo indica que teremos novos nomes e rostos em áreas importantes de nossos esportes, a começar por Ana Moser, que chegou a ser cotada para o Comitê Organizador da Rio 2016. Infelizmente, as motivações políticas por trás dessa possível indicação eram péssimas.

Raí, Mauro Silva, Paulo André, esse ainda muito jovem, mas já atuante e tendo ótimas referências, são outros nomes que poderão mudar a cara de nossos esportes. Todos eles estão imersos em atividades que só podem ser descritas como políticas. Estão ganhando experiência e aprendendo.

Espero que comece com eles uma nova fase para nós, permitindo que vejamos nomes que aprendemos a admirar como atletas à frente de federações e confederações, dando as cartas nos destinos de nossos esportes.

Nesse ponto, penso que a candidatura Zico foi positiva para esses ex-atletas e para os muitos que ainda estão em atividade e podem se motivar a permanecerem ligados aos esportes.

Fonte: Olhar Crônico Esportivo

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