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Arthur Muhlenberg: “Assistir Flamengo virou programa de rico.”

Coluna do Flamengo
Coluna do Flamengo
Publicação: 23/07/2013
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Atualização: 23/01/2015
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É com um certo receio que embarco novamente no tema do preço dos ingressos do Flamengo. O receio se deve ao expressivo numero de aborrecimentos, desinteligências, ofensas, bloqueios e banimentos que o assunto provocou por aqui e nas redes sociais em todas as vezes em que o abordei. Mesmo não acreditado que a internet seja o melhor ambiente para cultivar amizades é muito chato ver reações tão violentas à divulgação das suas próprias ideias.
Mas tenho certeza absoluta de que não é tão chato quanto deixar de dizer o que se pensa só pra não desagradar meia dúzia de primitivos incapazes de conviver com a diversidade de opiniões. Já prevendo possíveis ataques de pelanca vou começar servindo a parte macia, onde existe aparente convergência de pensamento entre todos; as evidências de que está em curso um contínuo e irrefreável processo de elitização do futebol profissional enquanto espetáculo para adequá-lo a um padrão de matriz europeia. Fora, UEFA, você não nos representa!
Que o ingresso pros jogos do Flamengo estão caros pra cacete todos que não tem uma árvore de notas de cem plantada no jardim concordam. Outro ponto pacífico é que o salário mínimo no Brasil é mixuruca e não permite luxos de qualquer espécie. Também é de conhecimento geral que a torcida do Flamengo, por seu gigantismo, seu caráter universal e sua capilaridade, congrega uma imensa massa de assalariados que sobrevivem, sabe-se lá como, com a merreca mínima. Logo, o processo de elitização atinge de forma particularmente contundente uma expressiva parcela da torcida do Flamengo. Fora, Blatter, seu vascaíno safado!
Mas nenhum torcedor do Flamengo vem sofrendo mais com esse processo de elitização do que o torcedor do Flamengo que vive no Rio.. A torcida do Flamengo está em todo o Brasil, mas a porrada é sentida sempre aqui em primeiro lugar. Lembrem-se que foi do bolso do torcedor do Rio de Janeiro que saiu a maior parte do dinheiro que fez do Flamengo nas últimas décadas o campeão de público e o Mais Querido do Brasil. Fora, Bandeira!
Quando o Flamengo não encontra um estádio em sua própria cidade para mandar seus jogos e sai pelo país vandalizando os recordes de arrecadação é o torcedor carioca do Flamengo que fica sem ir ao jogo. E quando a entrada pra uma arquibancada atrás do gol pra um jogo com o Foguinho atinge absurdos 100 reais podem ter certeza que é o torcedor do Flamengo carioca que vai mais uma vez pagar a maior parte da festa. Fora, Dilma, Cabral, Paes e Rubinho!
Presumo que a estratégia do Flamengo a fixar os preços lá no alto busque valorizar o seu programa de sócio torcedor, que garante ao torcedor 50% de abatimento no preço do ingresso e uma renda fixa ao clube. Diante do cenário de devastação financeira do Flamengo não há como recriminar tal decisão. O Flamengo não tem a menor condição de ficar pagando pra jogar. Mas o custo de tal estratégia é afastar definitivamente dos estádios muitos torcedores. Fora, Bap!
Entre os torcedores afastados está o mitológico torcedor do Flamengo que ganha salário mínimo e deixa de comprar o pão para os próprios filhos para apoiar o Mengão. Bom, é só minha opinião, mas quem faz uma barbaridade dessas com os próprios filhos não está preparado para a paternidade e não deveria frequentar um estádio e sim o escritório de um assistente social. Legaliza o aborto, Dilma!
Opiniões e preconceitos pessoais à parte, é óbvio que esse torcedor que vai a todos os jogos do Flamengo ganhando salário mínimo complementa sua renda trabalhando como modelo nas inúmeras teses socioeconômicas pão com o ovo em que é figura central. Teses erigidas em defesa da verdadeira essência do Flamengo, do povão e do ingresso barato, que em sua grande maioria são variações de análises perfunctórias do cenário econômico que tem como eixo as finanças pessoais dos seus próprios autores.
Vamos falar sério, se posicionar racionalmente diante do preços dos ingressos é um pouco mais complexo do que simplesmente usar o próprio poder de compra como parâmetro. Ou o poder de compra da sua empregada. E se vai entrar no debate é preciso ser intelectualmente honesto para não cair na tentação de ficar discursando em nome daqueles que mais precisam só pra fazer sucesso popular. Esse malho perdeu sua validade, anotem o que estou dizendo, no ano que vem esse caô não vai eleger nem deputado estadual. Fora, todo mundo!
Agora que já concordamos bastante me permitam começar logo o conflito e servir o osso desse repasto. Que você pode encarar ou não, mas sempre dando aquele desconto bom pra tudo que direi porque sou um ingênuo ignorante, crente nos poderes reguladores do mercado e no caráter quase gravitacional da lei da oferta e da procura. Um liberal pequeno burguês de classe média, o que à luz dos novos pontos de clivagem sócio-política propostos pela voz rouca das ruas faz de mim um rato direitista à favor da PM e do gás de pimenta. Fora, Weber!
Tudo bem, a burguesia fede, mas já faz muito tempo que o futebol tem se tornado uma opção de lazer cara demais para o grosso da população brasileira. Ao mesmo tempo em que o aumento da oferta faz com que os preços para o acesso à TV por assinatura e à internet caiam a cada dia. Mesmo antes das reformas dos estádios para a Copa a média de publico nos estádios cariocas em geral, e do Flamengo em particular, eram decrescentes. O futebol não ficou caro agora, mas como em 2013 aumentou preços congelados há três anos acabou dando essa falsa impressão e trazendo essa conversa de elitização à tona.
O que está acontecendo agora e, por seu ineditismo, chocando a sociedade rubro-negra, é que um numero muito maior de rubro-negros cariocas estão passando pelo que já passa há muito tempo 80% da torcida do Flamengo que vive fora dos limites do Rio. Estão tendo que viver longe do Mengão. A massa está deixando mesmo de ir ao jogos do Flamengo, primeiro porque não tinha estádio e agora porque não há mais dinheiro para pagar por um programa que se sofisticou tremendamente e busca novos públicos para bancar seus custos crescentes.
O flamenguista carioca sem folga no orçamento que gosta de ir ao estádio passa agora pelo mesmo perrengue que os primeiros fãs da Madonna passaram quando ela bombou. No começo dos anos 80, quando não estava servindo mesas como garçonete, a determinada Material Girl se apresentava regularmente em espeluncas e inferninhos na St Marks Place e, nas noites de gala, no CBGB da Bowery, onde você podia ficar pertinho da artista pagando pouco mais de 1 dólar na cerveja.
Mas Madonna seguiu seu caminho e foi pro mundo. Guardadas as devidas proporções Madonna virou um Flamengo. E agora seus antigos fãs precisam pagar muito mais caro se quiserem manter o mesmo nível de proximidade com a artista em seus shows. Fora a cerveja, claro. E mesmo assim, agindo argentariamente, contra os interesses do povão e dos seus fãs mais fiéis, o público da Madonna aumentou. Como ela mesmo profeticamente cantou “somente garotos que poupam moedinhas fazem meus dias difíceis”.
É triste? É chato? É cruel? Sim pras três perguntas. Mas assim é o show business e se você não percebeu é assim que o produto futebol está sendo embalado para o público. Na hora em que decidiram que o futebol era um negócio as prioridades mudaram e tudo que não se pode traduzir em faturamento perdeu um pouco de importância. Hoje em dia nenhum dirigente de nenhum clube do mundo hesita em dizer que, se for preciso escolher, prefere um estádio vazio com uma boa receita garantida pela TV do que o contrário. Anátema!
E se tem um clube que realmente precisa de dinheiro esse clube é o Flamengo. Premido por um endividamento monstruoso, o Flamengo de 2013 vende o almoço não para comprar a janta, mas para pagar o rigoroso parcelamento de sua pornográfica divida fiscal. Nessa conjuntura econômica é obrigatório que o Flamengo, sob pena de morrer de fome, faça tudo que estiver ao seu alcance para trazer novos recursos pro seu caixa. Por essa lógica vale vender a camisa a 200, o ingresso a 100 e o sócio-torcedor a 40. Flamengo não é mais só pra quem quer, Flamengo agora é pra quem pode.
Mas não é só o Flamengo, é toda a brincadeira do futebol que está assim. Para simplesmente descer pro play, que seria o equivalente a ter um time competitivo, tem que ter dinheiro. Dinheiro que o Flamengo tem buscado sem cessar nos patrocinadores, no programa de sócios torcedores e, lógico, nas bilheterias. Muitos afirmam que pelo caminho errado e elitizante. Mas essa é uma discussão sem fim, porque a matemática permite que se façam várias projeções contrapondo o estádio lotado com ingresso barato e o estádio meia-bomba com ingresso caro e o resultado final sai sempre ao gosto do freguês. Mas enquanto o dinheiro não aparecer, nada de time.
Como qualquer um que terá que pagar pelos próprios ingressos acho que o Flamengo está sendo olho grande na hora de fixar os preços, mas entendo as motivações. Com um acordo precário com o Maracanã, a ser renegociado em termos mais definitivos apenas em 2014, é importante que o Mengão eleve ao máximo o faturamento nos jogos que em que for o mandante no faraônico estádio em 2013. A receita apurada nesses jogos será o cacife do Flamengo na mesa de negociações com o consórcio. Isso se chama estratégia negocial e ainda que a mesma seja executada às custas da carne e do sangue da torcida, era o que nós estávamos pedindo pro clube há anos. Crescer de maneira sustentável, sem alavancagem, dói.
Ninguém sabe do dia de amanhã e pode ser que a lei da oferta e da procura funcione a nosso favor e os ingressos de 100 royal encalhem nas bilheterias, forçando a redução de preços. E pode ser que, ao contrário, o Flamengo perceba que ainda não alcançou o preço máximo pelo qual a torcida está disposta a pagar e salgue ainda mais os preços nos próximos jogos. Acho bastante improvável que isso aconteça, mas só o tempo dirá. Provado já está que ir ao estádio ver o Flamengo sem fazer parte do sócio torcedor virou programa de rico.
Talvez sirva de consolo saber que que, por caminhos muito tortos, a elitização dos estádios acaba sendo democrática ao distribuir, agora entre os torcedores cariocas do Flamengo, a parcela de infelicidade de não se ter bala para acompanhar in loco as aventuras do Fuderoso Price Maker da Gávea. Uma fatura cruel que antes era paga exclusivamente pelos torcedores Off Rio. Que já estão acostumados a pagar preços próximos dos 100 reais pra ver o Flamengo há muito tempo e mesmo assim fazem com que a Magnética seja a maior torcida do Brasil. Precisamos aprender com eles.
Sei que o otimismo está definitivamente fora de moda, mas nesse novo cenário pode ser até que aconteça no Rio o mesmo fenômeno que já acontece no Brasil. Quanto mais longe dos jogos do Flamengo mais cresce a nossa torcida.
Fonte: Urublog

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