Talvez soe como uma justificativa para o imperdoável atraso na publicação, mas é a mais pura verdade. Hoje não era preciso escrever nada sobre o Flamengo. Vitórias como a de ontem prescindem de crônica, relato ou análise. Que por mais brilhantes que sejam seus autores acabam por aprisionar no limite da narrativa pessoal uma experiência sensorial essencialmente coletiva como são as vitórias épicas do Flamengo.
A vitória de ontem e a consequente classificação do Flamengo para a final do Copa do Brasil foram ainda mais intensas enquanto experiência sensorial porque se desenrolaram sempre à sombra de uma possível e temida tragédia. Tragédia é uma forma dramatúrgica surgida na Grécia clássica que envolve geralmente um conflito entre um personagem e instâncias superiores de poder, como os deuses, a lei, o destino ou a sociedade. Mas também é um ótimo sinônimo para catástrofe, desgraça, calamidade.
Na decisão da semifinal com o Goiás não faltaram nenhum dos ingredientes das grandes tragédias rubro-negras. O Maracanã repleto, a vantagem da derrota até por um gol, a ansiedade da torcida, a pressão descomunal por um resultado que pudesse redimir um ano de extremas dificuldades e um adversário inexpressivo. Não faltava mais nada para um Maracanazzo histórico.
E a torcida, sempre sábia, percebeu esse perigo. E como todo grande guerreiro faz quando sente medo, partiu pra cima do inimigo sem a menor hesitação. Porque ser Flamengo envolve uma irresistível atração pelo risco, um eterno desafio ao infortúnio e um completo desprezo à segurança e à estabilidade cultuados pelos medíocres. Ser Flamengo é tudo ou nada.
A partida em si foi diabólica para os nervos. O gol dos caras aos 4 minutos serviu como a última dose de uma vacina potente contra a desatenção e o salto alto. A torcida cantou sem parar e o time se jogou todo pra cima do Goiás, sem dar espaço e incendiando o povão. Golaço de Brocador e golaço de Elias nos permitiram deitar e rolar ao fim dos 90 minutos. Foi justo, mas foi estressante. Viver o Maracanã em noites como a de ontem é muito foda. Perdoem o meu mau francês.
Agora que estamos garantidos na final da Copa do Brasil, que a bem da verdade tem o mesmo valor que uma pré-Libertadores, é quando mais precisamos lembrar que o Flamengo ainda não ganhou nada. Que apesar da nossa já elevada moral estar ainda mais no alto, continuamos a ser um time que ainda tem muito a provar. E essa é a nossa maior vantagem para a final. Continuamos com sangue no olho e com fome de conquistas. Mas ainda bem que o risco da tragédia ainda ronda os céus rubro-negros. E o Flamengo continua faminto!
E essa fome só se aplacará com a conquista da nossa terceira Copa do Brasil. É só isso que nos interessa. Ainda temos essa droga de Brasileiro pra terminar. Putz, eu odeio esse certame. Mas tá tranquilo, ainda vamos fazer mais uns pontos e comemorar 5 gols do Hernane.
Fonte: Urublog


























