Se alguém ainda tem alguma dúvida pode conferir no vídeo-tape. Sob qualquer ângulo que se analise a primeira partida da final da Copa do Brasil se chegará fatalmente à conclusão de que o Flamengo foi heroico no pardieiro da Vila Capanema. O Flamengo, gigante pela própria natureza, foi obrigado a lidar com uma antes suspeitada, e agora plenamente confirmada, pequenez do adversário desde que chegou ao estádio, por sua vez completamente inadequado para receber uma partida de tamanha importância.
Assim como faltou concreto no estádio mambembe, muito menor do que deveria ser, ao Atlético faltou tudo que se espera de um time que almeja ser campeão. Faltou camisa e tradição para enfrentar o Flamengo de igual para igual, faltou coragem para partir pra cima do visitante, faltou confiança para impor seu próprio jogo e faltou apoio da sua torcida, amorfa, calada e pouco participativa depois que a bola rolou.
A verdade é que os sempre sensatos habitantes do Monte Parnaso da crônica esportiva nacional pintaram o nosso genérico paranaense como se ele fosse muito mais feio do que na realidade é. Sem querer esculachar, o que vimos em campo foi um time comum e bastante instável emocionalmente. Em bom português, um time pequeno.
Depois do nosso gol de empate, um canudo irretocável da lavra do ourives Amaral, rolou entre os genéricos, atordoados com a contundência daquela sapatada santa um momento John Lennon coletivo – o sonho acabou – e os caras perderam totalmente o ímpeto, que é de rigor pra quem manda o jogo. Um momento do qual os genéricos jamais se recuperaram.
E talvez nesse momento de inexplicável apagão anímico do Atlético tenha faltado ao Flamengo o desejo irreprimível de querer resolver tudo ali mesmo, no humilde campinho da província. E poderíamos muito bem telo feito, oportunidades não nos faltaram. Mas, ligeiramente horrorizados, vimos o Flamengo fugir à uma de suas mais caras características genéticas, a porralouquice de não pensar no dia de amanhã.
Emulando a própria personalidade ponderada e tiozona de Jayme, o Flamengo se portou com inaudita cautela e, salvo a bobeira generalizada que resultou no 1 x 0, extrema frieza durante os 90 minutos iniciais da decisão. Ainda que seja bastante esquisito pra nós que fechamos com o certo ver o Flamengo se portar assim, com método e organização, temos que admitir que o resultado obtido na antiga 5ª Comarca de São Paulo foi muito bom. Pra quem foi até lá preparado até para uma derrota, o empate com gols é para ser comemorado. Comedidamente, claro, mas podemos comemorar.
De uma maneira geral, e com as exceções de praxe, o time todo foi muito bem diante das circunstâncias. Bem postado em campo, principalmente nas suas linhas de defesa, o Flamengo em momento algum abandonou sua proposta de jogo. E notem que com as contusões de Chicão e André Santos perdemos de cara duas peças importantes no nosso esquema. Mas Samir e João Paulo entraram no time como se dele jamais tivessem saído. Tranquilos e taticamente obedientes, os dois seguraram a onda na defesa muito bem.
Agora, horas depois do embate, de banho tomado e após uma boa noite de sono, estou tranquilo, calmo e bastante satisfeito com o empate. Mas confesso que durante o jogo esbravejei algumas vezes por entender que o Flamengo deixava de aproveitar as inúmeras chances para fazer mais um gol que o Atlético nos concedia. Mas acabei me conformando, o destino não quis que a bola entrasse mais uma vez e agora vamos pra final com a decisão totalmente indefinida.
E vou logo avisando que sou desses que estariam com muito mais medo do próximo jogo se ontem tivéssemos conseguido vencer pela vantagem mínima. Conheço bem a mim mesmo e sei que seria impossível segurar a fanfarronice e o ôba-ôba que a vitória traria. E como conheço também um pouquinho do Flamengo e de seu inimitável torcidão aprendi que o ôba-ôba é o veneno mais letal que existe para as nossas altíssimas pretensões. Prefiro continuar assim, com o sapato apertado, mas seguro, por mais uma semana.
Ontem tivemos a confirmação que o Flamengo na Copa do Brasil, quando o assunto é futebol, não fica a dever nada a nenhum dos emergentes que vem brilhando na tabela do Brasileiro. O Flamengo passou rodo em todo mundo que apareceu na sua frente, jogando com o regulamento e sem jamais perder a humildade que o caracteriza.
Nem vamos mencionar os chamados valores imateriais; camisa, tradição, circunferência dos ovos, etc., para não soarmos exageradamente soberbos. A arcoíris pode ir preparando as desculpas de sempre, porque o TRI está ao alcance das nossas mãos. Os próximos sete dias serão os mais longos da história e, por bem ou por mal, nós teremos que descobrir a melhor maneira de atravessa-los.
A atuação da torcida do Flamengo em Curitiba foi irretocável. A simples presença de 1700 cidadãos de bem, fechados com o certo e extraordinariamente bem vestidos nas arquibancadas da Vila Capanema já seriam motivos suficientes para uma farta distribuição de medalhas Pedro Ernesto (a principal comenda da Mui Heroica e Leal Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro) a todos os integrantes do frenético bonde rubro-negro.
Incansáveis no apoio, cantando e gritando sem parar, esses titãs do rubro-negrismo, que mereceriam menção nominal se possível fosse, ainda foram obrigados a se defender da covardia dos torcedores atleticanos que ainda precisam sublimar através da violência barbara as frustações de torcer pra um time pequeno e sem tradição. Tem problema não, a chuva que cai em Curitiba cai igual aqui no Rio, de cima pra baixo. E a nossa festa no Maraca nenhum primitivo incapaz de conviver em uma sociedade plural vai estragar.
Parabéns, Flamengo. Parabéns, torcida do Flamengo. A vontade de gritar Deixou Chegar, Fudeu! é quase irresistível, mas ainda não é a hora. Estamos quase lá. O resultado que trouxemos do Sul é daqueles blindados, à prova de palhaçadinhas. Permaneçam todos em estado de alerta. Vamos continuar no sapatinho que a gente ganha mais.
Fonte: urublog


























