De um lado, o time de um clube que vem tendo uma sequência de boas gestões, com alguns momentos de alta, outros de baixa. Mesmo vivendo 2012 na Série B, o Atlético Paranaense atravessa um 2013 simplesmente excepcional no campo esportivo, enquanto as obras que vão tornar seu estádio melhor ainda do que já era se encaminham para o final.
Atlético-PR x Flamengo: Duelo de gestões em ano excepcional.
Do outro, o time de um clube marcado por uma longa sucessão de gestões entre desastrosas e uma meramente razoável, até o final de 2012. A nova gestão do rubro-negro da Gávea ainda não completou um ano e tem muito a mostrar, mas, inegavelmente, mudou o Flamengo para melhor. Manter-se na Série A do Brasileiro foi um resultado dos mais apreciáveis, levando em conta a combinação momento do clube/situação financeira. Chegar à final da Copa do Brasil, independentemente do resultado da disputa, é a cereja de um bolo que tinha tudo para ser amargo para o torcedor e acabou se revelando doce.
O ano de 2013, portanto, não importa o que aconteça nessa final, já é excelente para os dois clubes e, principalmente, para seus gestores.
Nesse post vou usar a avaliação financeira feita pelos especialistas do Banco Itaú BBA, trabalho que já teve sua parte inicial postada nesse OCE, numa série de posts. Nos próximos dias teremos a análise individualizada, clube a clube, da qual retiramos o que segue.
Ter disputado a Série B comprometeu as finanças do Clube Atlético Paranaense, que viu todas as suas receitas, exceto uma, caírem sensivelmente em 2012: Marketing, Bilheteria, Transferências de Atletas e Estádio – essa última prejudicada também pelas obras para a Copa do Mundo. Cabe aqui um destaque: a receita proveniente dos sócios caiu, também, mas muito menos que as demais, passando de R$ 10,2 para R$ 9,5 milhões.
A exceção nesse quadro de baixas – e na minha visão e palavras, a salvação do clube, deixando-o em boas condições para 2013 – foi a entrada em caixa do dinheiro dos novos contratos de cessão de direitos de transmissão, o “dinheiro da TV”, que cresceu 167%, chegando a um total de R$ 31,2 milhões, contra R$ 11,7 milhões em 2011.
A receita total do clube pulou de R$ 17,0 milhões para R$ 33,2 milhões, em plena disputa da Série B e do retorno à divisão principal de nosso futebol.
Em 2012 os Custos cresceram 28%, graças, principalmente, às despesas com salários e encargos. Esse aumento foi o responsável, provavelmente, pela antecipação de valores futuros de contratos num total de R$ 10 milhões, provavelmente de direitos de transmissão. Dois pontos tiveram fortes investimentos: Infraestrutura (obras na Arena da Baixada) e Elenco. (R$ 7 milhões).
Diante de tudo isso, retomo o que disse acima: o desempenho esportivo em 2013 foi, simplesmente, excepcional, fruto, sem a menor dúvida, de uma gestão extremamente competente e que fez a diferença.
A atual gestão do Clube de Regatas do Flamengo já foi abordada em alguns posts desse OCE, desde o final do passado. Naturalmente, como ocorre com qualquer ser humano, individual ou coletivamente, cometeu erros e teve acertos. O que chama a atenção, contudo, é sua honestidade, fazendo na prática o que diz em discursos. É comum políticos e dirigentes esportivos – entre muitas outras categorias – falarem muito sobre “gestão cuidadosa, pensar no futuro” e outras preciosidades e na prática, no dia a dia, fazerem exatamente o oposto. Pensando nos votos, pensando na imagem, pensando na glória efêmera de uma conquista, deixando enormes abacaxis para serem descascados por gestões futuras. É o que têm feito os dirigentes do Flamengo: descascado abacaxis, angariando antipatias e críticas tão iradas quanto sem sentido. Uma coisa é certa: o índice de popularidade não faz parte das preocupações desses dirigentes.
É impossível falar do Flamengo sem falar de sua dívida. O clube pisou em 2013 carregando um imenso e pesado passivo superior a R$ 700 milhões. Destaco aqui um comentário dos analistas do Itaú BBA: “…o balanço (de 2012) apresenta uma série impressionante de ajustes de exercícios anteriores, que montaram mais de R$ 300 milhões “.
Mais um comentário:
“Muitos desses ajustes conseguimos conciliar dentro das rubricas de ativos e passivos, mas ainda assim restaram R$ 75 milhões denominados “Movimentações no PL” para os quais não conseguimos ajustar o fluxo de caixa. Além disso, a forma de agrupamento das contas nas rubricas de balanço é simplesmente caótica, misturando contas de diversas características na mesma rubrica, de forma que, por exemplo, restaram saídas de caixa de R$ 19 milhões sem explicações de origem. Isto é ruim para a análise, mas ao mesmo tempo há que se entender que o clube está sob nova gestão e certamente estas movimentações fazem parte de diversos ajustes que visam regularizar os inúmeros problemas do passado.“
Chamo a atenção para o fato de que esses comentários foram escritos por especialistas gabaritados que trabalham numa das maiores instituições do setor. Acredito que dão uma boa ideia do que os dirigentes do Flamengo encontraram.
Embora tenha a maior torcida do Brasil, a receita do clube está muito longe de corresponder a essa realidade. Em 2012, com um total de R$ 212 milhões, ela foi a terceira maior, muito distante do Corinthians, em primeiro, e do São Paulo, em segundo.
Fecho esse post aproveitando mais um comentário da equipe de analistas que produziu o estudo Análise Econômico-Financeira dos Clubes de Futebol Brasileiros – 2012 e que traduz exatamente o que eu mesmo penso e tento passar nesse OCE, não só para o Flamengo, mas para todos os demais clubes:
“O que vemos é um clube buscando seu rumo, efetivamente. Mas para isto a torcida precisará ter muita paciência, o que não é comum no futebol. Especialmente porque muitos clubes tem um passado de conquistas às custas de atrasos de Impostos e Salários, que refletem na situação econômico-financeira hoje. Porém, o Torcedor quer continuar ver seu time vencendo, mas o cobertor é curto: ou põe a casa em ordem, ou busca títulos. Mas para buscar títulos atualmente precisa ter a casa em ordem.
Enfim, precisa se livrar do círculo vicioso para atingir o círculo virtuoso.
O Flamengo pode conseguir isto? Sim, porque tem torcida, tem receitas e atrai bons atletas. Mas vai sofrer um bocado até que a casa esteja definitivamente em ordem.”
Essa final é, acima de tudo, uma grande conquista das gestões dos dois clubes.
Fonte: Olhar Crônico
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