Lá vai o Zé Povão, pegar o trem, ficar espremido na multidão. O Zé Povão, não lembra? É o que sempre está lá, que canta quando é para chorar. Que chora quando muitos só vibram por uma conquista. Lá vai o Zé Povão, fedorento após trabalhar o dia inteiro. Vai direto para o Maracanã, não passa em casa para não chegar atrasado ao jogo. Abriu mão do abraço do filho para se entrelaçar a um desconhecido tão fedido quanto, amigos de infância há menos de um minuto.
Fim da linha para o Zé Povão no Flamengo.
Lá vai o Zé Povão, encara o Flamengo como uma religião. Canta até não ter mais voz, incentiva quando a derrota é certa. Orgulha-se do Brocador e pensa em botar o nome do artilheiro no próximo filho. Falta conhecimento para pagar o programa de sócio-torcedor. Não sabe quais os benefícios que pode ter se aderir. Lá vai o Zé Povão, para voltar só nas vacas magras, quando o time estiver no meio da tabela. Sobe a placa, substituição. Lá vem o João Camarote, que esperou a final para ir. Está cheiroso, arrumado. Para ele, torcer para o Flamengo no estádio é um evento esporádico, não algo comum. Está pagando bem para isso. Agregando valor.
Por mais que muitos tentem pregar apenas a racionalidade, o futebol sobreviverá enquanto houver romantismo, paixão.
Fonte: Lancenet
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