Há muitos que vêem o futebol como ciência, ou como matemática. Acham que tudo se pode prever, antecipar, ignoram o imponderável, o psicológico, não acreditam em peso de camisa, noção de “casa”, influência de torcida ou de qualquer fator que não entre fisicamente em campo. O Brasileirão e a Copa do Brasil 2013 dão a estes céticos cientistas dois bons exemplos do que pode acontecer quando se negligencia a tradição, a história, e a influência que esses fatores têm no resultado de um jogo ou na trajetória de um time. Refiro-me a Flamengo e a Náutico.
O Flamengo demorou, mas entendeu. O Náutico, não.
Sobre o rubro-negro eu já bato nessa tecla desde que os clubes voltaram a usar o Maracanã. Ali é a casa do Flamengo. Pode-se negociar o preço do aluguel, quem banca o que, tira-se daqui, soma-se dali… Mas o que não se pode discutir é que jogo com mando do Flamengo tem de ser no Maracanã. Já disse isso, e depois de ver a torcida em ação, em especial na Copa do Brasil (contra Botafogo e Cruzeiro), mas também no Brasileiro (por exemplo, contra Criciúma e Fluminense), e ver a empolgação dos torcedores numa inaceitável fila para comprar ingressos para o jogo contra o Goiás, não tenho nenhuma dúvida em repetir: o Flamengo não chegaria nem às quartas da Copa do Brasil se não mandasse os jogos no Maracanã. E no Brasileiro, estaria pertinho da zona do rebaixamento se fugisse de sua casa, e estaria na briga pela Libertadores de tivesse voltado ao estádio sem as escalas em Brasília. Enfim, a diretoria demorou, mas entendeu.
O Náutico fez o caminho contrário. Resolveu desfazer-se do estádio dos Aflitos, onde conquistou sua grandeza no futebol pernambucano, e resolveu mandar seus jogos na nova Arena. O resultado do time na Série A é de conhecimento público. Dirão os cientistas: “Ah, mas o Náutico já caiu jogando no Arruda.” “Ah, o Náutico já deixou de subir no Arruda”. ”Ah, se fosse isso o Náutico seria campeão estadual todo ano.” “Ah, com esse time o Náutico não subiria nem no Arruda”.As duas primeiras frases são fatos. Assim como é fato que o Flamengo não ganhou tudo o que já disputou no Maracanã desde 1950. A terceira, não poderia ser verdade porque o Sport tem uma casa, a Ilha do Retiro, e o Santinha tem o Mundão do Arruda.
Com relação à última argumentação “científica”, tenho muitas dúvidas. Com o campeonato equilibrado do jeito que está, o Náutico poderia, sim, se salvar. Ou, pelo menos, não seria rebaixado com sete rodadas de antecedência (isso na matemática, porque na prática já entrou o returno rebaixado). Se tirassem a Ponte do Moisés Lucarelli e o Criciúma do Heriberto Hulse, ambos já teriam caído também. Ainda lutam, com dignidade, porque têm uma casa.
Entendo a modernidade. Entendo o irrefreável impulso humano pela novidade, pelo novo, pelo “atual”. Mas avançar às cegas, ignorando o conhecimento, a experiência, é um risco desnecessário. Bonito fez o Palmeiras, que não mudou de endereço e terá um alçapão padrão século 21. Quase tão bem fez o Grêmio, que teve uma coragem inacreditável de ir embora do mítico Olímpico para entrar no futuro em outro endereço. Mas, ok, é em Porto Alegre, não houve tanta descaracterização, a arquitetura da Arena Grêmio facilita a pressão da torcida, o caldeirão continuará aceso.
Não dá nem para atirar pedras na diretoria do Náutico. A intenção é boa, quase louvável. Mas terá um preço. A Arena Pernambuco é neutra, o Náutico não tem tanta torcida – ou capacidade de mobilização da mesma – para enchê-la em todos os jogos. Até que o clube crie na Arena a identidade que tinha nos Aflitos (que, por ser menor, enchia mais facilmente), vai levar muito tempo, decepções, rebaixamentos, etc. Um dia ela será a casa do Náutico. Só resta saber em que divisão o time estará nesse dia…
Fonte: Entre as Canetas
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