A Teoria do Valor da Ruína é um conceito arquitetônico formulado por Albert Speer, arquiteto e principal cenógrafo do nazifascismo, que pegou 20 anos de cana em Nuremberg por usar trabalhadores escravizados em campos de concentração em suas obras monumentais para o III Reich. Nessa amalucada teoria os edifícios e monumentos deveriam ser construídos levando-se em conta a inevitável ação do tempo.
E Speers se referia ao tempo que se conta em milhares de anos. As construções deveriam ser planejadas para que fossem esteticamente agradáveis e belas quando se transformassem em ruínas em um futuro muito distante. Da mesma maneira que as ruínas egípcias, gregas e romanas testemunham o poderio de impérios do passado, as ruínas do que ele mesmo estava construindo nos anos 30, como a nova Chancelaria em Berlin e a Esplanada do Zeppelin em Nuremberg, seriam o testemunho do fausto do Reich.
Além de arquiteto, Albert Speers era um brilhante administrador, planejador e craque em logística. Sua teoria deixa claro que era daqueles administradores que trabalham sempre com o pior cenário possível. Nem todo mundo gosta de pensar dessa maneira, mas é um jeito de ver o mundo bastante popular. Até na torcida do Flamengo tem um monte de gente que adora pintar um cenário sombrio pro futuro do Flamengo no empolgante campeonato brasileiro por pontos corridoszzzz.
Há semanas que os matemáticos da terra trazem ao público estimativas científicas, com margens de erro não divulgadas, onde o Flamengo, nascido, criado e domiciliado na Primeira Divisão desde 1895, tem sido brindado com 1% e 0% chances de rebaixamento. Repetindo: 1 e 0% de chances de rebaixamento.
Um por cento eu até compreendo que pode ser um conceito matematicamente sofisticado para algumas pessoas, mas confio totalmente na universalidade da compreensão do zero. Todo mundo sabe quanto vale o zero. E ainda assim tem um monte de rubro-negro praticamente ateando fogo às vestes por causa de campeonato brasileiro.
Tudo bem que tem gente que gosta de sofrer. Mas pra alguém estar em pânico com o Brasileiro não basta o cara ser pessimista, ele tem que amar o pior cenário como se fosse o próprio cenógrafo do caos. É preciso ter verdadeira fé no Curupira para acreditar que os oito times que estão abaixo de nós, com chances de rebaixamento percentualmente muito maiores, times que passaram 35 rodadas do campeonato de sacanagem, justamente nas últimas 3 rodadas vão conseguir uma diabólica combinação de resultados cujo único objetivo é rebaixar o Flamengo. Tá bom, senta lá, Cláudia.
Eu pergunto a vocês, e não é uma pergunta retórica, não sei mesmo e quero muito saber a resposta. Existe algum precedente histórico de algum time que estivesse com 1, 2 ou 3% de chance de rebaixamento na rodada 35 de um campeonato com 38 rodadas efetivamente cair? Isso já aconteceu antes no campeonato brasileiro por pontos corridos? Em algum campeonato do mundo? Nessa era geológica? Por favor, quem tiver a resposta não deixe de dividi-la conosco nos comentários.
Quando algum jogador dá uma declaração marrenta, esbanjando confiança e positividade todo mundo cai de pau no cara por não ter mostrado humildade. E repetimos pela enésima vez que falador passa mal, que futebol se joga no campo, entre outras platitudes que evocam a pureza da vida simples e morigerada dos chatos. E após essa peroração sobre as vantagens do perfil baixo sempre vem a conclusão gloriosamente óbvia de que a torcida pode ser atrevida e provocativa, mas jogadores e dirigentes jamais.
Portanto, parece justo concluir que quando o torcedor se comporta como um administrador pessimista e mala, prevendo os piores cenários e espalhando sofrimento antecipado em nome de uma remota possibilidade de insucesso, mereceria reprimenda equivalente à dispensada ao jogador boquirroto.
Afinal, torcedor também tem suas responsabilidades. Torcedor tem que ser fanfarrão, provocativo, confiante, pensar sempre no melhor cenário possível, citar a longa e perfeita combinação de resultados que vem mantendo o Mengão no topo da lista da elite do futebol nacional há séculos e arrematar grandiloquente que time grande não cai, seu buxas!
Porque jogos de futebol, como todos os jogos, se vencem com a mente. E a pressão psicológica que oprime os derrotados se inicia do lado de fora do campo, com a torcida tocando o terror, insuflando os fortes e amedrontando os débeis. É essa energia, quando multiplicada por milhões, que chega até nossos mulambos envoltos nos sagrados panos vermelho-e-preto entram em transe místico e nos trazem taças como se fossem o Graal.
Chega de coitadismo! Chega de dar moral pros alemão! Vamos parar de pensar em ruínas e tratar de construir alguma coisa primeiro. O Flamengo está diante dos dois jogos mais importantes do ano e precisa que a torcida se concentre no que é importante e pare de desperdiçar energia com problemas de menor relevância no momento. Agora é Flamengo x Genéricos Verticais e qualquer outro assunto é desvio de foco e deve ser eliminado ainda na raiz. Quem estiver realmente preocupado com o Campeonato Brasileiro pode escrever para a [email protected]. Ou telefonar para (0XX21) 3722-0230.
Vamo lá, mulambada, agora é decisão. Não se assovia e chupa cana ao mesmo tempo e agora não parece ser a melhor hora para continhas. E, cá pra nós, contas nunca foram o nosso forte. Deixa as contas pros pequenos. Agora é hora de torcer pelo Flamengo e sufocar o Atlético, o Paraná, o País e o Mundo com a nossa confiança inabalável nos poderes do Flamengo. É nisso que somos bons, é nisso que somos os melhores.
Fonte: Urublog


























