Uma pesquisa divulgada semana pesquisa – encomendada pela Clave de Fá Pesquisas e Projetos, com consultoria da Aham Comunicação Interativa e da Plus Marketing – mostra números que já haviam sido exaustivamente comentados por aqui. Mostram uma realidade para mim muito incômoda, mas que é bom que retratada em números porque há muitas vozes discordantes que só enxergam a realidade pela tela de uma calculadora. A pesquisa traçou um perfil do público que foi ao Maracanã acompanhar a final da Copa do Brasil entre Flamengo e Atlético-PR.
Algumas das conclusões: em relação à renda familiar, a maioria dos presentes (69%) declarou ganhar ao menos seis salários mínimos (cerca de R$ 4 mil). Os torcedores que recebem até um salário mínimo (R$ 678) representaram 2,2% do público. A escolaridade também foi avaliada. Foram 37% de torcedores com o nível superior completo, e 21% com o nível médio completo. De acordo com o levantamento, 9% cursaram o ensino fundamental. Outra: quase a metade do público mora fora da capital do Rio. Foram 11% viajando do Paraná e 25% de outros estados. Donde se conclui que é mais fácil para alguém mais abastado de fora do Rio comprar ingresso do que um rubro-negro carioca e pobre fazê-lo.
Os números são claros: existe, sim, uma elitização em curso e que está próxima de se tornar irreversível – e, como o passar das décadas, pode acabar com o futebol como ele existe hoje – deixando de ser uma paixão para ser uma atividade igual a uma ópera, um cinema, um teatro. Se os defensores dos preços altos acha que é justa a divisão de classes sociais que se viu no Maracanã, então não há como argumentar porque eu parto de uma premissa inicial diferente.
Futebol, para mim, é paixão, é comida. Para criar esse conceito, frequentei durante década a geral do Maracanã, embora felizmente tivesse recursos para ir de arquiba. Lá vi centenas de histórias, das mais variadas origens, de gente que deixou de comer ou de comprar pão e leite em casa para ir ver seu time. Nunca vi ninguém ir ao cinema ver filme ruim, ou ópera ruim, ou peça ruim, ou show ruim, para dar uma força aos atores, ou torcer para o diretor ganhar dinheiro. Mas o que mais existe é torcedor indo a campo independente dos jogadores para ajudar seu time a não cair. Ninguém torce pra cinema, torce pra time. E ainda paga para isso. Pra mim, futebol é gênero de primeira necessidade. E como tal, deve ser para todos, e não apenas para quem ganha mais de um salário mínimo.
Por isso gostei de que houvesse uma pesquisa sobre tudo isso. Os números são democráticos, cada um faz deles a leitura que quer. E viva a democracia de pensamento.
Fonte: Entre as Canetas



























