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O pior dia da história do Fluminense!

Coluna do Flamengo
Coluna do Flamengo
Publicação: 18/12/2013
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Atualização: 23/01/2015
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Pedro Malan foi ministro da Fazenda durante o governo FHC, e talvez você se pergunte por que raios um texto num site de esportes começa com o nome de um economista. Bem, vamos lá. Além de torcedor do Fluminense, Malan tem uma frase excelente sobre o país que vai muito além de Brasília e suas miudezas. Quando era ministro, Malan vivia reclamando das longas e tardias sentenças da Justiça que, finalmente, decidiam sobre assuntos que tinham mais de dez anos de idade. Essas medidas tinham sérias implicações para o presente porque, no final das contas, mudavam o passado – e o tamanho das despesas do governo federal. Num momento de iluminação, o ex-ministro teria dito que, no Brasil, até o passado é incerto.
No Brasil eu ainda tenho lá minhas dúvidas. Mas no futebol brasileiro, sim, com certeza: até o passado é incerto. Na tarde de ontem, o Fluminense abriu a terceira porta do pesadelo. A decisão da Justiça vai muito além de jogar ou não jogar a Série A em 2014. Ao ser mantido na primeira divisão por um erro da Portuguesa, por um regulamento para lá de duvidoso e pela força dos seus advogados, o Fluminense vai se firmando como um clube mais vitorioso fora do que dentro dos gramados. O Fluminense vai se firmando como um clube que muda o passado em vez de construir um presente. E as consequências podem ser terríveis para o clube. Em campo, o Fluminense foi mais rebaixado do que a Portuguesa.
No começo dos anos 1990, quando comecei a entender o que era futebol, o Fluminense era um grande time brasileiro que, tal como outras equipes ao longo da vida, estava tendo alguns anos ruins. Mas era um dos poucos times cuja história se confundia com a da seleção brasileira, era amado por torcedores admiráveis e era uma camisa vestida por alguns dos principais jogadores da história do país. A partir das viradas de mesa do final dos 1990, outra face do Fluminense emergiu. O clube vitorioso em campo, pela força dos seus jogadores, passou a acumular vitórias – agora pela força dos seus torcedores ilustres, das relações que construiu e das chicanas executadas com maestria nos tribunais. A imagem do presidente do clube comemorando com champagne foi a mais poderosa bala que o Fluminense atirou contra si mesmo: um presidente comemorando incompetência e malandragem, algo absolutamente distante dos esquadrões que o time montou em sua história.
Na metade dos anos 2000, o time conseguiu ganhar musculatura, voltou a disputar títulos e estava fazendo um excelente trabalho de mudança de imagem. Criou a mística do time de guerreiros pelas batalhas da Libertadores, pela forma heroica como escapou do rebaixamento em 2009 e pela superação que resultou no título de 2010. O Fluminense estava conseguindo, aos poucos, retomar a sua história: o time dos tapetes caríssimos dos tribunais esportivos voltava a ser um time de futebol encantador. Até que veio a tarde desta segunda-feira, 16 de dezembro de 2013. O dia em que o Fluminense perdeu o controle sobre a sua história. O pior dia da história do Fluminense.
Afinal, nos momentos mais difíceis, quando tudo parece conspirar contra um time, o passado conforta e dá energias para seguir adiante, crescer e superar os problemas. Quando um time de futebol perde sua história, ele perde tudo.
Embora haja argumentos legítimos para manter o time na primeira divisão em 2014 (embora eu discorde de todos eles, deixo claro), o julgamento escancarou que algo vai mal, muito mal nas Laranjeiras. Primeiro o Fluminense perdeu os jogos. Depois, a vergonha, ao dizer que não tinha nada a ver com a punição à Lusa e, pouco tempo depois, se inscrever como parte interessada no julgamento. Mas o pior de tudo foi a torcida ir até o tribunal e comemorar uma decisão da justiça esportiva como se fosse um título. É um rebaixamento moral, uma falta de compostura que envergonha todos os títulos conquistados heroicamente, dentro do gramado, por craques da estirpe de  Marcos Carneiro de Mendonça, Preguinho, Ademir Menezes, Didi, Romeu, Rivellino, Edinho, Carlos Alberto Torres.  Antes, era possível dizer que a falta de pudor era restrita aos cartolas (eu sou palmeirense e sei bem o quanto é duro conviver com cartolagens capazes de afundar um clube até os confins da Fossa das Marianas).
A imagem de ontem é mais poderosa do que a imagem da champagne porque ela mostra que o problema não está restrito a uma pessoa ou a uma administração, mas a um jeito de torcer pelo Fluminense que, aos poucos, foi se tornando majoritário no clube: se não dá para vencer em campo, vencemos fora do campo. Hoje, parece coisa pouca. Não é. Cada capítulo da história do Fluminense vai ser lido, de agora em diante, com a sombra da desconfiança. Cada título do passado e cada conquista do futuro vão vir acompanhados de um asterisco. O Fluminense, aos poucos, está perdendo o direito de contar sua própria história. Já que nem os torcedores a respeitam, ela então passa a ser disputada por todo mundo. De agora em diante, em vez de admiração, os grandes esquadrões que o clube montar vão ter de pagar pelos erros cometidos no passado. Em uma variação da frase de Malan, no Fluminense, até o passado é incerto.
Afinal, nos momentos mais difíceis, quando tudo parece conspirar contra um time, o passado conforta e dá energias para seguir adiante, crescer e superar os problemas. Quando um time de futebol perde sua história, ele perde tudo.
Há esperanças para o Fluminense? Sempre há. Mas ela passa por mais jogos difíceis e heroicos contra o time de bombeiros pela série C do que pelas arguições dos seus advogados no STJD.  Porque um grande time, amigos, precisa ser educado pela pedra, como no poema de João Cabral de Melo Neto:
A educação pela pedra
Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.
*
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.
Fonte: 4-3-3
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