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Rodrigo Bueno: No mundial, os Clubes brasileiros são incógnitas.

Coluna do Flamengo
Coluna do Flamengo
Publicação: 21/12/2013
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Atualização: 23/01/2015
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Tente pensar um pouco em como os estrangeiros veem os clubes brasileiros. Convido você a fazer essa reflexão após essa surpreendente (será tanto assim?) derrota do Atlético-MG para o Raja Casablanca. Vamos partir da premissa de que os clubes brasileiros em geral são pouco conhecidos no exterior. Sejamos justos, quase não tem camisa de time brasileiro sendo vendida lá fora, não é comum encontrarmos estrangeiros vendo jogos do Brasileiro pela televisão no exterior e por aí vai. Quem é europeu, africano, asiático ou oceânico conhece muito time brasileiro quando é época de Mundial de Clubes, mais ou menos como fazemos no Brasil. Generalizando, só acompanhamos mesmo o Raja Casablanca, o Al Ahly, o Auckland e outros durante esses poucos minutos de fama que eles ganham no torneio da Fifa. Nossos vizinhos na América Latina conhecem mais nossos clubes, claro, por conta das competições da Conmebol, mas mesmo assim se surpreendem muito quando encontram um Paysandu, um “Paranaense”, uma Ponte Preta ou mesmo um Atlético-MG e um Botafogo (grandes que jogam não tão frequentemente a Libertadores). É a dura realidade.
Qual jogador do Galo é muito conhecido dos estrangeiros? Ronaldinho! Qual jogador do Fogão é muito conhecido dos gringos? Seedorf! Claro, eles foram estrelas no futebol europeu. Os clubes brasileiros podem viver boa fase em território nacional e até esporadicamente em torneios da Conmebol, mas eles têm pouco apelo mundial. Vimos neste ano a adoração dos jogadores do Raja e de torcedores de muitos países com Ronaldinho, não com o ótimo Galo em si. Agora imagine-se como um editor de um jornal europeu e tente apresentar a seus leitores os destaques dos times brasileiros nos Mundiais. São coisas muito esporádicas.

Em 2005, certamente Rogério Ceni era vendido como atração por ser um goleiro-artilheiro (a Europa diz que isso é coisa de sul-americano mesmo…), mas isso não quer dizer que Rogério fosse muito popular até então na Europa e em outros continentes. E quem sabia o que era Lugano, tirando os sul-americanos? Em 2006, quem conhecia para valer mesmo Fernandão e Pato além dos brasileiros? E em 2010 o Inter “mostrou” ao mundo o argentino D’Alessandro (é mais ou menos como o Guangzhou Evergrande mostrar ao mundo o Conca), além de um Oscar molequinho e um Leandro Damião recém-saído da várzea.

O Santos chegou badalado ao Mundial para os padrões atuais do futebol brasileiro. Isso porque tinha Neymar, um candidato a melhor do mundo que o Brasil entendia em 2011 ser páreo para Messi. Não era, estava longe disso, e a goleada na final foi um choque de realidade para ele, para Muricy, para o Santos e para o nosso futebol. No ano passado, o jogador mais conhecido do Corinthians mundo afora era um peruano. Guerrero tinha feito boa trajetória na Europa, era mais globalizado que Sheik, Danilo, Douglas e Paulinho, uma surpresa que o mundo conheceu bem melhor na Copa das Confederações e no Tottenham.
Onde eu quero chegar com essa reflexão? Boa pergunta. Será que não zombamos e minimizamos demais alguns times que pouco conhecemos de outros continentes? Será que não supervalorizamos demais alguns de nossos melhores times, que na verdade agrupam bons jogadores mas não craques no auge de suas carreiras? Eu responderia sim para essas duas perguntas.

Quando o Corinthians encarou de igual para igual o Chelsea e derrotou o campeão europeu (o pior campeão europeu dos últimos tempos, diga-se não de passagem), ouvi aqui e acolá que a diferença entre os times brasileiros e os times europeus não é grande, que há um nivelamento entre os melhores times dos dois continentes. No ano anterior, o Barcelona havia mostrado algo bem diferente, mas o timaço histórico de Guardiola e Messi foi colocado como exceção, como fora da curva, como algo de outro planeta. Neste ano, creio, não haveria um 4 a 0 para o Bayern mas também não sairia vencedor o time sul-americano, a zebra. Isso mesmo, os sul-americanos são menos cotados hoje em dia, pois perdem muito em dinheiro e em craques para os melhores times da Europa, quase sempre potências.
Comparamos muito nossos melhores times com os melhores da Europa. Ignoramos até os clubes de médio porte do velho continente, clubes que são mais parelhos com os nossos atualmente (me refiro aos elencos, não à história e à tradição). Por que não comparamos nossos melhores times com os melhores da África, por exemplo.

Vejamos como é o retrospecto do confronto entre times brasileiros e africanos em Mundiais de Clubes: três vitórias brasileiras (2 a 0, 2 a 1 e 1 a 0) e duas vitórias africanas (2 a 0 e 3 a 1). Veja que os times brasileiros fizeram seis gols nos africanos e levaram seis gols. Há um equilíbrio grande, algo que deve ser inesperado para boa parte do mundo. O Brasil é o país do futebol, mas os clubes brasileiros não são os maiorais do futebol atualmente. Antes, quando até os gigantes europeus tinham poucos estrangeiros, havia um equilíbrio entre os melhores de América do Sul e Europa.

O Santos de Pelé manteve suas estrelas por muito tempo e enfrentou rivais mais nacionais (Benfica e Milan eram formados basicamente por jogadores do próprio país). O cenário continuou até os anos 80 (Flamengo e Grêmio campeões do mundo) e perdurou até o começo dos 90 (São Paulo bicampeão mundial).

Na era do Mundial da Fifa, disputa que veio depois da Lei Bosman, aumento o abismo entre Europa e resto do mundo. E a exportadora América do Sul não só perdeu terreno para a Europa como viu o crescimento de várias forças em outros continentes. Al Ahly, Raja Casablanca e Mazembe são exemplos de clubes muito tradicionais na África. São os Bocas, os Peñaróis ou os Olimpias de seus países. E podem sim encarar hoje times brasileiros de peito aberto, como o Raja fez com o Galo. O time marroquino não só apenas venceu, mas convenceu, podia ter aberto boa vantagem no primeiro tempo.

E qual é a análise que fazemos no Brasil? O Atlético-MG não jogou nada, foi a pior partida da vida de todos os jogadores do time e de seu técnico, um “burro” na hora mais importante. Mal damos mérito ao adversário, que havia mostrado qualidades, argumentos e alguns bons jogadores nas partidas anteriores que fez no Mundial. Será que ninguém aqui tinha visto o Moutaouali, o El Hachimi, o Karrouchy e o Iajour? São jogadores que poderiam atuar em times brasileiros. Talvez não fizessem muita coisa aqui assim como os jogadores da LDU campeã da Libertadores pouco fizeram no Brasil, mas eles funcionam bem com a camisa do Raja, são capazes de complicar muito para o campeão da América do Sul.

Não dizemos todo ano que a final do Mundial é “apenas um jogo” e que por isso o time brasileiro, bem armado e fazendo um jogo correto, pode vencer mesmo sendo inferior tecnicamente? Pois bem, um time africano pode vencer também “apenas um jogo” contra um grande brasileiro. No caso do Raja então havia a vantagem de jogar em casa. Por isso coloco o feito do Mazembe contra o Inter ainda acima da façanha do Raja Casablanca contra o Galo. Estava no Morumbi quando o Raja perdeu de 2 a 0 do Corinthians em 2000 e o árbitro validou um gol que não aconteceu do Timão (Fábio Luciano chutou no travessão, e a bola não entrou). Era o primeiro Mundial com times de todos os continentes e isso tornou os participantes menos conhecidos como incógnitas ainda maiores. Ninguém sabia ao certo como um Raja se portaria diante de um dos maiores times da história do Corinthians no Morumbi. E se portou muito bem, saiu derrotado sem dar vexame e sendo prejudicado.

Passaram-se 13 anos e, no primeiro Mundial de Clubes na África, o time do país-sede foi à final com mérito. Os clubes brasileiros não evoluíram muito, os africanos também não estão milionários. Mas dá jogo entre eles, sempre deu em Mundial. Os clubes brasileiros são grandes incógnitas no torneio. Podem dobrar os favoritos europeus de forma suada ou podem perder de times africanos que suam muito. Essa é a realidade.

Eu disse no FOX Sports Rádio no dia de Raja x Atlético-MG que o jogo seria 2 a 1 para o Galo com sofrimento até o fim. Fui contra a corrente e mal fui levado a sério. Acho que no ano que vem eu e os times africanos seremos levados mais a sério. Como se sairá o campeão da Libertadores no Mundial? Eis uma grande incógnita.
Fonte: Blog do Rodrigo Bueno
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