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Os desafios de Jayme para não repetir Carlinhos e Andrade no Fla.

Coluna do Flamengo
Coluna do Flamengo
Publicação: 17/01/2014
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Atualização: 23/01/2015
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Quando o desacreditado Flamengo de Jayme de Almeida conquistou a Copa do Brasil 2013 foi impossível não traçar paralelos com Carlinhos e Andrade, outros ex-jogadores e técnicos interinos. Também vencedores.
Em comum, o jeito humilde e tranquilo. Principalmente, a vivência do clube e a capacidade de transmitir calma e confiança a grupos criticados dentro da panela de pressão que é a Gávea.
Perfeito para aquele momento. Em 2014, com vaga na Libertadores e contrato renovado, os desafios de Jayme são outros. O grupo tem a moral de um título importante, mais serenidade e tempo para se preparar. Sem incêndio para apagar. Mas um time para rearmar.
Com novas metas, a postura também precisa ser diferente. Exatamente para não cometer os pecados dos outros dois treinadores campeões.
Em 1987, o Carlinhos “Violino” – apelido dos tempos de jogador, pelo estilo clássico atuando como volante – assumiu um time que precisava resgatar a auto estima dos veteranos e dar confiança aos jovens que precisavam jogar para equilibrar experiência e vigor físico. Encaixou os garotos Leonardo, Aílton e Zinho no time de Leandro, Edinho, Andrade e Zico. Manteve Zé Carlos, Jorginho e Bebeto, deu liberdade total a Renato Gaúcho e conquistou a Copa União.
No ano seguinte, a necessidade de encontrar um substituto para o Galinho era clara. Assim como qualificar elenco repleto de lacunas. Carlinhos apostou em Flávio, Luis Henrique e Henágio na reposição do meia de ligação do 4-3-1-2 rubro-negro.
Conquistou a Taça Guanabara com dificuldades -graças à vitória por 1 a 0 sobre o Vasco no famoso jogo do “apagão” da primeira rodada, com o time cruzmaltino se recusando a disputar os 23 minutos restantes no Maracanã após o retorno da energia elétrica.
Contou com Zico em alguns jogos, mas perdeu o returno com campanha pífia. Na decisão, uma mudança tática insólita para o 4-3-3 com Alcindo atuando com a camisa dez, mas aberto no lado esquerdo, alternando com Renato. Sem criatividade no meio-campo, foi derrotado duas vezes pelo Vasco de Geovani e Romário e amargou o segundo vice-campeonato regional. Fracasso na reconstrução do grupo e afastamento do cargo de treinador.

O retorno em 1991 apresentava outro cenário: Vanderlei Luxemburgo deixara o clube reclamando da falta de estrutura, mas com base montada e a grande sacada tática: para encaixar Júnior, que não tinha a combatividade de um volante mas precisava armar o time de trás e não avançado como um típico camisa dez, o treinador escalava pontas que voltavam para marcar.
Paulo Nunes e Nélio foram os escolhidos por Carlinhos. De novo equilibrando a bagagem de Gilmar, Charles Wilson Gottardo, Uidemar, Júnior, Zinho e Gaúcho com a juventude de Junior Baiano, Piá e os dois ponteiros. Sem contar os demais da geração campeã da Taça SP de 1990: Fabinho, Marquinhos, Marcelinho, Djalminha e Luiz Antonio que ajudaram a conquistar a Taça Rio e o Estadual.
Em 1992 não foi preciso reformular o elenco e apenas o atacante Toto foi contratado para a reserva de Gaúcho e Julio César chegou para ser opção como meia. Adepto do 4-4-2, Carlinhos tentou adequar o time ao esquema tático, mas derrotas que quase custaram a vaga na fase final e uma conversa com os líderes do elenco fizeram o treinador voltar ao 4-3-3. Com Julio César na ponta direita, o Flamengo desacreditado chegou ao título brasileiro.
Perdeu o Estadual sem Maracanã para o Vasco campeão invicto no segundo semestre e não soube repaginar time e elenco para a disputa da Libertadores 1993. O “Violino” teria ainda uma passagem pouco notada em 1994 para só retornar em 1999.
De novo para liderar e transmitir confiança a elenco desacreditado. Armou a equipe em função de Romário, no típico 4-2-2-2 da época. Mas soube lidar com a ausência do craque e artilheiro lesionado na decisão do Carioca com o gol de Rodrigo Mendes.
Na conquista da Mercosul, o grupo limitado soube lidar com a dispensa de Romário por indisciplina. Carlinhos promoveu o jovem atacante Reinaldo que formou com Leandro Machado a dupla de ataque municiada por Iranildo no 4-3-1-2 que superou o poderoso Palmeiras de Luiz Felipe Scolari em duas finais eletrizantes – vitória por 4 a 3 no Maracanã e empate em 3 a 3 no Parque Antártica.

Carlinhos comandou a equipe no primeiro título internacional relevante do Flamengo desde o Interncontinental de 1981 já demitido. Paulo César Carpegiani estava contratado para comandar o Fla no início de 2000. Os 5 a 1 com chocolate no domingo de Páscoa impostos pelo Vasco (de Romário) na decisão da Taça Guanabara fizeram a diretoria bater de novo na porta do “Violino”.
À vontade na função de “bombeiro” com um grupo que conhecia, o técnico repaginou o time num 4-2-2-2 funcional que faturou o returno e atropelou o Vasco na primeira decisão: 3 a 0. Grande atuação de Athirson, craque daquela edição do Estadual que tinha liberdade total pela lateral-esquerda com a cobertura de Mozart. Os 2 a 1 no jogo final foram um mero protocolo para a conquista do bicampeonato.
No segundo semestre, altos investimentos da nova patrocinadora ISL: Gamarra, Alex, Edilson e Denilson. E Carlinhos novamente teve dificuldades para remontar a equipe, além de uma certa timidez para lidar com as estrelas que não o conheciam nem se entendiam. Time sem padrão e formação definida, que nunca conseguiu reunir todos os craques. Campanha pífia no Brasileiro e demissão em sua última passagem pelo clube. De positivo, apenas a promoção de Adriano aos profissionais.

Andrade teve sua primeira oportunidade como treinador efetivo em 2004 e ajudou o clube a escapar do rebaixamento. Fracassou na mesma missão no ano seguinte, deixando o “milagre” para Joel Santana em nova recuperação surpreendente.
Em 2009, com elenco mais forte, a serenidade foi útil para amansar Adriano, fazer Zé Roberto levar a carreira mais a sério e resgatar o veterano Petkovic no surpreendente título brasileiro.
No ano seguinte, com a chegada de Vagner Love as perspectivas eram ainda melhores. Mas o treinador não teve pulso firme para conter o temperamento explosivo do meia sérvio nem a inconstância psicológica do Imperador. Assim como Carlinhos em 1988, falhou na reposição do meia criativo com Vinicius Pacheco. Aírton e Zé Roberto também não tiveram substitutos à altura.
Taticamente, saiu do 4-2-3-1/4-4-1-1 da conquista nacional para um 4-3-1-2 que falhou no Estadual e na primeira fase da Libertadores. Demissão e ostracismo como treinador até hoje.

Em comum, a calma e a fala mansa que funcionaram em um primeiro momento mas contribuíram para fragilizar o comando quando o trabalho exigiu uma outra postura. Ficou também a impressão de que faltou conteúdo, uma formação mais sólida como treinador.
Em 2014, Jayme se depara com a missão de reestruturar um time que hoje não conta com seus dois pilares no meio-campo: Elias e Luiz Antonio estão fora dos planos, ao menos para este início de temporada. Não por acaso a diretoria investiu em jogadores do setor: Feijão, Elano, Everton e o argentino Lucas Mugni. Nenhum com estilo ao menos parecido. Muralha, de volta ao clube depois de longa inatividade, deve ganhar oportunidades neste início. Incógnita.
Por outro lado, o treinador ganhou o lateral direito Leo para a reserva de Leonardo Moura e o zagueiro equatoriano Erazo. Com a permanência de Hernane, tem Alecsandro como um reserva com as mesmas características e a experiência de dois títulos de Libertadores como “plus”. Outra boa notícia é que o time não deve precisar tanto de Carlos Eduardo como na temporada passada.
Por ora, é difícil vislumbrar uma formação titular. Elano ocupa o lado direito, Everton e Lucas Mugni o esquerdo. Mas Paulinho precisa jogar, pela ótima reta final de Copa do Brasil e por ser fundamental sem a bola e dar profundidade às ações ofensivas. Amaral deve seguir como volante mais plantado e o “Brocador” Hernane é absoluto no centro do ataque. A zaga deve ter boa disputa entre Wallace e Chicão do lado direito e Erazo e Samir à esquerda.

Certo é que Jayme de Almeida vai precisar se firmar de fato como treinador. Que planeja e executa, sem a aura de “bombeiro”. Sabendo a hora de mudar e também dosar carinho e cobrança. Carlinhos e Andrade tropeçaram. Como será o amanhã de Jayme e do Flamengo?
Fonte: Olho Tático
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