O tenista Rafael Nadal deu o pontapé inicial do clássico no Maracanã.
E ficou para assistir o jogo.
Apaixonado por futebol, provavelmente fez perguntas sobre a partida ao saber do convite.
Obviamente, queria saber se valia a pena.
Se eu tivesse convidado o Nadal para ir ao Bicudão, a casa do Autônomos, time de várzea do qual sou técnico, para ver nosso duelo adiado por causa da chuva que transformou o esburacado terrão ao lado da favela num lamaçal escorregadio e cheio de enormes poças d’água, contra o Acadêmicos, ele recusaria.
Foi ao neo-Maraca porque alguém contou, se ele ainda não sabia, que se tratava de um confronto com 91 anos de história entre clubes gigantes do Brasil, ambos cariocas, e apelidado de clássico dos milhões graças a enorme quantidade de pessoas que leva ao estádio.
Também citaram a lista de craques que vestiram as camisas das equipes.
No lugar do Nadal, eu ficaria ansioso pela oportunidade de ver tudo isso de perto.
A expectativa do detentor de 8 títulos em Roland Garros, 2 em Wimbledon, 2 no US Open e um no Aberto da Austrália deve ter sido enorme.
Com agenda lotada e vivendo sob constante pressão, a oportunidade de acompanhar qualquer clássico no país de cultura diferente da que estamos acostumados é sempre um momento especial.
Eis que ela chega ao neo-Maraca e vê algo totalmente diferente do esperado.
Um local com míseros 13,245 pagantes, sem a tensão de um clássico fora de campo, tecnicamente bem abaixo do padrão que o tenista está acostumado nos duelos entre Barcelona e Real Madrid, e com a aberração da arbitragem que não validou o gol do Douglas.
Gentil, se referiu ao estádio como “mítico” assim que pisou nele, apesar do Maracanã digno de tal fama ter sido destruído em nome da Copa do Mundo
O que Nadal vai falar aos amigos próximos depois da experiência chocha?
Prefiro nem pensar .
Aliás, tanto faz a opinião dele. O problema é outro.
Precisamos nos preocupar com nosso quintal.
Estamos cada vez mais acostumando a conviver com situações tristes como a de domingo.
Elas são comuns em clássicos por todo o país.
Mesmo assim, continuam tentando nos vender a ideia de que a elitização e o estádio de luxo feito com dinheiro público são o único bom caminho.
Posso estar enganado, não sou dono de verdade, mas se conseguirem completar a lavagem cerebral na população e transformarem a maior paixão nacional em produto pasteurizado para o consumo, nunca mais teremos nos estádios a deliciosa tensão que a massa exalava da arquibancada nos confrontos de grande rivalidade.
A vivência de um clássico no estádio, mesmo se continuar interessante sob os novos, frios e moralistas padrões, jamais será intensa como era nos velhos e bons tempos.
Estou longe de ser saudosista, porém me entristece profundamente a constatação que os interesses comerciais de poucos estão matando a possibilidade de as novas gerações sentirem o prazer que fez do futebol a maior expressão cultural do país e a festa do povo.
Sem hipocrisia
Antigamente também havia clássicos sem grande público, em especial depois do crescimento da violência.
Mas não era tão comum.
E o público dos jogos, fosse grande ou pequeno, era mais participativo, criativo, e menos formal que o de hoje.
Curiosidade
Em 1976, o Flamengo derrotou o Vasco por 3×1 diante de 174.770 pessoas.
Dois anos antes, eles empataram sem gols e o público foi de 165.538.
Em 1981, 161.989 foram torcer em Flamengo 2×1 Vasco.
Aviso aos bairristas problemáticos
Peço licença a maioria dos leitores do blog para deixar um aviso aos bairristas problemáticos, que são a ínfima minoria dos frequentadores deste espaço e costumam interpretar os posts de uma forma que justifica para si mesmos o aumento do peso do toque no teclado e descarrego do ódio nos comentários.
Qualquer pessoa capaz de entender textos simples sabe que este post se refere ao futebol brasileiro, não ao carioca.
A situação de domingo demonstra um problema do futebol nacional, não especificamente do estado do Rio de Janeiro.
Fonte: Blog do Birner



























