O Flamengo teve 40 dias para se reinventar. Ney Franco é um treinador experiente, vivido. Não fosse o envolvimento de Ricardo Teixeira com a ISL e a obrigação de se demitir da CBF, Ney seria hoje o treinador da Seleção Brasileira. Mano Menezes trabalharia até a Copa e depois deixaria o cargo para o homem que comandava a base.
Só que planejamento copiado, por coincidência, da Alemanha implodiu. Ney foi para o São Paulo, depois Vitória e finalmente Flamengo. Sua missão: resgatar o time que, para a diretoria, caminhava para o rebaixamento. O problema seria o técnico Jayme. Pouco rodado para suportar a pressão na Gávea. Pouco importavam os títulos da Copa do Brasil e o Carioca. “Dois abortos da Natureza”, debochou um conselheiro importante.
Jayme viveu a ‘síndrome Andrade’. A maioria dos conselheiros e dirigentes do clube não acreditavam no treinador humilde, ex-jogador. Preferiam um treinador de renome. Daí a traiçoeira troca. O time foi mal demais na Libertadores. Torneio que não estava no planejamento disputar. Foi um presente de Jayme com a Copa do Brasil. Mas sem reforços, vieram os vexames. O Carioca não compensou. Veio a troca, muito cruel.
A imprensa soube antes de Jayme que ele estava fora. E que Ney Franco estava contratado. Quem vazou a informação queria tranquilizar a torcida. A reação viria forte. O treinador badalado teria 45 dias para preparar o time durante a Copa do Mundo. As nove primeiras rodadas do Brasileiro deveriam ser desprezadas. Importaria o que viria pela frente. Havia até novo comandante do futebol, Felipe Ximenez.
A torcida só implorava por três situações. As saídas dos veteranos Felipe, Elano e André Santos. Mas o clube carioca não conseguiu se livrar de nenhum deles. Ney teve de continuar convivendo com atletas sem clima no clube. Dirigentes importantes também querem a saída do trio. Mas eles têm contratos muito bem amarrados. Não vão jogar dinheiro fora.
Ney passou a Copa do Mundo toda implorando a Ximenez reforços. Ele entendeu que seriam pouquíssimos. Tentasse se superar. O grande Flamengo passava a ter um objetivo menos nobre até o final de 2014. Nada de vencer o Brasileiro ou sequer sonhar com uma vaga para a Libertadores. O desejo é não ser rebaixado para a Segunda Divisão. Se não fosse a estranha confusão envolvendo a Portuguesa, ele já estaria na Série B este ano.
O treinador que deveria estar treinando a Seleção foi obrigado a pensar pequeno. Lembrar de 2005, ano glorioso na sua carreira. Quando foi campeão mineiro. Não montando um grande Cruzeiro ou um excepcional Atlético Mineiro. Ney ganhou Minas Gerais com o pequeno Ipatinga.
Rodrigo Posso, Luizinho, Willian, Irineu e Beto, Fahel, Paulinho, Leandro e Léo Medeiros; Walter e Kanu. Esse era o esquadrão. Mais ofensivo até do que o Flamengo que preparou na Copa do Mundo. Precisava mudar. Na derrota por 3 a 0 contra o Cruzeiro, em Belo Horizonte, ele já deixou escapar o que sentia.
“Não era para ter tomado de três ou quatro. Era para ter tomado de oito. De oito. Eu sei que tem jogador que não está nem ai para essa porra. E se não está nem ai para essa porra, eu não estou nem ai para esses caras aí, também.” O educado técnico perdia o controle. E trabalhou muito durante a Copa.
Tratou de colocar três zagueiros. Seria a solução para proteger a equipe. Sabe que seu elenco é fraquíssimo.
A arrancada seria ontem em Macaé, diante do Atlético Paranaense de Doriva. E os sonhos já ruíram. Assim como a convicção de Ney Franco. O Flamengo jogou outra vez mal e perdeu a partida por 2 a 1. A torcida perseguiu Felipe, Elano e André Santos desde que seus nomes foram anunciados pelos alto-falantes. Foram xingados de perto e com ódio no acanhado estádio. Foram péssimos na partida.
Bastou esse jogo e Ney Franco já anuncia que abandonou a ideia de três zagueiros. Samir se machucou. Não deveria importar. E a convicção na filosofia? Nenhuma. O vivido e caro treinador está se deixando engolir pelo tsunami que se forma na Gávea. O clube já é o lanterna, o último colocado no Brasileiro. Na décima da 38 rodadas. Há 28 para buscar a salvação.
O clube tenta amenizar a situação. E apresentará Eduardo da Silva, atacante brasileiro naturalizado croata. Ele nunca jogou futebol profissional no Brasil. Saiu garoto para a Leste Europeu. Se destacou em um torneio no Rio para comunidades carentes: a Taça das Favelas. Foi muito bem no Dinamo Zagreb e acabou vendido ao Arsenal. Estava se firmando quando sofreu uma entrada criminosa de Martin Taylor do Birmingham City, em 2008. Teve fratura exposta da fíbula. Perdeu a chance de disputar a Eurocopa pela Croácia.
Se recuperou fisicamente. Mas não conseguiu voltar a jogar um grande futebol. O Arsenal o vendeu à Ucrânia, para o Shakhtar Donetsk. Aos 31 anos, depois de 15 anos fora do Brasil, recebeu a proposta de atuar pelo Flamengo durante a Copa do Mundo. E aceitou retornar ao país. Vem sem custo, dono dos seus direitos. Seu salário será por metas. Na Ucrânia, recebia R$ 900 mil. A tendência é que o Flamengo parta de R$ 400 mil.
Júlio César, goleiro mais vazado de todas as Copas, estava negociando seu retorno à Gávea. Mas foi aconselhado que a ‘hora não era certa’. Ou seja, o elenco é fraco. E as chances de rebaixamento são reais, concretas.
O Flamengo diminuiu suas dívidas. Mas o balanço oficial de 2013 mostra que é o clube com maiores problemas financeiros do País. Eram R$ 757,4 milhões ao final do ano passado. A torneira foi fechada de vez em 2014. Se comenta que as contas negativas estariam em R$ 650 milhões. Mesmo assim, torna uma tortura tentar administrar o clube.
O presidente Bandeira de Mello sente a pressão vinda do futebol. Não tem paz para seguir tentando reestruturar financeiramente o clube. Na verdade, o rebaixamento para a Segunda Divisão não seria um desastre. Pelo menos na parte administrativa. Seria possível formar uma equipe mais barata e ter um ano de sossego aos cofres do clube. Algo que sempre acalmava a diretoria da Portuguesa na sua ‘briga’ para ficar na Série A.
Lógico que ninguém será louco na Gávea de falar em como seria bom o Flamengo na Série B em 2015. E Bandeira de Mello não deseja essa mancha na sua carreira como dirigente. Por isso o único pedido feito a Ney Franco nestes cinco meses que restam ao final do ano é um só: que salve o time da Segunda Divisão.
O que não está nada fácil. Não bastasse a pressão da torcida, da imprensa e da própria situação, os jogadores entraram em campo ontem com dois meses de salários atrasados. Tudo se complica ainda mais. Melhor para os adversários. Bem-vindo à realidade do futebol brasileiro após a Copa do Mundo…
Fonte: Blog do Cosme Rímoli



























