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Como funcionará o futebol brasileiro sem investidores?

Coluna do Flamengo
Coluna do Flamengo
Publicação: 28/09/2014
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Atualização: 23/01/2015
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O futebol brasileiro não será o mesmo depois da decisão da Fifa de proibir a presença de investidores nos direitos econômicos de jogadores. O tamanho da mudança é incerto – e dependerá das normas que a entidade vai esmiuçar em encontros até meados de 2015. Mas há tendências apontadas por profissionais que circulam pelos gabinetes do futebol. E elas indicam um mercado mais tímido no país: diminuição no salário dos jogadores, menos repatriamentos e menor circulação de atletas, incluindo as categorias de base.
Atualmente, com a presença de investidores, um clube se permite não pagar 100% do valor de aquisição de um atleta. Ao contratá-lo, divide o custo de seus direitos econômicos com um empresário ou um grupo de investimento – que lucrará em uma futura venda. A partir da determinação da Fifa, não haverá esse apoio na compra do jogador. Com isso, o clube gastará mais nessa etapa do processo. E terá menos dinheiro para investir no salário dele, consequentemente.
Salários menores indicam maior chance de saída em caso de assédio do exterior. E menor poder de sedução para repatriamentos – uma marca do mercado nacional nos últimos anos. Ou seja, pode ser um processo interessante para os europeus.
Não por acaso, o advogado Marcos Motta, especialista em direito esportivo e membro do Comitê Executivo da Fifa, vê forte pressão da Uefa no processo. Por lá, a participação de terceiros no direito econômico de um atleta é mais tímida do que no Brasil – chega a ser proibida na França, no Reino Unido e na Polônia.
– Dez anos atrás, o clube europeu chegava ao Brasil com um punhado de euros e levava o jogador. Com o advento dos investidores, oxigenando os clubes, isso mudou um pouco. O clube europeu chega ao Brasil para adquirir o jogador e tem também o investidor na mesa. O que custava cinco passou a custar dez. Por trás dessa história toda, existe o encarecimento da matéria-prima – opinou.
Por outro lado, os clubes parecem ter a sensação de que exageraram no apego aos investidores. Com a mudança de regra, eles terão que se readequar. Tendem a sofrer no começo, mas podem tirar vantagens disso no futuro, como observa o presidente do Coritiba e da Comissão de Clubes da CBF, Vilson Ribeiro de Andrade.
– Em um primeiro momento, essa medida será danosa. Os clubes vão passar por dificuldades. A moeda dos clubes eram os investidores. Os empresários não farão mais investimentos sem que a Fifa dê a regulamentação. No entanto, com o tempo, acho que será salutar. Hoje, a culpa da inflação que os clubes vivem é dos investidores. Eles que elevaram os contratos, e isso traz prejuízo como um todo. Na continuidade, dentro do período de adaptação, acredito que será bom. Em dois, três anos, acho que os clubes se adaptam. Não pode hoje um clube deter só 20% dos direitos econômicos de seus jogadores. Isso é absurdo. Com o tempo, os clubes terão todos os direitos e terão mais controle sobre seus elencos e seus investimentos.
Há casos de vendas significativas que não geram lucros ao clube que tem os direitos federativos do atleta – já que os direitos econômicos estão fatiados com terceiros. A venda de Cléber, zagueiro titular do Corinthians, foi emblemática. Foi negociado com o Hamburgo, da Alemanha, por cerca de R$ 10 milhões. O clube paulista não tinha percentual nele.
Sorte da empresa Elenko Sports, dona de 80% do defensor (os outros 10% eram do próprio atleta e mais 10% de seu empresário, Beto Rappa). Os investidores também têm 50% do meia Petros e 100% do lateral-esquerdo Uendel. Foi ela quem ganhou dinheiro na negociação – um dinheiro que tem circulado cada vez mais entre investidores, na visão de Edu Gaspar, gerente de futebol do Corinthians.
– Acho que, para o futuro, essa decisão vai ser muito positiva para o futebol brasileiro. Não podemos negar que existe um dinheiro que circula dentro do futebol que os terceiros estão tirando. Um exemplo: o Corinthians compra um jogador do São Paulo por 5 milhões. Esse dinheiro entra para o São Paulo, que compra um outro jogador do Santos, que compra um outro do Flamengo… Fica circulando dentro da economia do futebol. O clube pode usar para melhorar seu grupo ou sua estrutura. Hoje, parte desse recurso os investidores estão tirando do futebol.
O cenário ainda é incerto. Há questões sem sinalização da Fifa. Exemplos:
* Data em que a nova regra passará a ser aplicada;
* Como lidar com os atletas que já são fatiados;
* Que pena aplicar aos clubes que não cumprirem a determinação;
* O que fazer com clubes que pertencem a grupos de investimentos.
Na base
Outra tendência é haver menor mobilidade entre jogadores da base de clubes pequenos para clubes grandes. É comum que essa transição seja impulsionada por empresários – que, em troca, ficam com um percentual futuro dos direitos econômicos do garoto. Com isso, equipes do interior podem manter seus elencos de formação por mais tempo. A questão é ter dinheiro para isso. Hoje, boa parte dos recursos sai justamente de investidores.
– A venda de jogadores é uma receita importantíssima. Grandes clubes não são parâmetro. Eles têm outras receitas. Os clubes do interior só têm o jogador. A falência é latente, é muito rápida. Em clubes do interior, quase 80% da receita é de negócios – comenta o empresário Jorge Machado, que relata trabalhar com mais de 70 jovens atletas.
É comum que empresários façam investimentos em uma série de jogadores, ainda na pré-adolescência, na esperança de que algum deles dê certo e compense, com folga, o investimento feito nos demais. É um interesse que, na visão de Machado, deverá diminuir com a nova regulamentação da Fifa. E que poderá causar um impacto na quantidade de atletas revelados.
– Sou investidor. Sustento crianças de 11 anos em clubes que nem chuteiras dão para o jogador. A margem de erro é de 99%. Para cada Mário Fernandes que consigo vender, cada Rafael Sobis, tem todos os outros, para quem dei casa, dei estrutura, e que não conseguem ir adiante. Aí te pergunto: vai valer a pena continuar com isso? Muita criança vai perder essa chance, vai acabar indo para o crime, para a droga. Não vou mais ter condições de fazer isso – completa Machado.
Aos clubes, restará fortalecer ainda mais suas categorias de base e incrementar sua rede de olheiros. É o que destaca o vice-presidente de futebol do Inter, Marcelo Medeiros.
– O que nos preocupa é que não se crie uma distância econômica entre clubes europeus e latinos. Somos mais exportadores, formadores. E essa foi uma forma de ter um nível de competição maior no mercado. É um cenário que está se alterando. O caminho, de qualquer forma, segue na aposta e no investimento das categorias da base. E isso dá tranquilidade ao Internacional. É continuar formando e investindo na base, que tem um valor significativo nas nossas receitas com vendas de atletas.
Clubes a serviço de investidores
Uma questão não respondida pela Fifa, em sua proposição inicial, é como ficam os clubes montados como investimento de grupos privados. Eles podem servir de caminho para empresários seguirem colocando dinheiro em jogadores – afinal, negociações entre clubes não têm empecilhos.
Essa já é uma questão em debate no Brasil. E com variantes. A Traffic, empresa de marketing esportivo, gerenciamento de carreiras e fundo de investimento em jogadores, tem um clube, o Desportivo Brasil. Mas ele disputa campeonatos, tem categorias de base. Em uma análise da Fifa, não seria um caso de clube de fachada, provavelmente.
– É um cenário que não nos causa preocupação. Temos o clube, totalmente ativo. Aos investidores, sim, pode ser um problema – observa Rafael Botelho, diretor jurídico e de relações institucionais da Traffic.
Marcos Motta diz que a Fifa está atenta a isso. Ele prevê que o próximo passo da entidade será abafar os falsos clubes.
– Muita gente fala que os empresários vão comprar clubes. Vale lembrar que a Fifa está monitorando os clubes hospedeiros. Eles são o novo alvo da Fifa. Um clube uruguaio e quatro argentinos foram sancionados pela Fifa, com 50 mil euros e impedimento de transferir jogadores, por causa disso. Em caso de reincidência, serão banidos.
Se não houver essa preocupação, o que pode ocorrer é uma redução no nicho dos investidores, com o poder concentrado em poucos. É o que alerta Felipe Ximenes, diretor executivo do Flamengo.
– No Brasil, os grandes investidores já têm equipes que os protegem nestes investimentos. Isso pode prejudicar os menores e, de certa forma, concentrar as negociações em um número mais reduzido de investidores. Ainda não sabemos como o mercado vai se acomodar, mas, em nível sul-americano, esses empresários estão estruturados. Em uma visão inicial, acredito que os pequenos investidores têm uma tendência de migrar para os grandes, mas não é algo que mude muito para os clubes.
Para evitar isso, o coordenador de futebol do Criciúma, Julio Rondinelli, sugere regras diferentes para os clubes – entre aqueles ativos e inativos.
– Poderia ser restrita a quantidade de empréstimos por clubes que estão inativos, fora das quatro divisões do Campeonato Brasileiro, ou que disputam copas organizadas pelas federações de estado. Haveria uma limitação de transferência de jogador de clube menor para um maior, mas não de maior para o menor. Tem clube que não disputa nem a Série D e tem 20 ou 30 jogadores emprestados. Esse veto diminuiria a quantidade de jogadores em clubes menores e vinculados por interesse de um investidor, diminuiria ainda mais a participação em fatia de direitos. Tem casos de atleta que esteve em determinado clube por dois anos e nunca jogou por ele, nem tinha objetivo que isso ocorresse – comenta o dirigente.
Próximos passos
Em dezembro, está prevista outra reunião do Comitê Executivo da Fifa, em Zurique. Devem ser alinhados os detalhes da nova regulamentação. Mas a definição deve ficar para março de 2015, quando o grupo volta a se encontrar, desta vez em Marrakesh, no Marrocos. Marcos Motta está entre aqueles que tentam flexibilizar a iniciativa – e tem a parceria de clubes como o Porto e da Federação Espanhola, enquanto a federação de atletas da Europa e a Uefa defendem a mudança.
– A discussão não é mais se vai ser implementado: é como e quando será – resume Motta.

Fonte: GE
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